Fotografar reis, mendigos e cavalos da mesma maneira

Hoje é sábado e Dia Mundial da Fotografia - dois bons pretextos para ir até à Golegã visitar algo raro em todos o mundo - um estúdio do século XIX. Por trás dele está um latifundiário e fotógrafo amador que ganhou fama internacional mas nunca quis sair da terra onde nasceu. Chamava-se Carlos Relvas.

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Não há como não olhar para aquela casa-estúdio numa pequena vila do Ribatejo como um objecto estranho, deslocado. Se assim é em 2017, imagine-se há 140 anos, quando Carlos Relvas, senhor de uma grande casa agrícola, afamado criador de cavalos e homem com méritos reconhecidos como toureiro inaugurou na Golegã o seu templo da fotografia, com direito a querubins e “santos” protectores na fachada (dois dos seus inventores, Nicéphore Niépce e Louis Daguerre). O meio era pequeno, rural, e a fotografia era arte que não tinha chegado sequer aos 40 – nascera (oficialmente) em 1839, um ano depois deste latifundiário que tanto fotografava reis e condes, como campinos e mendigos que encontrava a rondar a Quinta do Outeiro, propriedade da família onde se produzia trigo, aveia, azeite e vinho, com o Tejo a correr a três quilómetros, tornando rica a lezíria.

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Não há como não olhar para aquela casa-estúdio numa pequena vila do Ribatejo como um objecto estranho, deslocado. Se assim é em 2017, imagine-se há 140 anos, quando Carlos Relvas, senhor de uma grande casa agrícola, afamado criador de cavalos e homem com méritos reconhecidos como toureiro inaugurou na Golegã o seu templo da fotografia, com direito a querubins e “santos” protectores na fachada (dois dos seus inventores, Nicéphore Niépce e Louis Daguerre). O meio era pequeno, rural, e a fotografia era arte que não tinha chegado sequer aos 40 – nascera (oficialmente) em 1839, um ano depois deste latifundiário que tanto fotografava reis e condes, como campinos e mendigos que encontrava a rondar a Quinta do Outeiro, propriedade da família onde se produzia trigo, aveia, azeite e vinho, com o Tejo a correr a três quilómetros, tornando rica a lezíria.

Em 1876, ano em que a casa-estúdio ficou pronta, experimentavam-se por todo o mundo processos e técnicas, mas fotografar era ainda demorado e caro. Poucos se aventuravam a fazê-lo, e eram ainda menos os que o faziam como Carlos Relvas (1838-1894) – com uma curiosidade genuína pelo novo e com uma invulgar exigência de rigor na hora de passar ao papel o que a câmara registara.

“Ele é um exímio executante do colódio húmido [processo fotográfico para negativos em vidro, cuja chapa era coberta com uma solução de colódio e iodeto de cádmio], em que tudo era manual, e depois tem alguma dificuldade em adaptar-se à gelatina de prata, técnica industrial com que faz muita da fotografia de exteriores, parte menos conhecida do seu trabalho e menos espectacular do ponto de vista estético”, diz Emília Tavares, investigadora de história da fotografia, em particular portuguesa, para quem a obra de Carlos Relvas e a casa-estúdio que criou estão longe de ter a atenção nacional e internacional que merecem.

“Quando ouvimos falar do Carlos Relvas é vulgar o seu nome vir acompanhado de uma série de superlativos. E é importante, de facto, mas quanto mais sabemos sobre a fotografia em Portugal no século XIX, mais percebemos que não está sozinho. O que é nele muito singular é que combina um interesse extraordinário pelo que está a acontecer em termos científicos [no estrangeiro], com dinheiro, uma enorme capacidade de iniciativa e uma rede de contactos internacionais”, acrescenta.

Uma rede de contactos e uma capacidade de iniciativa que lhe permitiram montar um ambicioso estúdio que é hoje um dos “raríssimos exemplares do século XIX” em todo o mundo. “A obra do Carlos Relvas, sobretudo os seus retratos de mendigos, absolutamente fascinantes, com uma leitura social e política algo enigmática, é muito interessante, mas é o estúdio da Golegã e o contexto em que ele trabalha que o tornam especial.”

O facto de nunca ter cobrado dinheiro pelos retratos de estúdio, aliado ao seu entusiasmo pelo lado artístico da fotografia fazem dele, defende Tavares, também conservadora do Museu do Chiado, um verdadeiro amador que importa conhecer. Tarefa difícil quando o espólio que chegou até nós – 12 mil negativos já restaurados e digitalizados – depois de mais de 100 anos de esquecimento continua a não ter uma base de dados que permita disponibilizá-lo integralmente. Tarefa difícil quando os livros que sobre ele se escreveram, seja o do historiador António Pedro Vicente (Carlos Relvas Fotógrafo, 1984), sejam os catálogos da monográfica do Museu Nacional de Arte Antiga (Carlos Relvas e a Casa da Fotografia, 2003), da exposição na Galeria Rudolfinum, em Praga (Carlos Relvas: objectos da eternidade, 2013) ou da do Centro Internacional das Artes José de Guimarães (Um Homem tem Duas Sombras, 2014), estão esgotados e, aparentemente, sem reedição à vista.

“É preciso disponibilizar os materiais para que a investigação possa evoluir”, defende Emília Tavares. “Há que rever e reeditar o que já temos e depois disponibilizar o que aprendemos desde 2003. É preciso mostrar o trabalho de Carlos Relvas numa plataforma acessível a partir de qualquer parte do mundo e não apenas em exposições de dez em dez anos.”

No site deste museu da Golegã há um banco de imagens que mostra uma ínfima parte do espólio, dividido por diversos temas e géneros (Pessoas, Família, Património, Viagens, Auto-retrato, Animais, Tradições…). Para quem quer fazer uma pesquisa mais abrangente, há um pequeno centro de documentação para consulta local, aberto de quarta a sexta. “É claro que isso é importante, mas não chega. A inexistência de uma base de dados ambiciosa é uma falha gigantesca na capitalização da casa-estúdio, que podia ser um pólo de divulgação da fotografia portuguesa, tanto a do século XIX como a contemporânea. Tem potencial para isso, para criar as ligações internacionais que o próprio Relvas já tinha há 150 anos.”

O mais perfeito

Quem quer ir hoje ao “templo” de Carlos Relvas o melhor é marcar uma visita guiada e o mais provável é que seja Elvira Marques a conduzi-la. Esta técnica da Câmara Municipal da Golegã, entidade que o tutela, conhece os cantos a esta casa singular e fala com gosto da vida e obra do latifundiário que, diz, tinha “alma de artista e de inventor” e era um verdadeiro dandy, de olhos postos no que se passava no resto da Europa e nos Estados Unidos, mas os pés (e o coração) presos à Golegã.  

Responsável pela dinamização deste pequeno museu que no ano passado recebeu seis mil visitantes, um terço dos quais estrangeiros que procuram a vila por causa das actividades equestres (sobretudo ingleses e americanos), Elvira Marques tenta criar um programa de exposições que vá mostrando a extensa obra de Carlos Relvas – hoje, dia mundial da fotografia, é inaugurada uma com as praias que registou – e, ao mesmo tempo, o trabalho de contemporâneos como Duarte Belo.

“Mas o centro da nossa actividade é a casa-estúdio, que está o mais próximo possível do que seria no original, tal como Carlos Relvas a imaginou. O seu plano era construir o estúdio de fotografia mais perfeito do mundo.”

Toda a estrutura de ferro da casa foi feita em Lordelo do Ouro (Porto), seguindo à risca o projecto arquitectónico de Henrique Carlos Afonso e depois transportada para a Golegã. Uma tarefa que terá sido tudo menos fácil. A sua construção começou em 1872 e, quatro anos mais tarde, estava concluída.

Passando a porta entra-se num pequeno átrio para onde dão dois estúdios. Vencido o corredor, chega-se à sala de espera com mobiliário da época e onde se destaca o piano de Margarida Relvas, uma dos cinco filhos de Carlos Relvas e da sua primeira mulher, Margarida Mendes de Azevedo, filha dos condes de Podendes, com quem casou quando ambos tinham apenas 16 anos.

Nas paredes há fotografias originais que mostram a casa em construção; um retrato do fotógrafo feito pelo pintor Cândido da Cunha; gravuras vindas de Paris; e os planos que José Malhoa, outro artista e amigo, desenhou para o bote salva-vidas que Relvas inventou, depois de assistir a um naufrágio no Douro.

“Parece que foram felizes. Aos 19 anos já tinham três filhos”, diz Elvira Marques, apontando para um retrato da mulher do fotógrafo. “Ela era uma senhora que ajudava muito os pobres da vila e, por isso, quando morreu, em 1887, o funeral juntou muita, muita gente. Eles eram muito próximos e Carlos Relvas fotografava-a muito, assim como aos filhos.”

O chão está coberto de mosaicos franceses e a escada de caracol que leva ao primeiro andar, uma estrutura em madeira que apetece tocar, foi importada de Itália. É no piso superior que se encontra o estúdio principal, aquele a que José Pessoa e Sofia Torrado chamam “paraíso de gadgets do século XIX” no texto que assinam no catálogo da exposição do Museu de Arte Antiga. Está cheio de mobiliário, acessórios fotográficos e objectos que Relvas usava para compor os cenários cuidados em que retratava quem ali entrava, quer fosse um familiar ou um amigo chegado, quer fosse um conde ou um camponês.

“Ele fotografa com a mesma dignidade, com o mesmo empenho, o rei D. Luís ou um daqueles mendigos que deram imagens fantásticas”, diz Emília Tavares, chamando também a atenção para os seus retratos de animais (cavalos, touros, carneiros) extremamente cuidados.

O tecto e paredes do estúdio são envidraçados e têm um complexo sistema de cortinas que permitia a Relvas controlar a luz em todas as horas do dia. “O estúdio é como uma câmara fotográfica gigante”, acrescenta a técnica da autarquia. “Todo o edifício é pensado em função do caminho que o sol faz desde que nasce até que se põe porque sem luz não há fotografia.”

Para equipar o seu estúdio, Carlos Relvas informou-se sobre a tecnologia que estava a ser usada em espaços semelhantes em Inglaterra, em França e na República Checa, comprando depois o que havia de melhor e mais avançado.

Na sua biblioteca há os principais livros de referência da época, assim como dezenas de revistas especializadas, com artigos teóricos e outros técnicos, mostrando como funcionam os mais modernos obturadores e lanternas mágicas. “Aqui se vê que ele está sempre a querer saber mais, a aprender, à procura de desafios novos.”

A fotografia como arte

“Mas como é que Relvas se transforma no homem que, de repente, aparece como um fotógrafo de nível europeu, um latifundiário, um toureiro a cavalo cuja fama chega até hoje, um executante formidável do Jogo do Pau, que nunca deixava a resolução de questões de honra nas mãos de outros, uma figura à volta da qual nasceram lendas e histórias que passaram de boca em boca e inspiraram Alves Redol no seu Barranco de Cegos?”, questionam-se Pessoa e Torrado no mesmo texto para o catálogo de 2003.

Pouco ou nada se sabe sobre a sua formação, feita com recurso a professores privados e sem descurar a área artística. Falava francês, tinha queda para a escrita e uma enorme curiosidade pela ciência e pela tecnologia, algo que terá sido determinante na sua aproximação à fotografia, que via como uma arte por direito próprio e não como um meio de expressão subsidiário da pintura.

“Carlos Relvas é um homem culto, informado, e isso faz toda a diferença no seu trabalho. Tal como [Francisco] Afonso Chaves [1857-1926], um cientista dos Açores, ultrapassa claramente as limitações geográficas e culturais do sítio onde nasceu”, acrescenta a investigadora Emília Tavares, que comissariou, com Margarida Medeiros, a exposição Tesouros da Fotografia Portuguesa do Século XIX (Museu do Chiado, 2015).

Segundo o historiador António Pedro Vicente, foi por volta de 1862 que Relvas começou a interessar-se pela nova arte, ano em que se fez aquela que pode ser considerada a primeira exposição significativa de fotografia em Portugal, organizada pela Associação Industrial Portuense. Apenas seis anos mais tarde, o amador começou a ter reputação internacional, acabando por se tornar membro da prestigiada Sociedade Francesa de Fotografia e por expor ao longo da vida em cidades como Madrid, Paris, Viena, Berlim, Lyon, Filadélfia e Chicago, recebendo vários prémios.

Uma carreira que impressiona, sobretudo num amador, defende Elvira Marques: “Ele nunca cobrou nada pelos retratos que fazia. É verdade que não precisava porque era rico, mas o que lhe interessava era a fotografia como arte. E tornou-se tão bom que andou pelo estrangeiro a mostrar o que fazia ao lado dos profissionais. E isto quando ir daqui para o Gerês demorava mais de três semanas e eram precisos dois meses e meio para chegar a Paris.”

Em 1876, por exemplo, o amador da Golegã mostrou o seu trabalho na Exposição Universal de Filadélfia, ao lado de outros fotógrafos que trabalhavam em Portugal, como Emílio Biel, João Francisco Camacho ou Henrique Nunes, um grupo que ajudou a fazer de Portugal o segundo país mais premiado naquela feira, depois dos Estados Unidos e antes de gigantes como a França e o Reino Unido.

“Relvas adorava experimentar e estava obcecado com a perfeição técnica e a alta qualidade estética”, escreve o historiador António Pedro Vicente, um dos principais motores da recuperação da figura e da obra de Carlos Relvas e também um dos autores do catálogo de Arte Antiga, lembrando em seguida que os fabricantes mandavam ao fotógrafo-amador os produtos químicos que queriam comercializar para que os testasse antes que começassem a publicitá-los.

Um século esquecido

A qualidade e inovação do trabalho de Carlos Relvas não impediu, no entanto, que o seu nome fosse esquecido durante os mais de 100 anos que a sua casa-estúdio esteve fechada e a colecção de fotografia em caixotes, a degradar-se.

Em parte, foram as desavenças familiares, sobretudo a que opunha o fotógrafo ao filho mais velho, que conduziram a este abandono. José Relvas, um dos fundadores da República – o homem que a proclamou da varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa, e que chegou a assumir o cargo de primeiro-ministro – não aceitou o segundo casamento do pai, com Mariana Pinto Correia, no ano a seguir à morte da mãe.

A Golegã, explica Elvira Marques, virou-se contra Carlos Relvas. Familiares e amigos deixaram de lhe falar. “Foi uma coisa muito séria aqui na vila porque, com a morte da primeira mulher, Carlos Relvas fez a partilha dos bens do casal e coube ao filho mais velho o papel de patrão desta casa agrícola. Só que José Relvas estava tão zangado com o pai que se foi embora de vez para Alpiarça [ali mandou construir a Casa dos Patudos, hoje um museu onde está parte do espólio do fotógrafo] e embora continuasse a administrar as propriedades, isso deixou muita gente aqui na vila sem trabalho.”

A casa da família, perto da qual Relvas mandara construir o estúdio, foi vendida à câmara municipal, que ali instalou os seus serviços, até que um incêndio na década de 1950 a destruiu (no seu lugar foi erguido o actual edifício-sede da autarquia).

Carlos Relvas e Mariana fizeram obras de adaptação na casa-estúdio para que pudessem mudar-se para lá quando casaram, o que desvirtuou o projecto original. “Carlos Relvas, que devia estar muito apaixonado pela D. Mariana, aproveitou pouco esse casamento que foi feito contra tudo e contra todos.” Morreu seis anos depois, aos 55, na sequência de uma queda de cavalo numa rua da Golegã.

A viúva ficou com a casa-estúdio e o espólio, vendendo parte, três anos mais tarde, a outro fotógrafo (desconhece-se a dimensão total da colecção). Em 1978, a Câmara Municipal da Golegã comprou aos seus herdeiros o que restara – 12 mil negativos, cinco mil dos quais no processo de colódio húmido e os restantes 7000 posteriores, em gelatina de prata – mas só em 1995, graças a um protocolo entre a autarquia e o Ministério da Cultura, foram enviados para Lisboa para que fossem objecto de trabalhos de conservação e restauro, tarefa a cargo da Documentação Fotográfica do então Instituto Português de Museus, a que estavam ligados os comissários da exposição que Arte Antiga dedicou ao fotógrafo em 2003, Vitória Mesquita e José Pessoa.

Os trabalhos de conservação em Lisboa duraram 13 anos. O espólio regressou em 2008 à vila ribatejana, precisamente no ano seguinte à reabertura da casa-estúdio como museu (já o fora na década de 1980), depois de inteiramente restaurada, graças a um projecto que envolveu a Cultura e a autarquia (estava pronta desde de 2003, mas atrasos da responsabilidade do Estado central, lê-se na imprensa da época, atrasaram a inauguração).

A câmara municipal encarregou depois o fotógrafo Luís Pavão e a sua empresa especializada em conservação da digitalização do acervo, uma tarefa a que se juntou o Instituto Politécnico de Tomar.

Pavão está hoje entre os que lamentam que o espólio não esteja integralmente acessível para consulta e fala de Carlos Relvas como um amador que soube combinar temas convencionais com uma abordagem mais arrojada no que toca ao auto-retrato ou às fotografias de praias em que os banhistas aparecem com as roupas coladas ao corpo, um registo a provar que “o erotismo da cena certamente não lhe escapou”.

“Ele é muito moderno ao assumir-se como tema e ao mostrar o seu processo de trabalho – como faz a fotografia, como a encena”, diz, “e os seus mendigos são notáveis”.

No retrato, lembra também Luís Pavão, Relvas é tão exigente a fotografar uma rainha como uma camponesa ou uma peixeira – a roupa e acessórios estão lá a dar indicação da diferença dos estratos sociais, mas o rigor e a qualidade do cenário em que o retrato é feito são os mesmos. E isso, diz, é uma opção estética, artística.

É precisamente o lado artístico de Carlos Relvas que Elvira Marques gostaria de ver mais estudado. Algo que só pode acontecer, defende por seu lado Emília Tavares, se a casa-estúdio se abrir à investigação.

“Esta casa não cumpre o seu potencial porque tem uma nítida falta de meios. O património que ali está merece muito mais – uma equipa técnica com conservadores, uma ligação permanente às universidades… É preciso mexer naquela musealização com urgência. Não funciona”, diz Tavares. “A câmara da Golegã fez muito na recuperação e manutenção deste património, mas não está vocacionada para fazer o que ali tem de ser feito, nem tem de estar. Devia ser o Ministério da Cultura a pegar nela já que tem os conhecimentos, os técnicos, e outro peso quando se trata de ir à procura de parcerias, cá e lá fora.”

O Museu Nicéphore Niépce, em Chalon-sur-Saône, uma pequena cidade da Borgonha, a 3h30 de Paris, funciona como um centro para a divulgação da fotografia contemporânea, a francesa e não só, sem deixar de mostrar a do século XIX, a ligada a este inventor da fotografia e a outros profissionais e amadores. Tem uma base de dados que permite a consulta online de 20 mil fotografias de vários autores, livres de direitos e descarregáveis.

“A casa Relvas está a pouco mais de meia hora de Lisboa e poucos a conhecem. Não se justifica.” Para esta investigadora, a obra deste fotógrafo à volta do qual nasceram muitas histórias, algumas delas romanescas – como a que diz que matou ou mandou matar um dos pretendentes da sua filha Clementina, um homem do povo que terá acabado emparedado numa das propriedades da família –, tem ainda muito por explorar. A sua relação com pintores como José Malhoa, José Ferreira Chaves e Veloso Salgado, é ainda pouco conhecida.

“Ele não é de todo um picturalista- a sua obra tem aspectos realistas muito interessantes, mas está numa fase de transição, em que o romantismo é ainda muito persistente.”

A Casa-Estúdio Carlos Relvas não é, conclui Elvira Marques, um capricho de um dandy do Ribatejo – é um dos projectos que este fotógrafo-cavaleiro concretizou, entre tantos outros, por vontade e mérito próprios. A Golegã, diz, “não devia ser famosa só pela Feira Nacional do Cavalo. Esta casa devia partilhar essa fama.” Carlos Relvas haveria de gostar que assim fosse.