Os jovens extremistas hindus que mandam nas ruas do Norte da Índia

Político conhecido pelo discurso radical contra os muçulmanos foi nomeado para chefiar o estado de Uttar Pradesh, o mais populoso da Índia. Desde então, a sua milícia age com maior impunidade na intimidação daquela minoria religiosa.

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NUma manifestação num bairro muçulmano, os mlicianos bloquearam o trânsito, buzinaram e gritaram slogans pró-hindus Cathal McNaughton/Reuters

Numa tarde, há não muito tempo, dúzias de jovens hindus, empunhando espadas e com lenços escarlates ao pescoço, percorreram de mota um bairro muçulmano perto da capital do estado mais populoso da Índia e cantaram em coro: “Salvé, Senhor Ram!”

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Numa tarde, há não muito tempo, dúzias de jovens hindus, empunhando espadas e com lenços escarlates ao pescoço, percorreram de mota um bairro muçulmano perto da capital do estado mais populoso da Índia e cantaram em coro: “Salvé, Senhor Ram!”

Nas semanas anteriores, estes e outros jovens tinham actuado como informadores da polícia, ajudando-os a identificar milhares de talhos geridos por muçulmanos, que desde então foram fechados, e incentivando os agentes a mandar parar jovens muçulmanos que conversam com raparigas hindus na rua.

A sua organização chama-se Hindu Yuva Vahini (Força Jovem Hindu). É uma milícia privada criada em 2002 por Yogi Adityanath, um sacerdote e político local, para impor o domínio da principal religião da Índia, que ele acreditava estar a ser minado por outras fés minoritárias.

Desde que em Março Adityanath foi promovido a ministro-chefe do estado de Uttar Pradesh – que tem 220 milhões de habitantes, um quinto dos quais são muçulmanos –, este grupo ganhou coragem, proclamando abertamente as suas raízes hindus e exercendo pressão sobre a polícia.

A nomeação de Adityanath, de 44 anos, que é conhecido pelo seu discurso agressivo contra os muçulmanos e por uma campanha contra a “Jihad do Amor” – isto é, a conversão de mulheres hindus ao islão – chocou alguns indianos, para quem este comportamento prejudica o estatuto secular do país. Temem que a agenda de “desenvolvimento para todos” do primeiro-ministro, Narenda Modi, seja ultrapassada por políticas radicais que põem os hindus em primeiro lugar, com o potencial de alimentar a tensão entre as várias comunidades que tem rebentado de forma esporadica ao longo dos 70 anos da História do país.

Adityanath recusou ser entrevistado para este artigo.

“Sangue poderá ser derramado e os muçulmanos vão sofrer,” disse à Reuters Pankaj Signh, um dirigente da Força Jovem Hindu, à margem de uma manifestação em Unnao, que fica a uma hora de distância da capital, Lucknow.

Declarações deste tipo provocam o medo entre os muçulmanos – em Uttar Pradesh a comunidade está receosa desde as eleições deste ano, em que Adityanath mobilizou a maioria hindu e conquistou uma vitória esmagadora para o Partido Bharatiya Janata (BJP), no Governo.

Como recompensa, o partido ofereceu ao sacerdote uma das posições com mais poder na Índia, o que encorajou a sua milícia a agir e a manifestar-se mais abertamente do que durante o mandato do governo anterior.

Sediada em Uttar Pradesh e financiada por pessoas empenhadas em cair nas boas graças de quem manda a nível local, a milícia garante ter 2 milhões de membros, um número que continua a subir.  

Em Unnao, a polícia não interferiu quando os membros da milícia bloquearam o trânsito, buzinaram e gritaram slogans pró-hindus nas ruas. Os muçulmanos que vieram assistir fizeram-no em silêncio, à porta de suas casas.

Direita radical hindu

O próprio Modi é um produto da direita hindu, oriundo do BJP e do poderoso movimento que lhe deu origem, o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), que o apoiou no início da carreira. No entanto, desde que chegou ao poder em 2014, Modi tem-se concentrado nas reformas económicas, que ele acredita que vão empurrar a Índia para a modernidade e criar empregos suficientes para uma força laboral em expansão.

Adityanath representou o BJP nas eleições estatais de Uttar Pradesh no início do ano e ajudou Modi a consolidar o poder, numa altura em que ele caminha para a reeleição nas eleições nacionais de 2019. O sacerdote, no entanto, desafiou várias vezes a disciplina do BJP e não faz parte da máquina do RSS, o que gera receios de que Modi possa ter dado rédea solta aos “Hindutva”, forças religiosas-nacionalistas, que ele terá depois dificuldade em conter.  

“O BJP não manda nesta organização. Eles respondem perante Adityanath e mais ninguém”, explica Gilles Verniers, professor assistente de Ciência Política na Universidade Ashoka.

Um colaborador próximo de Modi declarou que manter a ordem pública no estado era tarefa de Adityanath. “A responsabilidade é dele. Ele tem o dever de controlar o seu grupo de vigilantes”.

Daljit Singh Chawdhary, director-geral adjunto da polícia de Uttar Pradesh, rejeitou a ameaça que representa esta força juvenil que age à margem da lei. “Não toleramos nenhum grupo de vigilantes que aplique a lei pelas suas próprias mãos, mas, ao mesmo tempo, toda a gente pode apresentar-nos denúncias,” afirmou. “Não temos queixas recentes contra o Hindu Yuva Vahini, por isso não temos razões para agir contra eles.”

Devoção e poder

A fonte de origem do poder de Adityanath é um antigo templo em Gorakhpur, noL de Uttar Pradesh, onde as pessoas tratam com reverência este sacerdote de cabeça rapada. Pouco depois de ser nomeado ministro-chefe, um devoto recolheu pó de um tapete que Adityanath tinha pisado, para o poder venerar.

Ancorada nesta devoção, a milícia evoluiu para um grupo poderoso que aplica a justiça e já demonstrou ter uma capacidade formidável para obter votos.

O porta-voz nacional do BJP, Nalin Kohli, disse que a vitória do partido em Uttar Pradesh não se deveu apenas a Adityanath e à sua milícia privada. No entanto, Singh expressou poucas dúvidas sobre a importância do grupo na obtenção deste resultado. “Modi ganhou em Uttar Pradesh por causa da força de Adityanath”, disse Singh.

Uma das primeiras medidas de Adityanath quando se tornou ministro-chefe foi proibir os matadouros que funcionavam sem licença em Uttar Pradesh. A maior parte dos estados da Índia tem leis que proíbem o abate de vacas, que são consideradas sagradas pelos hindus, e o abate de búfalos requer uma autorização dos governos estatais.

Os talhantes de Uttar Pradesh queixam-se há vários anos de que as autoridades não emitem licenças novas, apesar de o governo lhes permitir continuar a funcionar na mesma, garantindo postos de trabalho e alimentação aos muçulmanos que dominam esta indústria.

A milícia de Adityanath tem pressionado a polícia para aplicar leis que proíbam totalmente os matadouros ilegais e a venda de carne em lojas sem licença. “Conseguimos que a polícia fechasse 45 mil pequenos talhos em menos de 24 horas… sem os nossos informadores, eles teriam fracassado”, contou Singh, que acrescentou que prestava contas a Adityanath diariamente. “Eles [a polícia] sabem que agora nós é que somos os verdadeiros heróis.”

Chandani Qureshi, mãe de quatro filhos, contou que o marido trabalhava como varredor num talho em Lucknow. A família dependia do seu salário diário de 300 rupias (4€) para sobreviver.

“Os homens do ministro-chefe chegaram com bandeiras cor-de-laranja, partiram as montras das nossas lojas e atiraram as facas e as balanças para a rua,” disse ela, sentada na sua casa de uma divisão. “Não pudemos impedi-los.”

Os donos dos grandes matadouros requereram providências cautelares para bloquear as ordens de Adityanath e milhares de talhantes protestaram contra a proibição, mas há quem duvide que tenham sucesso. “Acho que não podemos derrotar a milícia de Adityanath. Seria melhor começarmos a vender outra coisa,” disse Mohammed Faizan, que herdou um talho do avô.

O vice-ministro-chefe de Uttar Pradesh e presidente estatal do BJP, Keshav Prasav Maurya, afirmou que o seu governo não permitiria aos matadouros vender carne de vaca e de búfalo. Em vez disso, pretende que os comerciantes comecem a vender frango e ovos. “O negócio dos lacticínios é mais lucrativo do que o de carne bovina,” garantiu. Também disse que os membros da milícia de Adityanath estavam a agir como cidadãos responsáveis. “Seria errado considerá-los um governo paralelo.”

“Não toquem nas raparigas hindus”

Na manifestação em Unnao, Singh subiu a um palco pouco firme e ofereceu ídolos de deuses hindus a jovens que pararam a venda de carne de vaca, impediram casamentos inter-religiosos e escreveram poemas em honra de vacas.

Além de ajudar a encerrar talhos, a milícia tem feito denúncias aos “Esquadrões Anti-Romeu”, grupos de polícias que intervêm para impedir rapazes e raparigas de se encontrarem em público.

Um responsável da polícia, que supervisiona 64 destes esquadrões, contou que estas unidades foram criadas para combater o assédio sexual a mulheres, mas admitiu que houve casos em que membros da milícia pressionaram os agentes a terem como alvo muçulmanos que eram vistos na companhia de mulheres hindus. O polícia recusou-se a ser identificado.

Os muçulmanos dizem que estão a ser postos de parte. “Eles acham que os nossos rapazes são vilões,” disse Irshad Sheikh, cujo filho foi detido pela polícia recentemente.

Singh, o líder da força de juventude, rejeitou as sugestões de que estes esquadrões têm como alvo deliberado os muçulmanos. Na manifestação, ele encontrou-se com o pai de uma mulher hindu de 21 anos que, recentemente, foi obrigada por membros da milícia a cancelar o seu casamento com um muçulmano. “Há séculos que os muçulmanos fazem jogo sujo para converter os hindus,” disse Singh, enquanto os seus homens regressavam de uma volta por um bairro muçulmano. “Mas, agora, se eles tocarem numa rapariga hindu, podemos lutar com as nossas espadas.”

O pai da mulher, Subhash Chandra, disse que recebeu bem a intervenção da milícia. “O rapaz muçulmano apanhou-a e queria convertê-la. Tenho sorte porque as pessoas do Yogi Adityanath salvaram a vida da minha filha. Como é que uma hindu se pode tornar muçulmana? É pecado converter alguém.”
Tradução: Rita Monteiro