Bonga: “Partidos não deviam ter tanto dinheiro nem conservar-se tanto no poder”

O angolano Bonga chamou ao seu novo disco Recados de Fora e nele diz o que lhe vai na alma para que o ouçam. Recados aos políticos, à sociedade, às novas gerações. Vai apresentá-lo esta terça-feira ao vivo no Tivoli, em Lisboa, às 21h30.

Foto
"Desde Angola 72, um disco essencialmente político, continuei a dizer as coisas que me iam na alma" DANIEL ROCHA

O mais recente disco de Bonga chama-se Recados de Fora, e o título pode ser lido em sentido literal ou metafórico. José Adelino Barceló de Carvalho, 74 anos feitos em 5 de Setembro, tem coisas para dizer aos angolanos e di-las a cantar. Depois de Bairro (2008) e Hora Kota (2012), Recados de Fora (também editado pela Lusáfrica) mistura português e kimbundu e inclui até uma versão do tema Sodade, meu bem, sodade, do brasileiro Zé do Norte (1908-1979). Esta terça-feira sobe ao palco do Tivoli BBVA (às 21h30) para fazer uma festa angolana, a sua.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

O mais recente disco de Bonga chama-se Recados de Fora, e o título pode ser lido em sentido literal ou metafórico. José Adelino Barceló de Carvalho, 74 anos feitos em 5 de Setembro, tem coisas para dizer aos angolanos e di-las a cantar. Depois de Bairro (2008) e Hora Kota (2012), Recados de Fora (também editado pela Lusáfrica) mistura português e kimbundu e inclui até uma versão do tema Sodade, meu bem, sodade, do brasileiro Zé do Norte (1908-1979). Esta terça-feira sobe ao palco do Tivoli BBVA (às 21h30) para fazer uma festa angolana, a sua.

Recados de Fora porquê?
Porque desde Angola 72, um disco essencialmente político, eu continuei, por uma questão de coerência, a dizer as coisas que me iam na alma. Hoje, mais do que nunca, esses recados têm de se acentuar, numa maior profundidade de relacionamento entre nós, africanos, e não afastando a família. Era uma imagem de marca: sermos cordiais uns com os outros, termos sempre um recado para dar. Por que razão é que os recados começam a falhar? Por interesses dos partidos políticos, das seitas, dos guerrilheiros para os quais a guerra ainda dá lucro. De resto, em África os velhos sempre nos transmitiram coisas. E eu, como mais velho que sou, quero estar na tónica dos velhos de antigamente e deixar recados, principalmente para essa juventude que nem sempre retrata a nossa identidade, seja ela musical, artística, poética, etc.

Em concreto, que recados são estes que o disco nos traz?
Veja-se a canção Tonokenu. Com mais de 50 anos de vivência fora de Angola, eu retrato esta tradição com os instrumentos típicos tradicionais. Este é um recado fabuloso. E diz às pessoas: brinquem. Perde-se às vezes muito tempo com coisas aparentemente sérias quando o que devemos fazer é brincar uns com os outros, que foi o que nos ensinaram os nossos ancestrais. Outra: Anangola, filhos de Angola. Tem a ver com aqueles que nasceram na nossa terra. Há uns mais claros do que outros, mas nasceram ali, são angolanos! E temos de lidar uns com os outros com fraternidade.

Há aqui também referências a França e a Cabo Verde…
Banza Rémy é para aquele grande jornalista francês [Rémy Kolpa Kopoul, 1949-2015] que me abriu as portas para França e para a Europa quando me entrevistou e me pôs na primeira página do Libération, e depois na Rádio Alfa e noutras rádios periféricas de Paris, e até viajou comigo para Moçambique. Infelizmente morreu e eu faço essa homenagem, em reconhecimento. Odji maguado, que é uma morna, tem a ver com o meu relacionamento com Cabo Verde, cuja porta me foi aberta por Djunga de Biluca, que era o homem da Morabeza Records. Aqui estão comigo exímios tocadores de Cabo Verde, como o Bau [cavaquinho] e o Chico Serra [piano].

O que quis dizer com a canção Outros tempos?
Isso tem a ver com a natureza do angolano. Em cada canto específico de Angola há tradições específicas. Nós não fomos capazes de seguir aquilo que era dos nossos ancestrais, que era uma história linda, e podíamos fazê-lo sem fechar as fronteiras. Porque nós lidamos com todas as pessoas mas temos de ter as nossas referências. É exactamente isso.

Em Recados de Fora, a canção, escreve: “Não ralha filho alheio/ Se teu filho está abusar”…
Contrariamente ao que certos maquiavélicos pensam, sobretudo da minha terra de origem, que ainda se cingem pelos partidos e que dividem as famílias, é preciso transmitir visões positivas. Quando se vê tanta negatividade, a prostituição que aumentou, a droga que entra em casa das pessoas, penso que valeu a pena ter continuado como um kota [ser mais velho e respeitado]. Mas quando não se é do clube político, somos afectados terrivelmente. Quando ousei ir ver um amigo, que era o [Jonas] Savimbi, arrisquei ser torturado. Eu não tinha nada a ver com a ideologia dele, mas gostava daquela têmpera de africano, que falava e gesticulava. Como gostei do Nelson Mandela. Ou do Samora Machel. Mas tentaram boicotar-me, a França é que me resolveu as coisas.

O que devia ser feito em Angola para mudar esse estado de coisas que critica?
Os partidos não deviam pesar tanto na lavagem do cérebro das pessoas. Não deviam ter tanto dinheiro nem conservar-se tanto no poder. Mas essa mudança de mentalidades só seria possível com a ajuda de verdadeiros democratas, sejam eles europeus, brasileiros ou chineses. Mas os que nos visitam dizem: deixa eles lutarem, a guerra é deles. Foi por isso que a gente lutou, porque nos venderam armas! Depois da independência era para a gente celebrar com quizomba todos os dias, abraços e beijos, ‘a terra agora é nossa’. Mas ainda não foi possível o verdadeiro reencontro. Os angolanos estão a ser incapazes de reencontrar a sua própria família.

E do ponto de vista musical, como está Angola hoje?
Muito boa de saúde. Os miúdos são muito criativos, muito cheios de inovações, as danças que eles conseguem fazer! Eles solicitam-me e eu estou aí, disposto e disponível, para os ajudar.