Um ano depois da eleição mais histórica, Suu Kyi tem a primeira crise

A violência regressou ao estado de Rakhine, onde a minoria rohingya é sujeita a um racismo profundo e com potencial explosivo.

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Apesar de não ter qualquer cargo oficial no Governo, Suu Kyi é a personalidade com mais relevo Reuters/ISSEI KATO

Há um ano, as eleições legislativas abriram portas ao primeiro Governo de civis em meio século na Birmânia e o mundo saudou o passo que aproxima o país – controlado pelos militares desde 1962 – da democracia. Porém, os problemas étnicos de um país profundamente dividido continuam a ser o grande desafio dos democratas liderados por Aung San Suu Kyi.

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Há um ano, as eleições legislativas abriram portas ao primeiro Governo de civis em meio século na Birmânia e o mundo saudou o passo que aproxima o país – controlado pelos militares desde 1962 – da democracia. Porém, os problemas étnicos de um país profundamente dividido continuam a ser o grande desafio dos democratas liderados por Aung San Suu Kyi.

No estado de Rakhine, na costa ocidental perto da fronteira com o Bangladesh, a vitória da Liga Nacional para a Democracia (LND) mudou muito pouco o dia-a-dia da sua população maioritariamente muçulmana. Na verdade, a situação no terreno tem piorado e teme-se o regresso dos violentos confrontos de 2012.

No início do mês, uma série de ataques armados contra postos da polícia fronteiriça motivou uma resposta dura das autoridades birmanesas. O Governo diz que desde 9 de Outubro morreram cerca de 30 pessoas em confrontos violentos entre a polícia e grupos de extremistas islâmicos conotados com a minoria rohingya. A existência das organizações referidas pelo Governo é alvo de disputa, uma vez que a entrada a jornalistas estrangeiros na região tem sido proibida. Joshua Kurlantzick, do Council on Foreign Relations, diz que os grupos extremistas mencionados “não têm qualquer historial” e cita dirigentes birmaneses que admitem ter escassas informações sobre eles.

O regresso da violência a Rakhine é o reflexo mais dramático do problema do tratamento das minorias étnicas da Birmânia. Tudo passa pela complexa lei da nacionalidade criada pelos militares que exclui grande parte da população – incluindo pessoas de etnia chinesa ou indiana e, sobretudo, muçulmanos. Quem não pertence a uma das 135 “raças nacionais” não pode sequer tentar obter a nacionalidade, cabendo apenas a hipótese de conseguir um estatuto limitado, na prática, um cidadão de segunda categoria.

Durante décadas, a junta militar foi incapaz de conseguir governar regiões inteiras, controladas por grupos separatistas que recorreram às armas para combater o centralismo dos líderes nacionais e a hegemonia da etnia burma. Em Setembro, o novo Governo tentou dar um impulso ao processo de paz com a conferência de Panglong em que foram sentados à mesma mesa dirigentes de quase todos os grupos separatistas.

Os sinais dados por Suu Kyi não apontam, porém, para uma melhoria no tratamento dado às minorias étnicas, sobretudo os rohingya. Apesar da pressão internacional, nomeadamente das Nações Unidas, a Prémio Nobel da Paz insiste, por exemplo, em não utilizar o termo rohingya para identificar aquela população. Fê-lo durante a campanha eleitoral para não alienar o voto dos sectores budistas nacionalistas que se recusam a reconhecer os rohingya como uma etnia diferenciada – todos os muçulmanos de Rakhine são designados pelos extremistas como bengalis, por serem considerados imigrantes ilegais do Bangladesh.

O budismo extremista está mais vivo do que nunca na sociedade birmanesa. Organizações como o Ma Ba Tha têm lançado campanhas para denegrir a imagem dos muçulmanos e são conhecidos os discursos do monge Ashin Wirathu, que chegou a apelar ao genocídio dos rohingya. Em algumas aldeias espalhadas pelo país multiplicam-se os avisos a proibir a entrada de muçulmanos, escrevia em Maio o Guardian.

É neste contexto polarizado que a LND tem de se movimentar. Suu Kyi nomeou o antigo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como enviado especial para liderar uma investigação aos abusos cometidos sobre os rohingya em Rakhine, onde vivem num regime comparável ao apartheid – é-lhes negada a liberdade de movimentos e enfrentam vidas de pobreza por terem dificuldade em arranjar trabalho.

A escolha de uma personalidade com o estatuto internacional de Annan tinha o objectivo de superar as clivagens presentes na sociedade birmanesa. Mas, na primeira ocasião em que se deslocou ao estado de Rakhine, no início de Setembro, Kofi Annan foi recebido por centenas de budistas em raiva que deixaram bem claro que a sua missão não será fácil.