“Este instrumento só podia ser filho da electricidade”

Rodrigo Serrão, músico com anos de experiência no fado, na pop ou na música improvisada, abraçou o Chapman Stick. E gravou um disco com ele.

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Rodrigo Serrão em palco com o seu Chapman Stick CARLOS LIMA

Descobriu o instrumento na Internet, por acaso, durante uma digressão na Áustria. Até aí, a sua formação musical passara pela flauta transversal e pelo contrabaixo, ligado à música improvisada, ao jazz, à música popular e até ao fado (a lista dos cantores que acompanhou é extensíssima). Mas naquela noite Rodrigo Serrão deteve-se num vídeo: “Vi e resolvi voltar atrás. Comecei a ver o estranho que aquilo é, encantei-me com o instrumento. Senti que estava ali uma nova forma de exprimir mais qualquer coisa.”

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Descobriu o instrumento na Internet, por acaso, durante uma digressão na Áustria. Até aí, a sua formação musical passara pela flauta transversal e pelo contrabaixo, ligado à música improvisada, ao jazz, à música popular e até ao fado (a lista dos cantores que acompanhou é extensíssima). Mas naquela noite Rodrigo Serrão deteve-se num vídeo: “Vi e resolvi voltar atrás. Comecei a ver o estranho que aquilo é, encantei-me com o instrumento. Senti que estava ali uma nova forma de exprimir mais qualquer coisa.”

Podia ter ficado por aí, mas não. Da Áustria, pegou no telefone e ligou para os EUA, para o inventor daquele estranho instrumento. Falou com ele, satisfez a curiosidade com algumas perguntas e, no final, encomendou-lhe um. Emmet Chapman aceitou a encomenda e enviou-lhe uma réplica do instrumento que inventara em 1969 e que foi baptizado com o seu nome. Falamos do Chapman Stick, um extenso e largo braço com dez (ou 12) cordas (Rodrigo já tem as duas versões), eléctrico, e que parece combinar sonoridades de piano, contrabaixo, guitarra, harpa, até cravo. Para Rodrigo, o primeiro contacto não foi fácil: porque se no contrabaixo a pressão sobre as cordas é grande, no Chapman Stick é mínima e o modo de tocar não tem qualquer semelhança. Valeu-lhe a troca de impressões com um grupo de “stickistas” online, para explorar as cordas.

“Como tenho uma paixão antiga por Bach, comecei a brincar com o Prelúdio n.º 1, uma coisa que é simplicíssima no piano mas é muito difícil neste instrumento.” Ao fim de um mês, já o tocava e fez um vídeo para partilhar com “stickistas” e no Facebook. “À medida que fui publicando vídeos, o acesso duplicou, triplicou, quadruplicou, e as pessoas começam a pedir-me um disco.” Foi o que ele fez, um ano depois. Gravou temas seus como Hei-de amar-te a vida inteira ou Regresso a casa, mas também Bach (Suite n.º 1 BWV 1007/Prelúdio e Ave Maria, esta com a voz de Maria Ana Bobone), Carlos Paredes (Canção de Alcipe e Dança palaciana), um tradicional galês (The ash grove), outro irlandês (Saddle the pony) e Inisheer, do irlandês Thomas Walsh.

“Festinhas” nas cordas

O disco chama-se Stick To The Music e está a agora a ser lançado nas lojas da Fnac. Este sábado em Alfragide (16h) e no Colombo (16h30), domingo em Almada (17h) e dia 1 de Julho no Chiado (17h) e em Cascais (22h). Dia 24 de Julho actuará no Auditório Municipal de Ferreira do Zêzere (21h), depois de um workshop (16h).

Nascido em Coimbra, em 1973, com estudos musicais iniciados aos sete anos no Conservatório, Rodrigo Serrão já tem material para um novo disco. Diariamente, o “treino” do Chapman Stick consome-lhe várias horas, às vezes oito, ou 12. “Isso torna o corpo muito mais apto a tocar um outro instrumento. O contrabaixo é muito diferente, é muito físico, e este está todo feito para soar ao menor dos toques. Essa foi uma das grandes dificuldades que tive. Ao fim de 20 anos a fazer força nas cordas de um instrumento, aprender a não fazer força noutro é muito difícil. São festinhas que a gente faz nas cordas. Levou imenso tempo a habituar-me.” Cita Emmet Chapman: “O que existe aqui é a captação de micro-vibrações de cordas, já que não existe uma caixa acústica que consiga amplificar o simples pousar de dedos numa corda. Por isso ele diz, e com razão, que este instrumento só podia ser filho da electricidade.”