Jovens actores entre a frustração de um trabalho precário e a resiliência

Ser actor em Portugal é estar sempre "nervoso à procura de alguma coisa". Sem financiamento, o caminho faz-se entre contratos precários, trabalho noutras áreas e criação de pequenos grupos

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Paulo Pimenta

Pedro diz-se sortudo por poder viver do palco, Nadia divide o teatro com babysitting e trabalho num café e Luís conta que ser actor é estar sempre nervoso, "com a sensação das unhas acabadas de roer".

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Pedro diz-se sortudo por poder viver do palco, Nadia divide o teatro com babysitting e trabalho num café e Luís conta que ser actor é estar sempre nervoso, "com a sensação das unhas acabadas de roer".

A vida de um jovem actor em Portugal é cada vez mais feita de incertezas. Sem financiamento, com elencos de companhias reduzidos ao mínimo possível, o caminho faz-se entre contratos precários, trabalho noutras áreas e criação de pequenos grupos, na tentativa de resistir a uma onda que leva à desistência de muitos. No Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), em Coimbra, 14 actores portugueses esperam para entrar no palco onde vão decorrer as audições da École des Maîtres, que junta três jovens de cada um dos quatro países participantes — Bélgica, Portugal, Itália e França — num projecto europeu de formação com alguns dos criadores ou grupos que marcam as artes performativas contemporâneas.

Luís Pimenta viajou de Lisboa à espera de aprender e de poder ter "contacto com uma companhia estrangeira", que na edição deste ano é o colectivo belga Transquinquennal. Na capital, onde vive há oito anos, o madeirense formado em teatro trabalha como empregado de mesa e barman. "Como actor, o trabalho é muito escasso", disse à agência Lusa Luís Pimenta. Para um jovem que alimenta a esperança de poder viver do trabalho em palco, o percurso pode encher-se de frustração. Ser actor hoje é, para Luís, "estar sempre com a sensação das unhas acabas de roer, sempre nervoso à procura de alguma coisa, sempre insatisfeito também quando se chega a algum lado". "Quando tentas e não consegues pensas muitas vezes em desistir. Questionas o que estás a fazer, porque não escolheste outra coisa, porque raio decidiste tirar um curso de teatro quando há pessoas sem formação a trabalharem na área".

O actor e encenador Ricardo Correia, membro do júri português da École des Maîtres, lembra que na última década assistiu-se "a um esboroar do tecido teatral", devido à falta de financiamento. Companhias fecharam e as que se mantêm perderam muitas pessoas — "deixa-se de fazer espectáculos de dez ou 15 pessoas para se fazerem monólogos". Segundo Ricardo Correia, os jovens actores estão "dependentes de trabalho esporádico", o que afecta as suas próprias capacidades, que "o teatro é um músculo e tem de ser trabalhado".

Pedro Roquete tem mais sorte que Luís. O jovem do Porto trabalha há dez anos como actor, essencialmente teatro, mas também "televisão, publicidade e performances". "Não me posso queixar", diz, quando se compara com colegas. No entanto, a vida de freelancer "não é fácil", ainda por cima fora de Lisboa, nota. "Há os problemas inerentes ao facto de ser um trabalho que está sempre a começar a e acabar", em que surge a pergunta "E depois?".

Nádia Yracema divide-se entre o teatro, o babysitting e um trabalho de manhã "numa pequena cafetaria/padaria" em Lisboa. Pelo meio da carreira, encontra também o surrealismo, não em peças, mas em trabalhos pagos "com almoços" ou propostas de trabalho "à borla". Com um meio onde os apoios "são quase inexistentes e favorecem normalmente as grandes estruturas", os jovens que apostam em juntar-se para criar algo novo defrontam-se "com um rol de dificuldades imensas" — seja encontrar um espaço de ensaio a um preço razoável ou um sítio que aceite a apresentação de espectáculos sem custos, explica. "Mas, ao mesmo tempo, esse desafio é bom. Obriga-nos a encontrar outro tipo de vias e de meios de concretização", sublinha Nádia Yracema, em declarações à Lusa.

Com o grupo Os Possessos, Nádia conseguiu construir um espectáculo "com orçamento nulo", aponta. "Não haver apoio não implica que não se faça teatro de qualidade e bom teatro, mas é um desafio muito grande". Num país que não vê a cultura "como algo de fundamental", o teatro acaba por ser "uma segunda vivência e não a principal" para a maioria dos jovens actores, diz. "O meu objectivo é viver daquilo que gosto de fazer, que seria viver da representação ou da criação, mas quando tens de fazer mil outras coisas para compensar, não há espaço para te focares naquilo que queres criar. É um desdobramento muito grande." Dos 50 que se formaram no seu ano em teatro, apenas dez continuam "na luta", realça Nádia. "Os outros não desistiram por serem melhores ou piores, mas porque é tão difícil que há um ponto em que tens de comer e pagar a renda e tens de fazer outras escolhas."