Weinstein perde séries, editora e o próprio irmão. Tarantino está de “coração partido”

Amazon corta ligações com a Weinstein Co., Hachette extingue chancela Weinstein e Academia pode expulsar Harvey. “Tenho um irmão indefensável" e "depravado", diz Bob Weinstein.

Foto
Harvey Weinstein GUILLAUME HORCAJUELO/EPA

“Na última semana, tenho estado atordoado e de coração partido pelas revelações que vieram a lume sobre o meu amigo de 25 anos, Harvey Weinstein”, revelou sexta-feira Quentin Tarantino, um dos nomes mais associados ao produtor caído em desgraça após dezenas de acusações de violação e assédio sexual. O irmão e sócio, Bob Weinstein, espera que o seu irmão “doente e depravado” tenha “a justiça que merece”.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

“Na última semana, tenho estado atordoado e de coração partido pelas revelações que vieram a lume sobre o meu amigo de 25 anos, Harvey Weinstein”, revelou sexta-feira Quentin Tarantino, um dos nomes mais associados ao produtor caído em desgraça após dezenas de acusações de violação e assédio sexual. O irmão e sócio, Bob Weinstein, espera que o seu irmão “doente e depravado” tenha “a justiça que merece”.

Continuam os desenvolvimentos em todas as frentes: projectos com o selo Weinstein a cair com o produtor, dos livros às séries da Amazon ou Apple. Uma reunião da Academia de Hollywood pode expulsar Harvey Weinstein este sábado.

Na esteira do escândalo Weinstein, uma das vozes cujo silêncio era bastante audível era a de Tarantino, realizador pouco conhecido pela contenção pública e autor de tomadas de posição bem visíveis, como quando condenou a violência policial sobre os negros nos EUA.  Agora, e através da conta de Twitter da actriz e realizadora Amber Tamblyn, fala pela primeira vez sobre o que terá feito o homem que ajudou a erguer a sua carreira – distribuiu o seu primeiro filme, Cães Danados, e produziu todos os restantes projectos de Tarantino. Este está de “coração partido” e anunciou: “Preciso de mais uns dias para processar a minha dor, emoções, raiva e memória e depois falarei publicamente sobre isso”.

Bob Weinstein, irmão mais novo e sócio de Harvey Weinstein, falou este sábado do caso à Hollywood Reporter. Desenha um cenário em que diz ter-se afastado do irmão há cerca de cinco anos, incomodado pela sua conduta para com a mulher, mas também profissional. Ainda assim, nega saber da extensão dos seus actos e garante que há um plano para que a empresa homónima sobrevenha à queda em desgraça do nome Weinstein. Diz não saber “o tipo de predador” que Harvey Weinstein será. “Tenho um irmão indefensável e doido”, diz numa entrevista à Hollywood Reporter, desejando que a justiça siga o seu caminho e ele tenha o que mereça.  

Foi no dia 5 de Outubro que o jornal New York Times lançou a primeira parte de uma investigação que teria depois sequência nas suas páginas, e foi a 10 que a revista New Yorker lhe acrescentou novos e chocantes detalhes – dezenas de actrizes, de Ashley Judd a Asia Argento, passando por Gwyneth Paltrow e Angelina Jolie, acusam Harvey Weinstein de assédio, agressão sexual e violação. O produtor e distribuidor da Miramax e da Weinstein Company admitiu ter cometido erros, depois disse que iria procurar ajuda, mas ameaçou também o New York Times e o jornalista Ronan Farrow (filho da actriz Mia Farrow e uma das vozes que apoiou a irmã, Dylan Farrow, na divulgação pública da sua alegação de que Woody Allen abusou dela quando era criança) com processos.

Sucederam-se manifestações de apoio às mulheres que falaram publicamente do que parece ser uma parte persistente da cultura em Hollywood, mas não só, houve manifestações de choque e reacções negociais. Nessa frente, a Weinstein Company, que não teve os seus melhores anos na história recente, estava envolvida numa série de projectos que começam a cair por terra. Os irmãos Bob e Harvey têm, respectivamente, 20% do capital da empresa, e Harvey foi despedido há uma semana.

As suas séries para a Apple foram canceladas e a produção para a Amazon Studios de uma série de David O. Russell com Robert DeNiro está oficialmente cancelada; a outra série produzida pela Weinstein Company para a Amazon, The Romanoffs de Mathew Weiner (o criador de Mad Men), passou totalmente para as mãos da Amazon Studios. Esta, por seu turno, suspendeu o seu presidente Roy Price após ter sido tornada pública uma acusação de assédio sexual – formalizada em 2015 pela alegada vítima e noticiada há dias pela Hollywood Reporter. Sexta-feira, num memorando interno revelado pelo Buzzfeed, o presidente de desenvolvimento da Amazon, Jeff Blackburn, classificou as notícias sobre Weinsten “chocantes e perturbadoras – e infelizmente fazemos parte delas”, lamentou.

A estreia de Oliver Stone na realização televisiva também pode estar em causa, com a série ainda em pré-produção Guantánamo, para o canal Showtime, por vontade do próprio Stone. No Facebook, e depois de ter retractado as declarações em que dizia que Weinstein “não devia ser condenado por um sistema de justiceiros”, o realizador disse que não deixaria o projecto se a empresa com o nome agora tóxico em Hollywood se mantivesse associada a ele.

Outros projectos da Weinstein estão em causa. A realizadora Tara Wood, cujo documentário 21 Years: Quentin Tarantino deveria ser distribuído pela Weinstein, quer ser libertada desse contrato após as alegações sobre assédio sexual por parte do testa de ferro da empresa. O grupo multinacional Hachette “extinguiu” a chancela Weinstein Books, considerando que “uma mudança de nome” serve melhor os interesses dos seus autores.

Depois de Jane Fonda ter admitido saber dos rumores sobre o comportamento de violência sexual de Weinstein há um ano e lamentar nada ter dito então, também o actor Colin Firth veio a público no mesmo espírito. O Discurso do Rei, da Weinstein Company, deu novo impulso à carreira do actor britânico. Mas “há muito tempo”, a actriz britânica Sophie Dix, que contou ao Guardian esta semana como terá sido agredida sexualmente por Harvey Weinstein, tinha-lhe confidenciado pelo menos parte do que se passara.

“Ela disse-me que tinha tido um encontro angustiante com Harvey Weinstein. Acho que ela não entrou nos pormenores horríveis que li na entrevista que deu. Mas lembro-me de ela estar profundamente perturbada por isso. E, para minha vergonha, apenas expressei compaixão. Nada fiz quanto ao que ela me disse. Foi há muito tempo”, precisou também no diário britânico, admitindo que está a ser “assombrado” por essa conversa desde que o escândalo rebentou. “É o único relato directo deste tipo de comportamento por Harvey Weinstein que alguma fez me foi feito.”