Donald Trump: Jacksonianismo à John Wayne

Torna-se cada vez mais visível um fio condutor que liga o candidato, o Presidente eleito e o Presidente de facto.

“Não serei caluniado, não serei insultado, e não permitirei que me toquem. Não faço estas coisas a outras pessoas, e exijo o mesmo em relação a mim”. Estas palavras foram ditas por John Wayne, no célebre filme O Atirador, onde representa um pistoleiro no fim da vida e determinado a morrer com dignidade. Como bem refere Anatol Lieven a atitude da personagem de Wayne resume uma verdade essencial sobre grande parte dos americanos: eles são não apenas intensamente nacionalistas, como belicosos na sua resposta a tudo o que possa ser visto como um ataque ou injúria aos Estados Unidos.

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“Não serei caluniado, não serei insultado, e não permitirei que me toquem. Não faço estas coisas a outras pessoas, e exijo o mesmo em relação a mim”. Estas palavras foram ditas por John Wayne, no célebre filme O Atirador, onde representa um pistoleiro no fim da vida e determinado a morrer com dignidade. Como bem refere Anatol Lieven a atitude da personagem de Wayne resume uma verdade essencial sobre grande parte dos americanos: eles são não apenas intensamente nacionalistas, como belicosos na sua resposta a tudo o que possa ser visto como um ataque ou injúria aos Estados Unidos.

Donald J. Trump, o milionário da construção civil que nunca exerceu qualquer cargo político, tomou posse há um mês como 45.º Presidente dos EUA. A palavra mais usada para caracterizar a sua política é “imprevisibilidade”. No entanto, torna-se cada vez mais visível um fio condutor que liga o candidato às primárias, o republicano que concorreu à presidência, o Presidente-eleito e o Presidente de facto. Esta coerência tem raízes históricas profundas que radicam na tríade Jacksonianismo

Populismo/Nacionalismo, uma tradição norte-americana quase tão antiga como a República.

Comecemos pelas fundações — o Jacksonianismo. Herdeiro do presidente Andrew Jackson (1829-1837), este é muito mais do que um movimento político. É o que Walter Russell Mead chama a “Folk Community” (uma comunidade religiosa, cultural, social e política guardiã dos valores do povo). Trata-se de uma larga porção da população americana, que começou por ser maioritariamente rural e com as evoluções ligadas ao fim da escravatura e à migração para a indústria se deslocou para os subúrbios, mantendo os valores da terra, da honra, dos antepassados, sendo que uma parte permaneceu mesmo na América rural esquecida. Uma espécie de classe trabalhadora parcialmente ascendida a classe média pelo “sonho americano”.

A segunda característica a ter em conta é que os Jacksonianos descendem sobretudo dos escoceses-irlandeses, emigrados para o Novo Mundo com uma história de violência extrema e humilhação atrás de si. Instalaram-se na terra que lhes permitia voltar aos seus valores para virem a ser questionados primeiro pela guerra da secessão e, nos anos mais recentes, pela imigração, a globalização, a crise económica de 2008 e a percepção de abandono pelas elites. Assim, a sua visão da América e do mundo tende a ser, por um lado, a da rejeição dos vectores principais que guiam as elites, e por outro, uma visão a preto-e-branco. É preciso ser-se decisivo, politicamente incorrecto e até usar a força militar se necessário para resgatar a América original. Não é, pois, de estranhar que recentemente um artigo de fundo de The Guardian tenha chamado a Trump o “campeão dos milhões esquecidos”. Milhões esses que têm uma longa história e convicções profundas.

Daí a importância do populismo, que tem dois elementos fundamentais. O primeiro é a devolução do poder ao povo, como se houvesse uma ligação directa entre os cidadãos e o Presidente, relegando para um plano secundário todas as outras instituições, quer estaduais, quer federais. Trump — o moderno Jacksoniano — é uma espécie de intérprete da vontade dos americanos, até agora oprimidos pela elite corrupta de Washington. O segundo elemento é a criação de uma narrativa tão alternativa quanto imaginária, que tem a tripla função de apelar aos instintos mais básicos dos eleitores (medo, sobrevivência), de recriar um passado político idealizado que apela aos desejos da população (da América perdida pelos Jacksonianos) e de legitimar uma mudança brusca na direcção política.

Este passado idealizado, no universo Donald Trump, é característico de um certo tipo de nacionalismo (o terceiro elemento da tríade). Um “nacionalismo mau” e “reacionário”, que cria cidadãos de primeira e segunda, sendo os principais os descendentes de europeus, considerados o coração da verdadeira América, que têm sido prejudicados continuamente, perdendo poder político, económico e até a sua identidade e valores. O novo Presidente quer que esses sejam os protagonistas do país grandioso que pretende criar, em detrimento das diversas minorias, implicitamente tidas como responsáveis pelo declínio económico-social dos EUA.

Esta noção de decadência da verdadeira América é parte crucial da narrativa de Trump: a da vitimização dos Estados Unidos perante o mundo. Na descrição que faz, a América é um país em vias de desenvolvimento: violento, desigual, cheio de desemprego e vazio de justiça. É uma potência que tem sido explorada pelo resto do mundo, que aproveita aquilo a que temos chamado até agora “distribuição de bens públicos internacionais” — ordem, segurança, estabilidade e regras comerciais que facilitam as relações entre os Estados. Assim, os Estados Unidos de Donald Trump são um país que perdeu a grandeza e a honra (interna e externamente) e por isso têm de ser urgentemente concertados e novamente engrandecidos.

Tudo isto tem implicações em política externa. Destacam-se, desde já, cinco pontos:

1) um realismo a-ideológico, apenas dependente do interesse nacional norte-americano — as democracias deixam de ter o papel legitimador do passado;

2) uma preferência por homens políticos fortes — autoritários até — como Vladimir Putin, a quem Trump dedica uma posição apologética;

3) uma enorme suspeita relativamente às organizações internacionais e às alianças permanentes, uma espécie de “colete de forças” que impede os EUA de terem autonomia estratégica;

4) uma posição antiglobalização e proteccionista que tem tudo para transformar as relações económicas internacionais;

5) uma América fortaleza (de preferência neo-isolacionalista), mas com poder militar necessário para responder com prontidão aos desafios colocados pelo exterior, também ele hostil.

A personalidade de Trump leva-nos a percepcioná-lo como um Presidente imprevisível. Mas já sabemos várias coisas sobre o que ele será: um Presidente do tipo Jacksoniano, ao jeito de John Wayne. Isso não é novo na América. Só que não só há muito não chegava à presidência, como tal nunca aconteceu desde que os Estados Unidos se tornaram uma grande potência mundial.

FCSH-NOVA, IPRI-NOVA

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