Os dias mais luminosos com as Haim

O que é precioso nas Haim é a facilidade em criar canções que se agarram às nossas vidas.

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Como se estivéssemos sempre a comprar a ilusão de que cada dia pudesse ter a leveza de um feel good movie

Diz a lenda que, algures em meados dos anos 80, depois de ver um concerto das Bangles em Los Angeles, o artista a que nos habituámos a chamar Prince enviou para a banda uma maqueta com dois temas saídos da sua gaveta sem fundo. Um deles, Manic monday, canção irresistivelmente pop embalada por comboios madrugadores e sonolentos a caminho do trabalho, feita de uma leveza de quem já conta com o atraso pela certa e a entrada no escritório inclui fatalmente olhares reprovadores e furiosos de um patrão numa relação íntima com os horários, havia de tornar-se o primeiro grande sucesso de Susanna Hoffs e companheiras.

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Diz a lenda que, algures em meados dos anos 80, depois de ver um concerto das Bangles em Los Angeles, o artista a que nos habituámos a chamar Prince enviou para a banda uma maqueta com dois temas saídos da sua gaveta sem fundo. Um deles, Manic monday, canção irresistivelmente pop embalada por comboios madrugadores e sonolentos a caminho do trabalho, feita de uma leveza de quem já conta com o atraso pela certa e a entrada no escritório inclui fatalmente olhares reprovadores e furiosos de um patrão numa relação íntima com os horários, havia de tornar-se o primeiro grande sucesso de Susanna Hoffs e companheiras.

Já havia um sopro de Bangles no primeiro álbum das Haim, Days Are Gone, mas é difícil não ouvir agora com clareza os ecos de Manic monday na melodia com que a guitarra de Danielle Haim vai preenchendo os silêncios vocais de You never knew. E quando esses silêncios vocais se extinguem, não há como evitar ouvir o fantasma dos Prefab Sprout de From Langley Park to Memphis. A estas referências acrescem as do costume: os Fleetwood Mac por todo o lado, a Shania Twain que emerge sempre que as três irmãs se acercam de uma country ultra pop e afirmativa (Little of your love), uma clara sombra r&b facção Justin Timberlake. Ou seja, tal como em Days Are Gone, cada canção de Something to Tell You é de uma concretização inatacável, infalível na sua proposta melódica, como se carregasse consigo a entrada luminosa para um filme feel good dessa mesma década de 80.

Tudo parece, de facto, um lapso temporal nas Haim. As canções pouco permeáveis a electrónicas ou quaisquer outros marcadores de contemporaneidade, uma facilidade em erguer refrães pouco rebuscados de um tempo em que essa empresa podia ainda assentar em ou pouco mais do que melodias viciantes e pouco acidentadas. A produção das Haim funciona, aliás, de acordo com essa regra em que os instrumentos devem sair da frente das melodias vocais e não se esquecer que a elas devem obediência. Tudo isto resulta numa familiaridade imediata que em nenhum momento implica qualquer assomo de redundância. As referências automáticas quase servem mais como reconhecimento e validação de uma família a que as Haim querem pertencer e perante a qual prestam provas. Ready for you, por exemplo, convoca George Michael à grande no refrão, pisca o olho a Prince lá para meio, mas não sai beliscada um milímetro por isso. É simplesmente uma filha tardia destes dois.

Não se distanciando grandemente de Days Are Gone, Something to Tell You tem nisso duas enormes virtudes: o instinto certeiro para as grandes canções (produzidas, uma vez mais, pelo mago da pop Ariel Rechtshaid, que cede o seu lugar num par de temas a Rostam Batmanglij dos Vampire Weekend) não desmerece o excelente disco de estreia e esclarece que aquele não havia sido fruto do acaso; aquilo que aparece de novo, em temas como Right now, estimulados por um gatilho de composição a partir de padrões de bateria, não força rupturas desnecessárias e que poderiam matar aquilo que nas Haim é precioso. E o que é precioso, claro, é esta facilidade em criar canções que se agarram às nossas vidas, como se passassem a ser uma banda sonora e obrigatória em cada movimento da rotação da Terra. Como se estivéssemos sempre a comprar a ilusão de que cada dia pudesse ter a leveza de um desses tais feel good movies.