Também há beleza na América de Trump

Da guitarra de William Tyler sai a América mais profunda. Que nas mão dele é tremendamente bela.

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William Tyler está a apanhar cogumelos num bosque a 30 minutos de Nashville. Isto não é piada e ele não está a tentar esquecer a vitória de Trump através da ingestão de substâncias tóxicas – até porque a conversa foi anterior às eleições que deram a vitória ao senhor que usa uma doninha loira na testa. São cogumelos normais e ele vai para ali “para ter paz”, diz, antes de se colocar no camião e voltar para casa, o tempo todo à conversa connosco.

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William Tyler está a apanhar cogumelos num bosque a 30 minutos de Nashville. Isto não é piada e ele não está a tentar esquecer a vitória de Trump através da ingestão de substâncias tóxicas – até porque a conversa foi anterior às eleições que deram a vitória ao senhor que usa uma doninha loira na testa. São cogumelos normais e ele vai para ali “para ter paz”, diz, antes de se colocar no camião e voltar para casa, o tempo todo à conversa connosco.

Como hão-de ter notado, este não é o comportamento normal de uma rock star, impressão que se adensa se tivermos em conta que quem nos deu o número de telefone de Tyler foi a sua mãe – isto porque o número de telefone que ele nos deu foi o da mãe.

Tyler, contudo, não é nem quer ser rock star: é um guitarrista que esgravata a terra à procura da música que algures no passado “fazia os pobres da América dançar”. A sua guitarra evoca uma América que já não existe, anterior às redes sociais, ao tractor, quando um homem valia o que os seus braços podiam. Os braços de Tyler, a avaliar por Impossible Truth, de 2013, e o recente Modern Country, podem muito. Já agora: quem quiser apreciar essa beleza dirija-se, na quinta-feira, à Casa Independente em Lisboa, onde ele actua a solo.

Mas nada de perder o fio à meada: Tyler já não está a apanhar cogumelos, está a conduzir na direcção do centro da cidade onde nasceu e cresceu. Ele é filho de Dan Tyler, compositor de canções de country comercial nos anos 1980 e 1990. William cresceu assim, rodeado não de cantores mas de músicos, desde muito cedo: "iam lá para casa, comiam, bebiam, falavam de desporto”.

O Sr. Tyler era “um homem progressista em termos de política, o que é inusual em termos de sul”. Nashville, para os europeus, é simplesmente uma terra arcaica que viu nascer a country. Mas segundo Tyler é “uma cidade liberal no coração de um estado muito conservador”.

É curiosa a descrição que ele faz das terras em redor de Nashville: “Quando sais da cidade é igrejas, bandeiras da confederação, armas, racismo”. E é curiosa porque quando nos pomos a ouvir a sua música são imagens assim que vêm à nossa mente. “As pessoas”, continua ele, “são velhas e brancas e zangadas e estão fartas de mudanças. Como as pessoas do Brexit”.

O contexto explica, em parte, o génio de Tyler: como não ser um guitarrista quase sobredotado? Ele cresceu com isto desde pequeno – e sabe disso, ou não dissesse a dada altura que “de forma inconsciente tudo isso está na minha música – ela evoca isto, evoca as paisagens rurais da country, as igrejas, os campos. Coisas que soam a outras épocas”.

Tyles não é apenas um virtuoso: é também um par de ouvidos melódicos, um tipo com uma capacidade absurda de evocar géneros antigos, um homem com uma maravilhosa noção de harmonia. E no entanto, a country não foi o seu primeiro amor: “Adorava tocar metal. Andava mais pelo punk e pelo hardcore quando era miúdo. E adorava Black Sabath e Judas Priest”.

Depois vieram os Velvet Underground e os Ramones. Os Nirvana. Ah, os Nirvana, ele lembra-se muito bem desse Verão: "Estava numa piscina quando começou a tocar o Smells like teen spirit e eu tive de sair da água para perguntar o que era”. Nesse momento Tyler teve duas certezas. A primeira: “Eu quero esta música na minha vida”. A segunda: “Vou ser guitarrista”. Isto foi antes de renunciar aos Nirvana.

“Eles fizeram muito mal à minha geração, sabes?”, diz Tyler, e por um instante pensamos em heroína e suicídio, mas não é isso. “O Cobain era muito primitivo a tocar e até me fez querer aprender mal guitarra. Mas agora eu interesso-me pelo artesanal. Acho que nessa altura eu gozaria com alguém que quisesse ser como sou hoje”.

Estradas remotas

A dada altura a infância voltou-lhe. Ele não sabe muito bem como aconteceu, mas começou a ter vontade de aprender a tocar a música com que cresceu. Ficava “irritado por não conseguir tocar uma canção do Chet Atkins”. Foi aprender a tocar guitarra “para poder tocar coisas de John Fahey ou do Nick Drake”. Treinou e treinou e treinou.

Quando deu por ela era um magistral músico, capaz de coisas inacreditáveis. Tornou-se o go-to guy da cena alternativa de Nashville. Foi homem de mão nos Lambchop; o tipo que dava notas ao som que David Berman, dos Silver Jews, tinha na cabeça. Quando os Jews fizeram pela primeira vez uma digressão ele estava lá – e nós também, foi quando o conhecemos: extraordinariamente, em vez de se drogar e perseguir groupies, o homem gramava era de falar de história e literatura.

“Entre mim e o David havia muitos livros nessa digressão, havia”, ri-se William, que tem um anúncio a fazer ao mundo: está tudo bem com o senhor Berman. “Vejo-o para aí uma vez por mês – continua o mesmo”.

Ora, como podem imaginar, isto significa que Tyler não é um tipo convencional. Tranquilidade não é o seu nome do meio. É complicado: “Não sou o tipo mais equilibrado mentalmente”, confessa. “Tenho muita ansiedade e depressão. Não dependo de drogas, mas tenho um certo sofrimento com as coisas que resultam de levar uma vida criativa, que é a incerteza de como pagar contas, a solidão, as ratoeiras”.

Este discurso é constante. Num minuto diz que quer “ser o irmão saudável do John Fahey”, que para quem não sabe foi um admirável guitarrista americano (e avariado da cabeça). Depois explica que quer “fazer isto por muito tempo e a única forma de o fazer é ter cuidado na forma como se aborda a vida. Ser saudável, acima de tudo”. E por fim admite que cresceu “ao lado de muita gente que era auto-destrutiva” e não quer isso para si.

Tyler é sempre assim, desarmantemente honesto. É isto que lhe permite contar que Modern Country nasceu do seu pânico. “Tive um par de ataques de pânico nas auto-estradas, pelo que decidi ir pelas estradas mais remotas, e descobri partes da América que não são visitadas e isso começou a dar-me ideias para escrever sobre pequenas terras americanas em vias de abandono”. Sim, ele disse-o: “A América do Trump, no fundo”.

O seu negócio é “encontrar a beleza”, coisa que consegue, disco após disco, embora neste caso de forma diferente, porque antes os seus discos eram ele sozinho, e em Modern Country teve companhia (e isso não tira um pingo de beleza). “Estas canções são mais simples mas porque há muitos arranjos até parece mais complicadas do que são. Achei que tinha chegado a hora de pôr mais instrumentos”.

 A beleza de Modern Country não o sossega – agora ele está preocupado com a hipótese de “a inspiração se ir embora e não voltar”. Diz que não é “um tipo muito feliz” mas que encontrou “sentido em compor e viajar para tocar para as pessoas”.

O que significa que se forem ver William Tyler a tocar estarão a dar sentido à vida dele.