Rhye: “Acho os portugueses emocionalmente inteligentes”

Invulgar fenómeno de culto ao primeiro álbum, através de uma música leve e voluptuosa, os Rhye, ideia desenvolvida por Mike Milosh, estão de regresso com Blood, álbum tocado por um tipo de melancolia feliz que o canadiano identifica com amigos portugueses.

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Genevieve Medow Jenkins

Uma mistura de leveza e gravidade. Foi assim que os Rhye se apresentaram em 2012 em canções como Open ou The fall. Nessa altura ninguém sabia quem eram. Uns meses depois, em Março de 2013, surgiu o álbum Woman, e o mundo espantou-se. A voz andrógina que se fazia ouvir, afinal, era de um homem e não de uma mulher como muitos suponham. E a sonoridade, ritmos electrónicos tranquilos com arranjos orquestrais e linhas de baixo a pontuar tudo, numa sensual soul-pop electrónica, com letras de teor confessional, foi-se tornando num sucesso.

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Uma mistura de leveza e gravidade. Foi assim que os Rhye se apresentaram em 2012 em canções como Open ou The fall. Nessa altura ninguém sabia quem eram. Uns meses depois, em Março de 2013, surgiu o álbum Woman, e o mundo espantou-se. A voz andrógina que se fazia ouvir, afinal, era de um homem e não de uma mulher como muitos suponham. E a sonoridade, ritmos electrónicos tranquilos com arranjos orquestrais e linhas de baixo a pontuar tudo, numa sensual soul-pop electrónica, com letras de teor confessional, foi-se tornando num sucesso.

“Para mim foi uma enorme surpresa”, diz-nos o homem da voz, o canadiano Mike Milosh, há uma semana, em Lisboa, onde esteve para falar de Blood, segundo álbum a ser editado a 2 de Fevereiro. “Não era previsível o que aconteceu nos últimos anos depois desse disco inicial”, afirma. “A minha vida mudou por inteiro.” Ouvimo-lo falar de forma pausada, mas também com paixão, e é como se a música constituísse um reflexo da personalidade. Aliás ao longo da conversa enunciará isso. “As canções têm qualquer coisa de vulnerável porque eu também sou assim.”

Quando o projecto começou eram dois. Na altura Mike Milosh vivia em Berlim, havia lançado três álbuns solitários como Milosh, numa linha mais assumidamente electrónica, quando o dinamarquês Robin Hannibal (Quadron) o desafiou para uma remistura. Depois de alguns contactos, acabaram por criar um álbum, feito em pouco tempo num rudimentar estúdio caseiro e completado em Los Angeles, para onde entretanto Milosh foi viver. No entanto Robin Hannibal rapidamente se desvinculou.

Quando os Rhye começaram a dar concertos, já estava ao leme apenas Milosh, acompanhado de cinco músicos que, desde então, o têm seguido. “Há poucos dias estivemos a contabilizar o número de concertos nos últimos anos e contámos 476 o que é imenso”, diz-nos ele, com um sorriso. Correram mundo e Portugal também os viu várias vezes. “Quando o álbum foi lançado, parecia saído do nada, e isso teve muito impacto, mas o sucesso mais abrangente, pelos padrões de hoje, foi acontecendo aos poucos. O efeito mais positivo foi permitir-me andar em digressão tanto tempo que era algo que desejava. Mas foi um processo de construção, não foi de repente. Na primeira digressão perdi dinheiro. Foi um investimento, mas felizmente depois as coisas foram-se equilibrando.”

O primeiro álbum foi concebido em estúdio, sendo depois as canções adaptadas para o contexto de concerto. Agora a relação criativa alterou-se, com os temas do novo álbum a reflectirem os últimos anos em digressão. “O primeiro álbum foi feito num quarto, usando técnicas rudimentares, porque não havia dinheiro. Foi um álbum barato mesmo segundo os padrões actuais. O novo disco foi também feito com os meus próprios fundos, mas desta vez num estúdio, nos dois últimos anos, por entre os concertos. E naturalmente foi permeável a essa dinâmica. Mesmo que não fosse algo consciente, estava lá essa coisa de desejar fazer canções que pudessem resultar ao vivo. A maior parte das canções de Woman foram transformadas para serem tocadas ao vivo. Aqui o processo foi o contrário. É um disco fácil de traduzir para o palco.”

Quem foi vendo ao vivo os Rhye ao longo dos últimos anos facilmente reconhecerá que o colectivo está hoje bem mais solto. Em particular, Milosh. “No início era muito tímido, mas depois fui-me libertando e cada vez desfruto mais”, reconhece, salientando que existiu um volte face há uns anos provocado por uma situação trivial. “Costumava ter sempre o microfone fixo no suporte e nunca lhe tocava. Um dia, quase por acaso, tirei o microfone do suporte e foi uma revelação. Senti-me livre e disponível. Foi um momento de tal forma redentor que dei por mim a pensar porque é que nunca o tinha feito antes. Senti-me estupido.”

Essa maior organicidade sente-se na sonoridade, embora os princípios norteadores do anterior álbum estejam lá. Ou seja, a matriz identitária acaba por ser a mesma, marcada pela voz aveludada e o som lânguido, algures entre as estruturas pop, os ambientes do jazz mais ligeiro e uma soul macia, da qual resultam canções elegantes e calorosas de clima intimo, com letras apologéticas absorvidas por sugestões de romance.

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Genevieve Medow Jenkins

Intuitivamente

O que também não mudou foram as alusões de sensualidade nas fotos ou nos vídeos, onde a namorada de Milosh está quase sempre presente. Aliás a concepção das imagens e a produção dos vídeos, ou são da sua responsabilidade directa, ou com a sua supervisão. “Para mim tudo isso faz parte do plano criativo por isso é importante envolver-me”, diz. “O vídeo de Please foi feito por mim e muitas fotos também, porque quando tenho uma ideia específica em mente gosto de ser eu a executá-las.”

O novo álbum foi sendo feito sem pressas no espaço de dois anos. “Tocava, viajava, fazia concertos, vivia, compunha e foi assim que a coisa foi acontecendo”, refere. “Não é um álbum conceitual nesse sentido. Não o racionalizei muito. Foi sendo feito intuitivamente, mas acaba por reflectir uma unidade sonora que provém do som analógico. Não quis utilizar sintetizadores e até os ritmos foram tocados por mim. Por outro lado as canções, as letras e as melodias respiram o mesmo espaço emotivo. Estão ali dois anos da minha vida e das minhas agitações.”

Na escrita das letras, diz, prevalece também uma certa espontaneidade. Ao contrário de outros músicos que conhece não anda “com um livro de apontamentos atrás”, para poder desenvolver ideias mais tarde. “O meu processo é simples. Escrevo as letras quando estou a trabalhar a música em estúdio. Vou murmurando alguns sons e as letras vão surgindo”, expõe por entre risos, embora reconheça que há excepções. Foi o caso de Please, exemplo de como as suas experiências se vão inscrevendo naquilo que faz. “Essa canção surgiu depois de uma discussão com a minha namorada da qual me arrependi e acabei por criá-la para lhe mostrar todo o meu arrependimento. Não queria apenas pedir-lhe desculpa com palavras, mas produzir um momento emocional autêntico em forma de música.”

O que não mudou foi a voz. No início comparavam o seu registo ao de Sade, algo que sempre estranhou. “Não tenho controlo sobre o que as pessoas dizem acerca de mim, mas não creio que a minha voz seja semelhante à dela”, ri-se, revelando ter consciência que o seu registo é imediatamente reconhecível. “Parte da identidade do projecto tem a ver com a voz, mas também com a música. Acho que é sempre assim. A Björk tem uma voz inigualável, mas o conjunto da sua música também o é.” Do que não gosta muito de falar é de possíveis influências, dizendo ouvir essencialmente música clássica e não tanto pop, embora refira que gosta de Marvin Gaye, Michael Jackson, hip-hop ou Beatles. “Mas não sou influenciado por nada em particular. Gosto é de criar o meu próprio som.”

Para além da música, a sua grande referência é o cinema, nomeando filmes como Love (2015) de Gaspar Noé ou Good Time (2017) com Robert Pattinson como referências recentes. Apesar de viajar imenso e de já ter vivido em Toronto, onde nasceu, em Montreal, onde estudou, e em Berlim, na Tailândia e nos últimos anos em Los Angeles, diz que a sua música é imune a contextos geográficos. “O que é importante é o interior, não o exterior”, justifica. “A minha música é o reflexo de quem eu sou. Faço a música baseada nos meus sentimentos. Não interessa se faz neve ou sol”, diz numa alusão ao clima solarengo da Califórnia. “Sou canadiano, tenho ascendência ucraniana e a minha pele ressente-se do sol. As pessoas imaginam que em L.A. passo o tempo ao sol ou dentro de água mas não é assim”, ri-se. “Em L.A. a água é fria. Na Tailândia, sim, gosto de nadar.”  

De tal forma está com uma relação difícil com L.A. que a hipótese de partir novamente para um outro destino não está posta de parte e Lisboa até seria uma boa hipótese. “O meu melhor amigo é português, vive em Montreal e crescemos juntos. É alguém muito afectuoso, uma pessoa incrível e o pai dele é de Lisboa”, revela, ao mesmo tempo que vai desfiando o que não lhe agrada em Los Angeles. “Passo o tempo à procura de comida”, ri-se. “É difícil encontrar boa comida na cidade, ao contrário do que acontece em Berlim ou Lisboa. Depois o tráfego é terrível. Para visitar amigos temos que pegar no carro, metermo-nos no trânsito e quando finalmente se chega já estamos exaustos. Na verdade não gosto muito de L.A. É uma cidade com uma mentalidade muito corporativa.”

Mas, atenção, nem tudo é mau em L.A., desde que seja fora de L.A. “Quando estou na cidade o que mais gosto de fazer é sair dela”, ri-se ele, enunciando o deserto ou o parque de Joshua Tree como os locais que mais o atraem, para além da região do Big Sur. “Toda a família da minha namorada é de lá e passamos lá muito tempo apesar de serem cinco horas a conduzir para chegar. Eles vivem nas montanhas, no meio das árvores. Não sou nada religioso mas respira-se ali qualquer coisa de mágico. É como se a natureza estivesse a dialogar connosco. É melhor do que L.A.”

Já em Lisboa, para além de “gostar de andar de forma descontraída, sem destino, olhar em volta, perder-me e sentar-me no parque”, revê-se nas pessoas que foi conhecendo. E tenta explicar. “Sei que é um lugar-comum mas aqui sinto que existe uma ligação com uma série de dimensões emocionais que partilho. Por exemplo, a melancolia. Aqui percebem que a melancolia não é sinónimo de tristeza, mas sim de contacto com as nossas emoções no sentido mais profundo. Acho os portugueses emocionalmente inteligentes e satisfaz-me que possam transmitir-me que a minha música tem qualquer coisa dessa melancolia. Uma melancolia, digamos assim, feliz.”