Investidores aceleram retirada dos certificados de Aforro

Valor aplicado no produto mais tradicional de dívida do Estado desceu pelo segundo mês consecutivo, mesmo com a capitalização dos juros. Em 2016, OTRV atraíram mais dinheiro do que a soma dos certificados.

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Pelo segundo mês consecutivo, o investimento dos particulares em certificados de Aforro foi negativo, mesmo sem retirar o efeito da capitalização dos juros (ou seja, em termos brutos). O ritmo de crescimento que se verificava no valor acumulado desde o início de 2013 já tinha sido interrompido em Novembro, e o mesmo voltou a verificar-se no mês passado (-0,2%). Este movimento, aliás, deverá acentuar-se nos próximos meses, com o fim dos prémios extraordinários das séries B e C, que reduzem substancialmente a sua taxa de juro.

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Pelo segundo mês consecutivo, o investimento dos particulares em certificados de Aforro foi negativo, mesmo sem retirar o efeito da capitalização dos juros (ou seja, em termos brutos). O ritmo de crescimento que se verificava no valor acumulado desde o início de 2013 já tinha sido interrompido em Novembro, e o mesmo voltou a verificar-se no mês passado (-0,2%). Este movimento, aliás, deverá acentuar-se nos próximos meses, com o fim dos prémios extraordinários das séries B e C, que reduzem substancialmente a sua taxa de juro.

Em termos anuais, o valor global dos certificados de Aforro subiu apenas 129 milhões euros até Dezembro do ano passado, o que equivale a 1%. No entanto, tendo em conta que o montante da capitalização foi de 126 milhões, isso quer dizer que o crescimento foi residual, no valor de três milhões de euros.

A constante descida da taxa de juro da série D, a única que aceita novas subscrições, e a concorrência de outras ofertas do Estado, são as principais razões que explicam o recente “divórcio” dos portugueses face ao histórico produto. Penalizada pela evolução da Euribor a três meses, a taxa de remuneração dos certificados de Aforro terminou o ano em 0,685% brutos.

Já a subscrição de certificados do Tesouro subiram 42%, o equivalente a 3355 milhões de euros. Estas dinâmicas distintas fazem com que os stocks de certificados de Aforro e do Tesouro estejam agora muito próximos: 12.922 e 11.281 milhões de euros, respectivamente, sendo expectável uma alteração de posições ao longo deste ano. A taxa de juro bem mais atractiva, que começa em 1,25% no primeiro ano e sobe até 3,25% no quinto (2,25% de taxa média), garantiu o favoritismo desta aplicação, iniciada em Outubro de 2013.

Aumentar

Apesar da dinâmica que os certificados do Tesouro continuam a demonstrar, a grande estrela do ano passado foi o novo produto do Estado, as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV). Em termos líquidos, ou sejam retirando a capitalização dos juros dos certificados de Aforro, as OTRV chegaram mesmo a captar mais dinheiro do que os dois certificados juntos: 3450 milhões de euros através de três emissões (Maio, Agosto e Novembro), contra os 3358 milhões do Aforro e Tesouro (somando, ao todo, o valor recorde de 6808 milhões de euros).

Da primeira à terceira emissão, a taxa de juro tem encolhido, continuando, todavia, atractiva face aos tradicionais depósitos bancários, o que explica a crescente procura verificada. A emissão de Novembro garante uma taxa bruta mínima de 2%, menor que os 2,05% de Agosto e de 2,2% de Maio. A rentabilidade pode subir se a taxa Euribor a seis meses entrar em terreno positivo, o que não se verifica actualmente. Se isso não acontecer, o campeão da rentabilidade dos produtos do Estado vai continuar a pertencer aos certificados do Tesouro, que além da taxa garantida pode ainda aumentar se se verificar um crescimento PIB nos últimos dois anos da aplicação.

Com as OTRV, os balcões dos bancos estão a ganhar aos balcões dos CTT, porque se é verdade que o dinheiro vai todo para financiar o Estado, os valores captados junto dos investidores particulares estão a ser disputados por entidades distintas.

As OTRV vieram quebrar o monopólio que os CTT (antiga empresa pública) detinham até aqui nos produtos de dívida estatal, e permitem todo um novo negócio, nomeadamente via comissões. O BPI, o BCP, a CCGD e o Novo Banco coordenaram as três emissões e participaram na sua colocação comercial, feita ainda por mais seis instituições bancárias a operar no país.

Ao contrário dos certificados de Aforro e do Tesouro, em que não há pagamento de comissões, as OTRV pagam várias: subscrição, pagamento de juros, guarda de títulos, de amortização, entre outros. O peso destas comissões pode anular a taxa de juro oferecida no caso de aplicações inferiores a cinco mil euros.