"A narrativa da fuga de Álvaro Cunhal é um elemento poderosíssimo na mobilização da memória de Peniche"

Três perguntas ao historiador e crítico do PÚBLICO António Araújo.

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A Fortaleza de Peniche Daniel Rocha

Qual é o significado da prisão de Peniche?
A prisão de Peniche constitui um dos lugares mais emblemáticos da repressão política do salazarismo e, muito provavelmente, foi dos que mais tempo estiveram em funcionamento. Há referências esparsas a encarceramentos ocorridos em 1926, após o golpe militar de 28 de Maio, ainda que os primeiros registos sistemáticos de presos datem de 1934, ou seja, um ano após a institucionalização formal do Estado Novo. Curiosamente, data desse mesmo ano a notícia da primeira evasão. Na construção da memória da resistência ao salazarismo, o relato das múltiplas tentativas de evasão (como a de Francisco Miguel e de Jaime Serra, em 1950) e das fugas realizadas com êxito (como a de Dias Lourenço, em 1954, e sobretudo a de Cunhal e outros, em 1960) tem desempenhado um papel tão ou mais importante do que a descrições do quotidiano de um estabelecimento prisional que, importa dizê-lo, se destinava ao cumprimento de pena, ou seja, em que a prática da tortura não se fazia sentir de modo tão visível, sistemático e directo como noutros locais.  

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Qual é o significado da prisão de Peniche?
A prisão de Peniche constitui um dos lugares mais emblemáticos da repressão política do salazarismo e, muito provavelmente, foi dos que mais tempo estiveram em funcionamento. Há referências esparsas a encarceramentos ocorridos em 1926, após o golpe militar de 28 de Maio, ainda que os primeiros registos sistemáticos de presos datem de 1934, ou seja, um ano após a institucionalização formal do Estado Novo. Curiosamente, data desse mesmo ano a notícia da primeira evasão. Na construção da memória da resistência ao salazarismo, o relato das múltiplas tentativas de evasão (como a de Francisco Miguel e de Jaime Serra, em 1950) e das fugas realizadas com êxito (como a de Dias Lourenço, em 1954, e sobretudo a de Cunhal e outros, em 1960) tem desempenhado um papel tão ou mais importante do que a descrições do quotidiano de um estabelecimento prisional que, importa dizê-lo, se destinava ao cumprimento de pena, ou seja, em que a prática da tortura não se fazia sentir de modo tão visível, sistemático e directo como noutros locais.  

Quem é que no pós-25 de Abril construiu a memória da prisão de Peniche?
O PCP, inquestionavelmente. Desde logo, porque foi a força política da oposição que mais presos teve em Peniche, em cumprimento de pena. Também aí estiveram encarceradas personalidades como Henrique Galvão, por exemplo. Mas, quer antes quer depois do 25 de Abril, a esmagadora maioria dos relatos memorialísticos sobre Peniche é feita por militantes comunistas. Por outro lado, a narrativa, com laivos épicos e heroicizantes, da fuga de Álvaro Cunhal e de mais nove camaradas, em 1960, é um elemento poderosíssimo, talvez o mais poderoso de todos, na mobilização da memória de Peniche. Para se perceber a dimensão da presença do PCP em Peniche,  note-se que as primeiras levas de presos registadas eram integradas por jovens da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas. É aliás por essa altura – mais precisamente em 1937/38 – que ocorre a primeira passagem de Cunhal por Peniche.

Que história é que um futuro museu poderá contar?
Seria importante que um futuro museu contasse a história da evolução da prisão, ao longo das suas diversas fases, tendo em conta, por exemplo, a construção do Pavilhão C, de alta segurança, em 1954, e a sua entrada em funcionamento dois anos depois.