Crítica

Sonhos de quatro cordas

Cavaquinho e braguinha ganham com Júlio Pereira asas para voar pelo mundo.
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Júlio Pereira: saber engrandecer e apurar a sua própria produção musical Raquel Von Kaminaru

Apresentado ao vivo no Olga Cadaval, no dia 15 de Setembro, o 22.º disco da carreira do multi-instrumentista Júlio Pereira chega esta sexta-feira às lojas. A Praça do Comércio a que ele alude, título do disco e de um dos seus onze temas, é simbólica quanto aos sons que aqui se cruzam, como dantes naquela sala de visitas de Lisboa se cruzavam culturas e mercadorias. Se o anterior Cavaquinho.pt (2014) foi feliz no relançar do espírito e das sonoridades deste emblemático cordofone (que ganhou novo fôlego em Portugal após a edição do disco Cavaquinho, pioneiro e celebrado trabalho de Júlio Pereira, em 1981), Praça do Comércio abre outras portas.

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Desde logo pondo o cavaquinho em diálogo ou contraponto com alguns dos seus pares de outras paragens (o braguinha madeirense ou o ukulele norte-americano, aqui tocado pelo canadiano James Hill) e com cordofones de outras linhagens e dimensões, como a guitarra portuguesa (o grande José Manuel Neto), a viola braguesa, o bandolim (o exímio Norberto Cruz) ou o bouzouki. Mas também na exploração de novas linguagens a partir destes encontros e cruzamentos. Na introdução do CD (num libreto bilingue de 111 páginas, com vários materiais contextualizadores e até um guia de acordes e partituras), Rui Vieira Nery fala “numa reacção simultânea de reconhecimento e descoberta”, ao escutar o disco. O primeiro pela “assinatura sonora” de Júlio Pereira quando toca; a segunda por tal marca individual não repetir fórmulas e clichés, revelando-se antes “como uma constante fonte de novas ideias, novas perguntas e novas respostas”.

Sucessivas e atentas audições do disco, em CD e em vinil, dão tais palavras por certeiras. Seja em ponteado ou rasgado, nos ritmos ou nas harmonias, há aqui uma clara e constante busca de novos horizontes, não descurando as tradicionais raízes destes cordofones mas explorando as suas potencialidades a partir de matrizes mais urbanas, aquelas onde tantas culturas se cruzam e transformam. Por isso, se em Voa cavaquinho  há vertigem em solo absoluto, Galope no deserto surge com trompete e um toque de jazz e rock num todo dançante e Comboio azul soa a viagem etérea a desembocar em África (com a envolvência vocal de Cheny Wa Gune), ao passo que Noitada extravagante mergulha no Alentejo e daí voa para o mundo (com a guitarra de Pedro Jóia e as vozes de António Zambujo e de Olga Cerpa) e Praça do Comércio é, na sua sequência instrumental e vocal, uma festa de atmosferas e cores.

Aos músicos já citados, juntam-se nesta Praça Miguel Veras (viola), Sandra Martins (violoncelo), Daniel Pereira (Tin whistle e gaita de foles), Luciano Vasconcelos (baixo), Luís Peixoto (bouzouki), Quiné (percussões), Quico Serrano (sintetizador), Diogo Duque (trompete), além das vozes de Mariana Abrunheiro, Luanda Cozetti, Teresa Melo Campos e Inês Melo Campos (ambas do grupo Sopa de Pedra) e Andreia João Lopes. As ilustrações de Carlos Zíngaro, que aqui dá continuidade a uma parceria que começou no primeiro disco de Júlio Pereira (Fernandinho Vai ao Vinho, de 1976), dão “corpo” visual a cada tema, traduzindo ideias nascidas dos sons. As onze ilustrações (além da da capa) são reproduzidas no CD (com estrutura de CD-livro) mas brilham especialmente na edição em vinil, ampliadas, todas elas, ao formato da capa em páginas interiores. Praça do Comércio, pelo resultado e pelo simbolismo, é mais uma aposta ganha de um músico que, na sua insistente batalha por dignificar o cavaquinho, tem sabido engrandecer e apurar a sua própria produção musical, rompendo fronteiras sem trair as raízes.