Remessas de emigrantes subiram 38% desde a crise

Valor das remessas subiu pelo quinto ano consecutivo, e saldo está em máximos de 15 anos. Há mudanças na geografia do dinheiro, mas França está a subir e vale 33% do total recebido.

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Crise e aplicação do programa da troika levou muitos portugueses a partir para o estrangeiro à procura de emprego Pedro Nunes

Desde 2011, ano em que a troika de credores entrou em Portugal, o montante das remessas de emigrantes já subiu 38%, ou seja, estão a entrar mais 913 milhões de euros. E, nos últimos seis anos, o valor não tem parado de subir, chegando aos 3343 milhões de euros. No entanto, tem havido oscilações.

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Desde 2011, ano em que a troika de credores entrou em Portugal, o montante das remessas de emigrantes já subiu 38%, ou seja, estão a entrar mais 913 milhões de euros. E, nos últimos seis anos, o valor não tem parado de subir, chegando aos 3343 milhões de euros. No entanto, tem havido oscilações.

No ano passado, por exemplo, o crescimento foi de apenas 0,8%, contra os 8% do ano anterior. Um abrandamento explicado por factores como a crise em Angola, para onde foram trabalhar muitos quadros, qualificados e não qualificados, na recente vaga de migração. A queda do preço do petróleo, com inicio em 2014 e que levou à quebra nos investimentos e consumo, e à escassez de divisas, dificultou o envio de dinheiro para Portugal, mesmo quando este chegava às mãos de quem trabalha naquele país africano.

Actualmente, diversos trabalhadores estão a voltar de Angola, depois de um forte fluxo migratório. Para se ter uma ideia das rápidas alterações, em 2007 o dinheiro enviado de Luanda foi de 48 milhões, e, em 2013, chegou aos 304 milhões, na sequência de uma rápida subida.

Além de Angola. houve uma descida abrupta, de 18%, ou 154 milhões, dos valores enviados da Suíça, o que poderá estar relacionado com questões cambiais.

No entanto, e não obstante estas duas realidades, o fluxo de remessas voltou a subir no ano passado, algo que não deixou de ser assinalado recentemente pelo Banco de Portugal no boletim económico de Maio.

França no topo

A puxar pela entrada de dinheiro estiveram países como os Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Luxemburgo e França. Nos dois primeiros casos, o valor das remessas já ultrapassou os 200 milhões de euros, mas no ano passado assistiu-se a comportamentos distintos: o dinheiro com origem nos EUA subiu 16%, para os 243 milhões de euros, mas o proveniente da Alemanha desceu 0,7%, para 254 milhões.

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No que toca ao Reino Unido, o valor das remessas é o triplo do que era enviado antes da chegada da troika, destacando-se assim como um dos destinos preferenciais de quem emigrou nos últimos anos, com destaque para os jovens (Inglaterra é conhecida, por exemplo, como pólo de atracção de profissionais ligados ao sector da saúde).

No ano em que os britânicos votaram a sua saída da União Europeia, uma decisão cujos efeitos ainda são imprevisíveis, o dinheiro enviado chegou aos 285 milhões de euros (mais 12% face a 2015).

De resto, a tradição ainda é o que era, com um o contributo do Luxemburgo (país de forte emigração que contou esta semana com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em visita oficial), ao chegar aos 124 milhões, mas muito longe da França, cujas remessas subiram 12% no último ano e atingiram os 1123 milhões de euros.

Destino de muitos portugueses ao longo do século XX, com especial destaque para a década de 60, a França mostrou ser um forte destino de emigração nos últimos anos. Depois de ter descido para 887 milhões em 2009, o valor das remessas enviadas para Portugal cresceu 26%. Para se ter uma ideia da importância, o total das remessas enviadas de França valem 33% do total.

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"O aumento das remessas de França é a consequência do aumento da emigração para França e da sua estabilização num patamar elevado nos últimos cinco anos", explica Rui Pena Pires, investigador do Observatório da Emigração (ver entrevista). Depois do Reino Unido, diz este especialista,  França é hoje "o segundo destino mais importante da emigração portuguesa". 

Brasil e Ucrânia a descer, China a subir

Em sentido contrário, saíram 229 milhões de euros de Portugal para o Brasil, país que recebe a maior fatia do dinheiro enviado para o estrangeiro. O valor, no entanto, já foi superior. Em 2008, o montante chegou aos 332 milhões, para depois começar a descer até 2012 (226 milhões), um ciclo de quedas que foi retomado nos últimos dois anos, após uma recuperação registada em 2013 e 2014. Dados da Pordata e do INE mostram que havia, em 2015, 80 mil cidadãos brasileiros registados a viver em Portugal, quando, quatro anos antes, eram 110 mil.

A mesma tendência verifica-se nas remessas enviadas para a Ucrânia. Após uma forte subida, com o montante anual a ultrapassar os 50 milhões de euros, este foi caindo nos últimos anos, chegando aos 12 milhões. Em 2015, estavam registados cerca de 36 mil ucranianos, contra os 48 mil de 2011. Além de muitos cidadãos destes dois países terem saído de Portugal, outra explicação para a quebra das remessas remete para o desemprego, que ainda está nos 10% da população activa, com a consequente quebra de rendimentos disponíveis.

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Em sentido contrário está o dinheiro enviado por chineses a residir no país: se em 2006 o valor não chegava aos cinco milhões, dez anos depois o montante das remessas estava nos 73 milhões de euros (mesmo assim, o pico ocorreu em 2013, com 78,2 milhões). Nos anos de intervenção da troika, e quando havia muitos estrangeiros a sair de Portugal, a população chinesa continuou a aumentar, tal como os seus negócios, e hoje está no top 10 das comunidades estrangeiras a residir no país (cerca de 21 mil pessoas registadas em 2015).

Da mesma forma, embora numa outra escala, tem-se verificado uma subida das remessas para a Suécia e para a Noruega, algo a que o sistema fiscal não será indiferente. Portugal isenta do pagamento de impostos os beneficiários de pensões obtidas no estrangeiro, estratégia que já levou a reclamações formais de países nórdicos como a Suécia.

O valor global do dinheiro enviado para fora do país atingiu um pico em 2006, ao atingir os 610 milhões de euros. Desde então, tem tido altos e baixos. No ano passado saíram 534 milhões de euros em remessas para o estrangeiro, mais 2,2% do que em 2015.

Saldo de 2800 milhões

Mesmo assim, e devido ao volume de entradas de capital, o saldo, claramente positivo, voltou a subir mantendo um ciclo que se prolonga desde 2011, e atingiu 2809 milhões de euros. É preciso recuar a 2001 para encontrar um valor superior (entre esse ano e 2002, ano da entrada em circulação do euro, há uma forte quebra na chegada de remessas, com destaque para as que chegam da Europa).

Com o envio do seu dinheiro para Portugal, os emigrantes estão a apostar na poupança, ou a apoiar despesas de familiares. Seja como for, essas remessas ajudam à balança de pagamentos do país, e ao financiamento da economia. E, dentro do quadro europeu, Portugal distingue-se por diversas razões.

De acordo com os dados mais recentes do organismo europeu de estatística, o Eurostat, Portugal é o país que mais dinheiro recebe em remessas (valores de 2015), seguido de perto pela Polónia e pelo Reino Unido. Depois, é o segundo país, após a Eslovénia, de onde se envia mais dinheiro para países não europeus, e destaca-se também por ser o segundo país com maior saldo positivo, apenas suplantado pela Polónia (cabendo o maior défice à França).