Há um termo médico para morrer de coração partido. Será que foi o que aconteceu a Debbie Reynolds?

A cardiomiopatia Takostubo tem sido diagnosticada a pessoas que foram sujeitas a um elevado nível de stress.

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Debbie Reynolds e Carrie Fisher na entrega dos prémios Guilda de Actores de Televisão, em 2015 Reuters/MIKE BLAKE

Em 1990, o médico japonês Hikaro Sato escreveu um artigo científico provocador que descrevia um conjunto invulgar e repentino de sintomas de risco para a saúde que ele e os seus colegas estavam a diagnosticar nos seus doentes. Esses sintomas incluíam dores no peito, falta de ar, electrocardiogramas alterados e níveis elevados de enzimas cardíacas. Eram parecidos com um ataque de coração. Mas, quando investigavam um pouco mais, os médicos descobriam que não havia sinais de ataque cardíaco e que as artérias dos seus pacientes não estavam bloqueadas.

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Em 1990, o médico japonês Hikaro Sato escreveu um artigo científico provocador que descrevia um conjunto invulgar e repentino de sintomas de risco para a saúde que ele e os seus colegas estavam a diagnosticar nos seus doentes. Esses sintomas incluíam dores no peito, falta de ar, electrocardiogramas alterados e níveis elevados de enzimas cardíacas. Eram parecidos com um ataque de coração. Mas, quando investigavam um pouco mais, os médicos descobriam que não havia sinais de ataque cardíaco e que as artérias dos seus pacientes não estavam bloqueadas.

O quadro clínico é quase exclusivamente diagnosticado em mulheres que, curiosamente, foram sujeitas a um stress tremendo devido à perda de uma pessoa amada ou a outro episódio emocional. Para desvendar o mistério, eles teorizaram que o ventrículo esquerdo do coração, que tem a principal responsabilidade de bombear o sangue, fica fraco e imita os sintomas de um ataque cardíaco.

Sato apelidou este estado "cardiomiopatia Takotsubo", um nome que deriva de uma armadilha de polvos – devido à forma do ventrículo esquerdo – que é descrita como sendo semelhante a um tipo de jarra usada na pesca no Japão. Tem um fundo redondo e uma boca estreita, tornando difícil à presa escapar. Mas, desde então, a doença tornou-se mais popularmente conhecida por um nome diferente: "síndrome do coração partido".

Os investigadores agora aceitam que este quadro clínico é real e que não existe apenas nas séries de televisão e nos mitos. Um estudo na revista New England Journal of Medicine, publicado em 2005, está entre os que confirmaram que um fluxo de hormonas de stress pode ser capaz de “assustar” o coração de forma a produzir espasmos em pessoas que eram saudáveis. Outro estudo, publicado na revista Coronary Artery Disease, em 2011, sustentou que o quadro clínico parece ser mais comum em mulheres pós-menopausa e sugeriu que a falta de estrogénios as torna mais vulneráveis.

Na maioria dos pacientes, os sintomas desaparecem em poucas semanas e recuperam totalmente. Outros podem enfrentar complicações mais sérias como a insuficiência cardíaca. A morte é rara, mas é possível.

Ao longo dos anos, os médicos documentaram numerosos casos de parceiros, maridos e mulheres, e de pais e de filhos, que morrem pouco tempo depois uns dos outros. A cardiomiopatia Takotsubo pode ser, em parte, a responsável.

No início deste mês, Trent e Dolores Winstead, um casal de Nashville que estava junto há 63 anos, morreram com horas de diferença no mesmo quarto de hospital. Esta quinta-feira, a mãe de Carrie Fisher, Debbie Reynolds, morreu um dia depois da filha. Apesar da pouca informação que foi divulgada sobre a causa da morte, numerosos fãs e amigos das duas actrizes comentaram na Internet que Reynolds pode ter morrido de desgosto.

George Takei, conhecido pelo seu papel de Sulu na saga Star Trek, escreveu no Twitter: “Não há nada mais duro do que ter de enterrar um filho. Debbie morreu de coração partido, mas agora está com a sua filha.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post