Grávidas algemadas, calor e falta de comida: os contentores-prisão da Hungria para os refugiados

Quase um quarto dos 407 requerentes de asilo efectivamente presos nas "zonas de trânsito" da Hungria são menores.

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Arame farpado para impedir o movimento de refugiados é a resposta do Governo da Hungria STOYAN NENOV/Reuters

Um muro, a detenção imediata de todos os que cheguem de modo ilegal, e a espera de semanas ou meses em contentores em zonas especiais rodeadas de arame farpado são as medidas da Hungria para os refugiados que atravessem para o seu território.

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Um muro, a detenção imediata de todos os que cheguem de modo ilegal, e a espera de semanas ou meses em contentores em zonas especiais rodeadas de arame farpado são as medidas da Hungria para os refugiados que atravessem para o seu território.

Segundo o responsável do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) em Budapeste, Zsolt Balla, há 407 pessoas neste momento nas duas zonas de trânsito –  94 delas são menores.

“As pessoas estão em condições totalmente desadequadas, há famílias com crianças, e a detenção sem oportunidade de ser ouvido e de a desafiar é ilegal”, diz Márta Pardavi, do Hungarian Helsinki Comittee.

O Governo húngaro diz que estão livres de sair do aglomerado de contentores, mas o arame farpado à volta assegura que não – o único caminho possível seria voltar para a Sérvia.

Depois do tempo que demorará a avaliação dos casos – algo que, sublinha Zsolt Balla, é totalmente incerto, podendo levar semanas ou meses – a rejeição é o mais provável. Segundo o Eurostat, com base em dados de 2016, a Hungria tem uma taxa de rejeição de pedidos de asilo acima dos 75%. Quando o pedido é recusado, os requerentes são reconduzidos à Sérvia.

A Hungria aprovou a nova lei de detenção e justifica-a com uma “situação de crise”. As organização de defesa de direitos humanos Human Rigths Watch diz que o Governo de Viktor Orbán “faz troça do direito de asilo”, pois a política em vigor nega à partida esta possibilidade à grande maioria dos que chegam ao país.

Duas famílias que estiveram no campo falam de um local sem condições mínimas. Não havia comida para todos nem tratamento médico. “Ao final de alguns dias, todos nos sentimos criminosos”, relatou Labib, que fugiu do local e voltou para a Sérvia. Num sinal de como é a situação, conta um responsável do Hungarian Helsinki Comittee, uma criança perguntou à mãe: "O que fizeste para estarmos na prisão?".

Nos contentores faz muito calor e a zona reservada a cada família é pequena. As grávidas não recebem alimentação adequada (não há fruta ou legumes frescos, nem vitaminas). Pessoas doentes só receberiam assistência médica se fossem algemadas, e houve um caso de uma grávida que foi assim levada ao médico - com algemas.