No Milhões de Festa muito se ganha, tudo se transforma

Sexta-feira, o Milhões de Festa teve no seu centro um concerto inesquecível: o que reuniu os faUSt aos GNOD. Viagem musical e performance artística a fazer justiça ao espírito do festival.

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A manhã de sábado acorda com céu nublado em tons desmaiados de cinzento e, ó ignomínia, há-de cair até uma leve morrinha quando a manhã já avança para a tarde. Em Arcozelo, às portas de Barcelos, ouvem-se galos e latidos de cães, ouvem-se foguetes de festas em freguesias nas redondezas, passa um carro a anunciar uma curiosa “Sunset party” no Cávado, domingo, iniciativa de uma das candidaturas à Câmara de Barcelos. Tem argumentos de peso: Quim Barreiros estará presente e lá segue o bólide, com as colunas a lançar ao ar um clássico pelas ruas da cidade – “Qual é o melhor dia p’ra casar?”, começa o refrão.

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A manhã de sábado acorda com céu nublado em tons desmaiados de cinzento e, ó ignomínia, há-de cair até uma leve morrinha quando a manhã já avança para a tarde. Em Arcozelo, às portas de Barcelos, ouvem-se galos e latidos de cães, ouvem-se foguetes de festas em freguesias nas redondezas, passa um carro a anunciar uma curiosa “Sunset party” no Cávado, domingo, iniciativa de uma das candidaturas à Câmara de Barcelos. Tem argumentos de peso: Quim Barreiros estará presente e lá segue o bólide, com as colunas a lançar ao ar um clássico pelas ruas da cidade – “Qual é o melhor dia p’ra casar?”, começa o refrão.

Muito parece acontecer em Barcelos – sexta à noite, foi dia de um festival de francesinhas, por exemplo –, e muito acontece nessa outra cidade chamada Milhões de Festa que aí nasceu, que com ela se mistura e que comemora este ano a sua décima edição.

No dia do arranque em pleno funcionamento do festival, depois da apresentação na quinta-feira, com actividade concentrada num só espaço, houve no Palco Piscina viagens intergalácticas sob o sol quente e o céu azul, com os óptimos Orchestra of Spheres – rave afrobeat, planar kraut-rock, máscaras e cocares de deuses muito antigos e de divindades ainda por aparecer. Depois disso, já no Parque Fluvial, no Palco Taina que encontrou este ano nova localização no interior do recinto principal, qual aldeia gaulesa relvada e suavemente murada para acolher todos com música, chouriço assado, feijoada ou vinho verde (taina significa, afinal, um festim de comida e bebida farta), os bracarenses VAI-TE FODER, assim mesmo em maiúsculas porque discrição não é com eles e aquele ataque crust punk com dois vocalistas a alternarem a bílis vertida sobre as dores da sociedade não está para perder tempo com subtilezas.

Assim foi a tarde de sexta-feira, entre mergulhos na água da piscina para perceber se as colunas subaquáticas, novidade da edição deste ano, funcionam mesmo – funcionam e é experiência calmante ouvir os concertos da Piscina Municipal de Barcelos debaixo de água –, e o resto do tempo passado entre petiscos e agitação metal e punk. Depois, depois do reencontro com a estreita Rua do Bom Jesus da Cruz, onde encontramos o Gil Vicente ou o famoso Bar do Xano, restaurantes históricos sempre muito procurados pelos habitantes do Milhões –, depois de o Conjunto Cuca Monga, que reúne vários músicos da editora fundada pelos Capitão Fausto, ter inaugurado o dia no Palco Milhões, haveria de ver-se naquele palco algo especial, história antiga ainda activa no presente, actuante, sempre em busca do novo, sempre na procura de verdadeira partilha.

Sintetizadores e psicadelismo

Uns chamam-se faUSt e são lendas do rock exploratório alemão, activos desde os anos 1970. Os outros são os GNOD, comuna musical de Salford, Manchester, exploradores do século XXI com verve pós-punk muito terrena e olhos nas estrelas – libertem-se os sintetizadores e o psicadelismo que deles se cria. O concerto que reuniu as duas bandas por proposta da organização do festival, que tem uma das suas marcas nestes encontros sem rede, irrepetíveis, foi prazer sensorial, grito de alerta e performance artística.

A estrutura de palco, com contornos de andaimes visíveis sob os panos que os cobrem, como se indicasse que o festival e a música que nele ouvimos são uma construção permanente, não podia ser mais adequada. “Dêem-nos os vossos ouvidos e nós damos-vos os nossos corações”, introduziu Jean-Hervé Péron, o vocalista dos faUSt. Em palco, ele e Werner Zappi Diermeier, o baterista altíssimo de sorriso gentil, e cinco dos GNOD liderados por Paddy Shine, guitarrista dos riffs tensos e das reverberações ambientais, enfiado num fato de licra pincelado de cores fluorescentes. Em palco, betoneiras que rodam produzindo um bordão constante sob o som dos demais instrumentos – e que serão usadas também como percussão. Em palco, surgirá uma funcionária do festival de vassoura nas mãos, varrendo entre os músicos, bailarinas de burqa improvisada dançando com membros de manequins de plástico entre os braços.

O palco tornar-se-á bem maior do que era no início, quando Paddy oferece ao público um dos bidões de metal e um tubo para ser usado como baqueta. Estamos naquele que será o último tema do concerto de hora e meia, Outside the dream syndicate, gravado originalmente com Tony Conrad, nos anos 70.

Os dois bateristas, de pé, mantêm o ritmo minimal como homens mecânicos e a massa sonora preenche-se de mais elementos: os sintetizadores e demais teclados, a guitarra, as betoneiras que continuam a rodar infatigáveis, o público que já tomou conta do bidão e que se reveza a golpeá-lo com o tubo de canalização. “Rise!”, exortara Jean-Hervé Péron no início do tema. Assim chegamos reunidos, palco e plateia feitos um, ao final.

Não foi um concerto isento de falhas – aqui e ali uma das colunas de palco distorcia o som, a voz de Jean-Hervé nem sempre foi perceptível e, no final de uma balada acústica onírica, quase que vimos faUSt e GNOD incertos sobre que caminhos seguir. Será, talvez, o preço a pagar quando se parte à descoberta e se procura algo novo, uma obra conjunta erigida naquele exacto momento perante o público. Preço pequeno, ainda assim.

“You ask all the questions, we will teach you what you’ve never known before”, ouvir-se-á Jean-Hervé sussurrar entre aquela batida mecânica, trabalho operário que o som libertará e que o público exorcizará, tubo metálico na mão, bidão já amolgado, deformado de tanto uso tão intenso. Com o encontro entre os faUSt e os GNOD, a décima edição do Milhões de Festa já tem um concerto para guardar com destaque na sua história oficial. Aconteceu num dia que fez justiça à identidade múltipla do Milhões.

Derreter fronteiras

“Dez anos a derreter fronteiras”, lê-se no mural inscrito em pano preto na entrada do recinto do festival. Lá dentro, enquanto alternamos entre a acção no Palco Milhões, o rio Cávado correndo em fundo, e a acção no Palco Lovers, rio a correr à nossa esquerda, a noite de sexta-feira foi disso (novo exemplo). Onde mais poderíamos ver uma banda que pega em música ritual do sul da Tunísia e a cobre de guitarra e baixo eléctrico e batidas electrónicas (eram os Ifriqiyya Électrique, e as três vozes foram magnífico despertar espiritual a que a componente “moderna”, por vezes a pender de forma simplista para tons de música industrial, não fez propriamente bem), seguida pelos faUSt e pelos GNOD, seguida da leveza “indie” das Sacred Paws, banda entre Londres e Glasgow, fundada por Rachel Aggs e Eilidh Rogers, que saltita como os Beat Happening e que ginga como os Talking Heads com a cabeça em África? (óptimo concerto, a pedir regresso rápido).

Onde mais chegaríamos à vertigem hardcore dos belgas Cocaine Piss, corporizada na vocalista que grita e canta e se contorce e que gritará e cantará metade do concerto entre o público, depois de passarmos pela festa popular que foi o DJ set do californiano The Gaslamp Killer, homem que faz da passagem de música uma verdadeira performance, agitando os braços ao som das canções, abanando em frenesim a farta cabeleira, despindo o casaco, e depois a camisola, e agora já só sobra a camisola de alças e o público agita-se em crowd-surf enquanto se ouve J-Dilla, Andre 3000, trios paquistaneses, música turca, os Beatles, os Metallica e mais tudo aquilo de que a mente hiperactiva de William Benjamin Bensussen se lembrar?

Os faUSt e os GNOD tinham acabado o concerto há vários minutos. Alguns mantinham-se ao lado do bidão, admirando o objecto. Um deles pega no tubo de canalização que servira de baqueta. Apoia-se nele e segue para o próximo concerto. O tubo baqueta passou então a ser uma bengala. No Milhões de Festa, por onde passam este sábado Yussef Dayes ou Graveyard e que termina domingo com Pop Dell’Arte ou Meatbodies, muito se ganha e tudo se transforma.