Sean Riley & The Slowriders: "o Bruno está aqui"

Em Maio editaram o álbum de regresso. Dia 9 de Junho, chegou a pior das notícias. Tinham perdido Bruno Simões. Pela primeira vez, a banda fala do seu baixista, do amigo de décadas, de porque foi obrigatório continuar.

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Não fosse Bruno Simões (primeiro à esq.) e a banda nunca teria feito o seu percurso de dez anos, dizem Filipe Rocha, Filipe Costa e Afonso Rodrigues. Continuam para celebrar o que construíram juntos KID

Bruno Simões sabia bem o que estava a fazer. Tinha um CD-r com as canções de um misterioso Sean Riley, achava-as boas demais para ficarem escondidas e trabalhava na Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Melhor mesmo seria começar a mostrá-las ao mundo. Assim fez. Eis então Afonso Rodrigues, o autor das canções assinadas Sean Riley, e Filipe Costa, o teclista que, nesse ano de 2006, conhecíamos dos Bunnyranch, e que se juntou a Bruno na tarefa de dar corpo à música de Afonso, a descobrirem que, se calhar, tinham mesmo uma banda.

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Bruno Simões sabia bem o que estava a fazer. Tinha um CD-r com as canções de um misterioso Sean Riley, achava-as boas demais para ficarem escondidas e trabalhava na Rádio Universidade de Coimbra (RUC). Melhor mesmo seria começar a mostrá-las ao mundo. Assim fez. Eis então Afonso Rodrigues, o autor das canções assinadas Sean Riley, e Filipe Costa, o teclista que, nesse ano de 2006, conhecíamos dos Bunnyranch, e que se juntou a Bruno na tarefa de dar corpo à música de Afonso, a descobrirem que, se calhar, tinham mesmo uma banda.

Não demorou até que um homem a par da “conspiração”, Hugo Ferreira, que fundaria mais tarde a editora leiriense Omnichord, se lembrasse de Sean Riley, a banda que ainda não existia, para actuar no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), cumprindo a primeira parte de um concerto do sueco Ernesto, convidado para o aniversário da RUC. “Esse concerto aparece porque estávamos todos ligados à RUC e porque o Bruno decide, sem qualquer tipo de consulta, passar músicas no ar, não revelando de quem eram e mantendo a coisa num plano mais mitológico”, recorda Filipe Costa. “De repente, há um concerto de aniversário da RUC e o Hugo Ferreira liga para mim a dizer que ia trazer o Ernesto ao TAGV e que ia pôr Sean Riley na primeira parte. E disse aquilo com uma propriedade… Como se a banda existisse mesmo”. Se não existia, a partir daquele momento, passou a existir.

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Nuno Filipe, actual baixista, é o homem da família que regressou à banda (primeiro à esquerda). Paulo Furtado (primeiro à direita) juntou-se como convidado no último festival Paredes de Coura DR

“Foi nos ensaios para esse primeiro concerto que estivemos os três a tocar juntos, ao mesmo tempo, pela primeira vez”. Até aí, Afonso levava a música ao sótão de Bruno, que adicionava teclados ou percussões, e levava-a também até Filipe Costa, que congeminava alguns arranjos. Depois do concerto, as canções do cantautor passaram a ser obra de banda. Sean Riley, simplesmente, ficava curto. Surgiam então, oficialmente, Sean Riley & The Slowriders. O disco de estreia, Farewell, foi editado um ano depois, em 2007. Tudo culpa de um homem, Bruno Simões. Tudo culpa desse Bruno Simões que, no final do primeiro ensaio após o concerto que oficializou o nascimento, quando começou a ver surgirem guitarras e pianadas eléctricas, ameaçou sair da banda que ajudara a formar. Filipe Costa recorda a explosão: “Mas isto agora vai ser blues? Eu não quero tocar blues! Mas é rock, é? Também não quero tocar rock”. Recorda também como, “cada vez que uma canção ficava mais eléctrica, o Bruno se abanava com mais e mais prazer mas, no final, punha tudo em causa conceptualmente”.

Bruno Simões, como sabemos, ficou. Gravou Farewell, viu chegar um grande amigo, Filipe Rocha, para ocupar o lugar de baterista, gravou Only Time Will Tell (2009) e It’s Been a Long Night (2011). Entretanto, enquanto a banda ficava em pousio por tempo indeterminado, partiu um ano para Dili, onde integrou um programa de formação dos quadros da Rádio-Televisão Timor Leste. De regresso a Portugal, a banda reuniu-se novamente e, em Maio último, chegou novo álbum, homónimo. O primeiro single, Dili, escreveu-o Afonso para Bruno. “Este é o disco de que ele mais gostava. Adorou fazê-lo e estava contente como nunca com a banda. Ponho-me a pensar nisto e parece quase premonitório”. Na madrugada de 9 de Junho, o carro de Bruno Simões, que morava então em Almada, foi encontrado no tabuleiro da Ponte 25 de Abril, de porta aberta e chave na ignição. As investigações das autoridades revelaram-se inconclusivas. Bruno Simões desapareceu. Tinha 39 anos. Sean Riley & The Slowriders perdiam um dos seus fundadores. Afonso Rodrigues, Filipe Costa e Filipe Rocha perdiam um amigo de décadas.

Moving on, com vídeo realizado pelo cineasta Rodrigo Areias, foi o single de apresentação da banda, em 2007
Houses & wives, single de apresentação do segundo álbum da banda, Only Time Will Tell, onde surge pela primeira vez o então novo baterista, Filipe Rocha

O explorador

Numa mesa do bar do Cinema São Jorge, em Lisboa, estão Afonso Rodrigues, Filipe Costa, Filipe Rocha e Nuno Filipe, o baixista leiriense, membro, entre outros, dos Born a Lion e Allstar Project, que substituíra Bruno Simões quando da estadia deste em Dili, e que regressou agora novamente à banda. É a primeira vez que falam à imprensa desde o desaparecimento do velho amigo. Não discutem “ses” ou “porquês”. Afonso quebrará quando, gravador ligado, fala de Bruno pela primeira vez na entrevista. Filipe Costa sorri ao recordar como ele continua em todo o lado. “Está sentado numa destas cadeiras, agora. Lá está ele com uma nódoa na camisa, ele que trouxe a roupa errada, ele que se esqueceu outra vez de qualquer coisa”. Recordam o Bruno “responsável por 70 por cento da palhaçada” na vida da banda: “vai ser lixado manter o mesmo nível sem ele”, diz Afonso, e nós lembramo-nos do hilário diário de gravações, escrito pelo baixista quando a banda preparava Only Time Will Tell, onde encontrávamos relatos de jogos de póquer surreais e de deslocações, ainda mais surreais, a roulotes de bifanas frequentadas por clientes com gosto especial por brandir facas e dirigidos por homens que ameaçavam lançar pimenta, sabe-se lá porquê, nos olhos dos clientes.

Falam igualmente do outro lado, o musical. “Ele teve sempre um papel importantíssimo em desviar-nos do que seriam as escolhas mais óbvias”, destaca Afonso. Sempre que o óbvio indicava um caminho, ele queria fazer o oposto”. Pedia autorização ao produtor Nélson Carvalho, nos estúdios da Valentim de Carvalho, para se fechar na régie a “fazer feedbacks, só para curtir um bocadinho”, conta Filipe Rocha, a banda ficava a ouvir a chinfrineira sem saber onde aquilo os iria levar mas, no final, “quase tudo era utilizado em momentos diferentes do disco”. O homem que tocava baixo mas que passava o tempo à volta de máquinas, de sintetizadores ou caixas-de-ritmo, era, digamos, o explorador da banda.

Bruno Simões era um músico multifacetado. Integrou como baixista os Tu Metes Nojo, banda de culto coimbrã, que era um verdadeiro teatro punk burlesco com gosto especial pelo humor do absurdo. Colaborou com os Subway Riders, outro fenómeno de culto saído da cidade, banda que se orgulha de ter uma carreira sem nunca ter tido necessidade de fazer qualquer ensaio. Foi vocalista dos Cave Canem, virados para o rock tingido a negro, e antes disso, na segunda metade dos anos 1990, guitarrista da banda de dark folk Rosenkranz. Paralelamente, criou em 2004, enquanto radialista na RUC, o programa Rádio dos Miúdos Fantásticos, que transformava semanalmente crianças do ensino básico em “estrelas” da rádio. Nos últimos anos, integrava também a equipa de produtores dos Black Sheep Studios, em Sintra.

Bruno Simões integrou os Tu Metes Nojo, uma das bandas de culto de Coimbra
E criou na RUC o programa Rádio dos Miúdos Fantásticos

Não vimos em Vila Real, o primeiro concerto após o desaparecimento de Bruno Simões, mas vimos no Nos Alive e vimos em Paredes de Coura. Sean Riley & The Slowriders em palco. Afonso Rodrigues, Filipe Costa, Filipe Rocha, Nuno Filipe. E Bruno Simões - o baixo que era o dele no centro do palco. Bruno Simões novamente - “King B.”, leremos nos ecrãs no final.

Quando a notícia lhes chegou, no seu impacto devastador, o primeiro impulso foi, diz Afonso, “deitar a toalha ao chão” e assumir que “não valia a pena continuar”. Mas depois Filipe Rocha disse que não podia ser: “Já perdi o meu melhor amigo, tenho o coração partido e estou todo rebentado. Não me faças perder outra coisa tão importante na minha vida”. E a família de Bruno Simões, na pessoa da irmã, incentivava: “Têm que tocar, têm que continuar”. Entretanto, numa cerimónia celebrada em Coimbra em memória de Bruno Simões, Nuno Filipe é abordado por vários amigos próximos do baixista que lhe dizem para se juntar à banda para que esta continuasse. Sem que Nuno Filipe ainda o soubesse, a banda também só concebia a possibilidade de continuar com ele no papel de baixista. “Era amigo do Bruno e o Bruno respeitava muito o Nuno musicalmente. Além disso, é como se fosse da família e já tinha tido esse papel enquanto o Bruno esteve em Timor. Não podia ser de outra maneira”, confessa Afonso. “É muito difícil voltar a pegar numa guitarra naquelas circunstâncias. Fazê-lo e termos ao lado um músico contratado seria impossível. Nenhum de nós queria passar por isso”.

Dia 1 de Julho, no Festival Nordeste, em Vila Real, Sean Riley & The Slowriders voltaram a subir a um palco. Do concerto propriamente dito, poucas são as memórias que guardam. Recordam o resto. O dia em que todos os tempos mortos foram passados a pensar e a falar do antigo companheiro, a viver uma “catarse gigante” em que lágrimas e isolamento alternavam com gargalhadas histéricas, brindes e abraços colectivos. “Só tínhamos duas opções para lidar com a dor, que era parar ou continuar. A dor continuaria sempre. Neste momento, sentimos que o mundo de dor mais pequeno era continuar”, explica Afonso. “O Bruno não está cá e provavelmente não está em lado nenhum. Não sei se está a olhar para nós e isso não interessa. Interessa estes dez anos maravilhosos que vivemos com ele. Tudo isto aconteceu por causa dele e a única coisa que eu sei é que, se ele pudesse escolher, ia fazer esta música para sempre e ia estar para sempre connosco a tocá-la. De cada vez que tocamos estas músicas, ele está lá”. A cada novo concerto, tivemo-los todos juntos. Os cinco. Juntos continuam.

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