Artes

Quando estão ao espelho a mulher quer ser bonita e o homem quer ser eterno?

Só na arte feita por homens (e na história escrita por eles) é que a mulher ao espelho é por regra vaidosa. Quando é ela a representar-se, a narrativa é outra. A nova exposição da Gulbenkian é um sonho antigo. De uma mulher.
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Entramos na exposição como quem entra num jogo que começa com uma pergunta saída da segunda aventura da Alice de Lewis Carroll — “Quem sou eu do outro lado do espelho?” — e que se mantém ao longo de cinco núcleos temáticos em que a arte antiga e a contemporânea convocam imaginação e percepção.

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Quase 70 obras de 40 colecções públicas e privadas, portuguesas (museus nacionais de Arte Antiga e Grão Vasco, Universidade de Coimbra ou Palácio de Queluz) e estrangeiras (os museus espanhóis Rainha Sofia e Thyssen-Bornemisza, a britânia Tate, o Palácio de Belas Artes de Lille e o Centro Pompidou, em Paris), servem de “tabuleiro” ao jogo.

É a Maria Rosa Figueiredo, conservadora do Museu Gulbenkian há mais de 40 anos, que se deve o guião desta exposição de Inverno (até 5 de Fevereiro). Do Outro Lado do Espelho é um projecto antigo que parte de uma série de imagens que foi juntando ao longo de toda a sua vida profissional e que, depois da chegada de Penelope Curtis à direcção do Museu Gulbenkian, em 2015, foi substancialmente alterado. “A ideia inicial era fazer uma exposição sobre o espelho só na arte antiga, mas quando chegou a nova directora, com esta ideia de juntar a Colecção do Fundador à nossa Colecção Moderna, passámos a incluir a arte contemporânea”, diz ao PÚBLICO a comissária. Leonor Nazaré, outra conservadora da casa, ficou, então, encarregada de identificar obras do século XX e XXI que podiam adaptar-se ao projecto original.

“Eu sugeri as obras contemporâneas em função da estrutura de núcleos que já estava desenhada pela Rosa e sempre com a preocupação de garantir que poderiam estabelecer uma relação com a pintura e a escultura de outras épocas já representadas, mesmo quando essa relação não parece muito evidente”, explica Leonor Nazaré, chamando a atenção para Dois Rapazes na Fonte (1962-1975, Museu Colecção Berardo), do italiano Michelangelo Pistoletto, obra em que se vêem duas figuras recortadas sobre um espelho: “No século XVIII havia a tradição de engalanar espelhos, pintando-lhes umas molduras à volta, como se o espelho entrasse na pintura. Ora, o que Pistoletto faz aqui é o contrário — pega num espelho e põe lá dentro uma fotografia.”

Seja por contraste, seja por simpatia, as “conversas” que se vão estabelecendo em Do Outro Lado do Espelho pretendem criar um território, tal como a obra de Carroll, em que tudo pode acontecer. Humpty Dumpty, Tweedledee e Tweedledum não aparecem, mas Alice está lá – nalgumas das pinturas (é a sua mão que vemos a atravessar o espelho, já de regresso a este mundo, em La Main d’Alice, 1983, de Eduardo Luiz), no carácter lúdico dos “brinquedos” ópticos do século XVIII do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, nos múltiplos sentidos que as palavras podem assumir quando falamos de profundidade (a de campo ou de uma ideia) e de reflexão (a óptica ou a que implica o pensamento).

“Quando pegamos no espelho pegamos na reflexão e essa é uma palavra muito desafiante”, diz Leonor Nazaré, a co-comissária. “Introduz a questão da simetria/assimetria, do duplo, da inversão… E o próprio espelho sugere, como nos ensinou Alice, uma passagem: se abre apenas uma janela, convida-nos a olhar; se abre uma porta convida-nos a atravessar com o corpo inteiro.”

Memórias de infância

Para Maria Rosa Figueiredo um espelho é sempre uma oportunidade para jogar e para pensar. Em criança uma das suas diversões favoritas era a Casa dos Espelhos da Feira Popular (então na Avenida de Berna, precisamente onde é hoje a Fundação Gulbenkian) e uma das suas maiores conquistas foi ter um guarda-vestidos com um espelho grande no quarto onde brincava, recorda. “Quando era miúda achava-me esquisita – usavam-se os cabelos aos caracóis e os meus não podiam ser mais lisos -, mas mesmo assim, até ir para o colégio interno, aos 14 anos, passava muito tempo a conversar com o espelho.”

É por causa desta ligação às suas memórias de infância que faz questão de apontar para o vídeo Svyato (2005), do russo Victor Kossakovsky. Nele o artista, que em sua casa cobriu toda e qualquer superfície reflectora durante dois anos, filma os primeiros encontros do seu filho com o espelho. Vemos os corredores mergulhados numa luz suave, com as cortinas a esvoaçar, vemos Svyato (nome que quer dizer “feliz”) em correrias, em brincadeiras com o seu reflexo, que primeiro julga pertencer a outra criança, e a pentear os seus cabelos loiros compridos com as mãos, demoradamente.

“Só mais tarde, como nos mostra [Jacques] Lacan [médico e psicanalista francês que teorizou o Estádio do Espelho], é que se apercebe que é ele que está no espelho e entra no jogo. Ganha consciência do eu.” E chega a olhar-nos como se, no lugar de onde o vemos, estivesse um espelho que o intriga e o diverte.

Este vídeo de Victor Kossakovsky é uma das peças do primeiro núcleo desta exposição que abre com uma pintura de James Abbott McNeill Whistler, Symphony in White, no 2: The Little White Girl (1864), em que uma jovem mulher vestida de branco se vê ao espelho.

“Ao longo da vida, sempre que visitava um museu ou folheava um catálogo, procurava obras de arte com espelhos e reflexos. Acabei por coleccionar umas 400 imagens como esta, em que o espelho aparece, mas nem sempre é imediato o que ele nos sugere. Esta pintura do Whistler, por exemplo, não sabia bem onde a pôr. Não parecia encaixar-se em nenhum dos núcleos da exposição e por isso deixei-a à entrada, a chamar as pessoas”, diz a comissária.

No primeiro dos cinco núcleos que Rosa Figueiredo concebeu o visitante começa por se confrontar com o seu próprio reflexo num belíssimo espelho de René Lalique dominado por duas serpentes, que pertence à Gulbenkian, mais precisamente ao acervo a que hoje se chama Colecção do Fundador. E é frente a esta peça de 1899-1900 que muitos escolhem fazer a primeira das selfies que a exposição lhes há-de sugerir (no dia em que o PÚBLICO a percorreu, portugueses e estrangeiros aproveitavam as várias superfícies espelhadas, as das obras e as da cenografia que o designer Mariano Piçarra concebeu para as apresentar, para se fotografarem).

Vistas bem as coisas, a selfie também é um espelho, um auto-retrato, lembra Leonor Nazaré, remetendo para o último módulo da exposição (já lá iremos). “Gostava que o leitor saísse daqui a sentir que teve um papel activo na travessia imaginária do espelho, que sentisse que mergulhou nele e que pensou na distância que fica entre a imagem e o real, em si mesmo e fora de si”, acrescenta a comissária.

Na arte, como na vida

Para “ajudar a pensar” está lá o guião que propõe uma primeira secção que se concentra no espelho identitário e continua no alegórico, em torno de vícios e virtudes. No núcleo inaugural encontramos o espelho no universo da mitologia — O Espelho de Vénus (1875), de Edward Burne-Jones, e Narciso e Eco (c.1797), de Vieira Portuense — e no território da casa, íntimo (Mrs. Russel e filho, 1786-87, de George Romney). Pelo meio há uma obra deliciosamente irónica — Who Cares (s/data), de Ana Jotta — em que um pequeno coelho de cerâmica se confronta com a sua imagem sobre a capa de um livro.

No segundo módulo, a mesma Ana Jotta cita dois pintores de épocas bem distintas —Diego Velázquez (1599-1660) e Paula Rego, que nasceu em 1935. O seu Girl and Dog (1987) usa uma reprodução de uma pintura do mestre espanhol (Vénus ao Espelho) para nos devolver uma mulher que se olha a um espelho que nada reflecte e que tem a seu lado um cão que podia muito bem ter fugido de uma das obras da artista portuguesa a quem se devem pinturas como Preparando-se para o Baile (2001-2002) e Mãe (1997), agora expostas na Gulbenkian. Obras contemporâneas que convivem com Livros de Horas com mais de 500 anos, ricamente iluminados; alegorias do século XVII em que a Prudência é Ana da Áustria, infanta de Portugal e mãe de Luís XIV; gravuras do século XVIII e pinturas de anjos com asas de borboleta (Vanitas, c. 1535, de Jan Sanders van Hemessen).

“É um anjo belíssimo que o museu [o de Belas-Artes de Lille, França] não costuma emprestar. Fiquei muito contente que viesse”, diz Rosa Figueiredo. Lida com assuntos muito sérios como todas as Vanitas — a passagem do tempo, o fim da beleza e da própria vida — mas tem também um lado quase infantil por causa das suas asas inusitadas.

Pouco comum é também o auto-retrato de Arpad Szenes que encontramos no núcleo Espelhos que revelam e espelhos que mentem, onde se expõem brinquedos ópticos do século XVIII, uma obra de Paul Delvaux (Mulher ao Espelho, 1936) que faz pensar na Alegoria da Caverna, de Platão, e fotografias de Ana Janeiro (Onze#13, de 2004) e Cecília Costa (Notting Hill II, Série Pli, 2006) em que a primeira parece surpreendida pelo seu falso reflexo e a segunda evoca a Reprodução Interdita (1937), de René Magritte, num diálogo directo com a obra de outro português, Noé Sendas (Crystal Girl no. 78, 2012), que se mostra ali bem perto.

No auto-retrato de 1930, que veio do Pompidou, o húngaro Arpad Szenes não chega a aparecer — é a sua mulher, a pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, que surge no espelho, curiosamente sem cabeça. A comissária interpreta, assim, esta “decapitação” da artista: “O Arpad faz vários retratos da mulher, mas neste representa-a só do pescoço para baixo, talvez para dizer que é ela que não lhe sai da cabeça.”

Na relação de Arpad e Maria Helena — um casal de artistas que trabalhou sem abdicar da sua autonomia e sem que um se tornasse, em termos criativos, subsidiário do outro — parecem não ser visíveis os preconceitos que marcam a presença da mulher no mundo das artes, quer do lado de quem representa como do lado de quem é representado. Preconceitos que a historiadora de arte feminista Linda Nochlin, norte-americana que morreu a 29 de Outubro, procurou combater durante toda a sua vida, tanto em livros e ensaios, como em exposições e movimentos cívicos, explica a investigadora Filipa Lowndes Vicente num artigo que saiu este domingo no PÚBLICO.

De certa maneira, alguns dos estereótipos que condenaram as mulheres artistas à invisibilidade ao longo de séculos — situação que só começou a ser contrariada na década de 1970 — são denunciados em Do Outro Lado do Espelho se confrontarmos o terceiro e o último dos cinco núcleos da exposição.

Nas obras reunidas em A mulher em frente ao espelho, o que vemos são mulheres que procuram a beleza enquanto se arranjam para um baile, colocam um brinco ou deixam que lhes penteiem o cabelo. Nas que fazem parte de O espelho masculino, é a ideia de duplo que impera, de multiplicação, sem qualquer vestígio de futilidade.

“Tudo isto é natural se pensarmos que a arte também reflecte modelos e práticas sociais”, explica Leonor Nazaré, a comissária que escolheu os trabalhos de Jorge Molder, Daniel Blaufuks, Rui Sanches ou Richard Hamilton que agora ali se podem ver. “As desigualdades homem/mulher, os preconceitos, as condescendências, também fazem parte da história da arte, que muitas vezes os perpetua porque é, sobretudo, uma narrativa feita por homens.”

É por isso que ao homem cabem, mesmo quando é de espelhos que falamos, os “temas sérios” — os que envolvem a auto-representação e a ciência, por exemplo. “Quando são os homens que contam a história, elas são sempre vaidosas ao espelho” e, se são eles a procurar o seu reflexo, “o seu único desejo é o de eternidade.”

Mas quando o narrador é uma artista como Paula Rego, a posição de força inverte-se. Em Mãe (1997), da série O Crime do Padre Amaro, baseada no livro homónimo de Eça de Queirós, o homem é ridicularizado,  aparece frágil, infantilizado e manipulado pelas mulheres. “Com esta pintura, a história que se conta é outra.”