Uma cerveja minhota com vinho incorporado

Esqueça a preocupação com a acidez do vinho. A Letra promete soltar apenas os aromas das uvas Loureiro. E fica a promessa – a amaciar na barrica – de uma grape ale com Alvarinho

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O enólogo Anselmo Mendes é um dos responsáveis pela nova cerveja feita com vinho

Nem foram umas cervejas com o sol de meio da tarde, nem um copo de vinho a acompanhar um jantar. Entre uma coisa e outra, mesmo na hora escolhida, a nova cerveja da Letra apresenta-se como uma grape ale – uma cerveja feita com vinho. Acima de tudo, uma experiência. Entre Filipe Macieira, um dos fundadores da cervejaria minhota, e o enólogo Anselmo Mendes, o espírito foi precisamente esse: não sabiam no que ia resultar, mas sabiam que ia sair algo.  

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Nem foram umas cervejas com o sol de meio da tarde, nem um copo de vinho a acompanhar um jantar. Entre uma coisa e outra, mesmo na hora escolhida, a nova cerveja da Letra apresenta-se como uma grape ale – uma cerveja feita com vinho. Acima de tudo, uma experiência. Entre Filipe Macieira, um dos fundadores da cervejaria minhota, e o enólogo Anselmo Mendes, o espírito foi precisamente esse: não sabiam no que ia resultar, mas sabiam que ia sair algo.  

“É uma coisa muito simples”. Depois de minutos de apresentação da nova cerveja Letra, Anselmo Mendes, também natural de terras minhotas, tenta simplificar. Afinal, apesar de ser tudo afinado cautelosamente, a experiência (que, neste caso, advém de anos de inovações) torna tudo mais fácil. Nesta cerveja, apresentada no passado sábado, não vai encontrar a acidez do vinho, mas vai sentir os aromas tropicais da uva Loureiro, utilizada nesta primeira grape ale.

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“A Letra lançou o desafio ao Anselmo Mendes para criar esta cerveja”, adianta Filipe Macieira. Mais tarde, o enólogo confessa que foi “logo ter com eles”. A razão para encontrarmos uma cerveja tão suave e sem o traço vínico característico está na fermentação, onde Anselmo Mendes decidiu fazer algo que pensa ser “único no mundo”: colocar bagos de uva na fermentação de uma cerveja. “Não vamos atacar em quantidade, porque marca em acidez. Mas vamos atacar em termos aromáticos”, recorda.

E assim foi. Um ano em barrica reutilizada de Alvarinho, uvas originárias do Vale do Lima e a resposta à questão inicial: “Como é que podemos ir buscar uvas Loureiro sem desvirtuar a cerveja? O que podemos acrescentar?” Essa mesma resposta foi encontrada durante a apresentação realizada no dia 25 na Letraria Craft Beer, no Porto, que incluiu uma sessão de prova da cerveja, no piso inferior da cervejaria.

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Se estiver atento aos nomes enunciados, percebe uma coisa: todos os caminhos vão dar ao Minho. O objectivo também passa por aqui, como nos esclarece Filipe Macieira, que quer “criar uma comunidade com a região”, e isso passa também por estudar e incentivar o lúpulo nos terrenos minhotos. Esta é uma parte importante para a Letra, que continua a ter a sua fábrica em Vila Verde, Braga, numa demonstração da ideia de transformar a cerveja, algo que não tem, geralmente, designações regionais, num produto minhoto. Daí que a grape ale da Letra seja feita “com castas tipicamente minhotas”. Agora, a uva Loureiro, no futuro, o Alvarinho.

“Quando se fala em Alvarinho, associa-se logo a uma região específica do Alto Minho”, afirma um dos fundadores da Letra. E a próxima cerveja a ser apresentada vai mesmo ter o Alvarinho como referência. Mas por enquanto é preciso esperar, como explica Anselmo Mendes: “O Alvarinho já foi noutro registo. Enquanto esta cerveja foi feita com bagos de uvas dentro da fermentação, na de Alvarinho foi misturado mosto com, digamos, mosto para a cerveja. E aí, a cerveja fica mais vínica e sente-se a força da casta Alvarinho, por isso é que ainda está em maturação, para amaciar aquela acidez”, explica.

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Filipe Macieira, um dos fundadores da Letra, brinda à nova cerveja da marca minhota

Não é a primeira experiência que a Letra faz com vinhos. No ano passado, a cervejaria já tinha feito uma grape ale com a Quinta do Portal, como contam na apresentação. “Tínhamos feito com mosto de vinho do Douro e ficou muito mais ácida. Basta mudar um pequeno parâmetro no processo para o produto ser completamente diferente”, recorda Filipe Macieira.

Esta é também uma forma de “partir a casca do vinho”, como ilustra Anselmo Mendes. Mas também de abrir a cerveja a outros públicos. Segundo o enólogo, esta parceria permite que “um mais um sejam três”, ou seja, que ganhe a cerveja, o vinho e a mistura de dois produtos antigos e recorrentes na mesa portuguesa. “O vinho precisa de atrair novos consumidores, a cerveja é mais informal. Tanto o vinho consegue atrair outro tipo de públicos, como a cerveja consegue atingir outras pessoas”, concorda Filipe Macieira.

Esta sintonia, que permitiu criar esta nova cerveja – e que, no futuro, pode incluir castas de vinho tinto, como a Vinhão -, vai continuar porque o resultado “superou as expectativas”, como repetem. Um brinde e “saúde!”, para terminar, com a prova da grape ale minhota – e que para o ano promete trazer o Alvarinho em copo de cerveja.