Muhammad Ali: Este é o seu tempo

The Greatest é a história de três combates de boxe. Mas não só. O que o torna um documentário extraordinário e a mais justa homenagem a Muhammad Ali é representar um tempo e a forma como um homem invulgar se moldou nele.

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O grupo de homens, brancos e ricos, alinhados na rua nocturna, apresenta-se. Um a um, câmara em plano aproximado no rosto. O empresário detentor de uma equipa desportiva, o latifundiário, o advogado que tem uns negócios à parte e por aí fora. Os homens, agora instalados na sala de um deles, queixam-se da “relativa ingratidão” daquele que consideram o seu antigo protegido, o miúdo que nunca teria chegado a lado nenhum não fossem eles e o dinheiro deles.

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O grupo de homens, brancos e ricos, alinhados na rua nocturna, apresenta-se. Um a um, câmara em plano aproximado no rosto. O empresário detentor de uma equipa desportiva, o latifundiário, o advogado que tem uns negócios à parte e por aí fora. Os homens, agora instalados na sala de um deles, queixam-se da “relativa ingratidão” daquele que consideram o seu antigo protegido, o miúdo que nunca teria chegado a lado nenhum não fossem eles e o dinheiro deles.

Um, Clay de apelido, conta a história de como, no tempo da escravatura, era habitual os escravos, usurpados do seu nome de nascença, serem baptizados com o nome de família do seu senhor. “Isto já foi há muito tempo, mas os meus antepassados eram provavelmente donos dos familiares do Cassius”. Parafraseando o novo Nobel da Literatura, “something was happening there, but you didn’t know what it was, did you, mister Clay?”.

The Greatest, estreado em 1974, é um documentário realizado pelo fotógrafo americano radicado em França William Klein. Acompanha Muhammad Ali nos dois combates que o tornaram, precisamente, The Greatest – ambos contra Sonny Liston, ambos em 1964: no primeiro Sonny era o campeão mundial de pesos-pesados, no segundo era o antigo campeão a tentar reconquistar o título –, e no mítico duelo com George Foreman, em 1974 (aconteceu no então Zaire e chamaram-lhe Rumble in the Jungle). Com a vitória, Ali passou de The Greatest a figura lendária.

Trata-se, portanto, de um documentário sobre o pugilista mais famoso de todos os tempos? Sim: temos as imagens dos treinos e dos corpos em tensão e vemos o bailado dos desportistas no ringue através da câmara ágil de Klein, com proximidade de cinema-verité, mas capaz de revelar o sentido de composição de que o dotou o seu ofício de fotógrafo. E não: The Greatest é um documentário fascinante por ser muito mais que o relato dos três combates. É a história de um tempo e de como um homem extraordinário atravessou e combateu esse tempo.

Digamos que vê-lo e exibi-lo é a melhor homenagem possível ao homem falecido a 3 de Junho de 2016, aos 74 anos. Não lhe faria justiça o documentário agora habitual, feito de cabeças falantes debitando memórias ou análise, intercaladas com imagens de arquivo para caução histórica. Conhecer verdadeiramente Muhammad Ali é vê-lo como o vemos aqui: fanfarrão e desbocado, orgulhoso e com peito cheio de coragem, activista em cada gesto e cada palavra, atleta abençoado com um dom aprimorado em horas e horas de treino.

Compreender verdadeiramente Muhammad Ali é ver exactamente o que era o mundo e as pessoas que o rodeavam. Klein filma-as demoradamente. Anónimos debatendo as suas qualidades e fragilidades nas ruas e nos cafés, pensadores explicando porque é Muhammad Ali a personificação do verdadeiro Super Americano (e como isso é perturbador para a América branca e conservadora), Malcolm X a reflectir sobre as mesmas questões, um cozinheiro a mostrar à câmara com quantos murros se faz um Muhammad Ali. E, entre uns e outros, enquanto a óptima banda-sonora dá jazz ao rock’n’roll, temos mais Ali a disparar palavras em cascata como rapper por vir, a improvisar poemas, a fazer do humor uma questão muito séria. Lá atrás, no início do documentário de quase duas horas, continua aquela frase: “Isto já foi há muito tempo, mas os meus antepassados eram provavelmente donos dos familiares do Cassius”. Aqueles pobres homens não tinham mesmo compreendido o que estava a acontecer.

Inicialmente centrado nos dois combates com Sonny Liston, que deram ao já campeão olímpico o título mundial de pesos-pesados, The Greatest seria aumentado posteriormente, e passaria do preto-e-branco à cor, quando Klein decidiu acompanhar em Kinshasa aquele que foi na altura classificado como “o combate do século”. É com a vitória perante o gigantesco e favorito George Foreman que Muhammad Ali completa em 1974 o ciclo mais determinante da sua vida, aquele que lhe garantiu lugar como uma das figuras do século XX, muito para além do desporto de que foi um praticante genial.

The Greatest mostra aquele homem que se ergue, muito ruidosamente e perante todos, numa América em convulsão pela guerra combatida no Vietname, em que Ali recusará participar (“nunca nenhum vietcong me chamou preto”, explodiu), e que convive com uma luta pelos direitos civis da população negra que irá abalar a ordem estabelecida no país. O documentário mostra-o a ele (“o hipster, o jazzman tornado pugilista, é isso Cassius Clay”, exclamam para a câmara) para mostrar aquilo que está na raiz da sua postura. A sua grande virtude é, precisamente, mostrar o Ali por trás dos holofotes e também aquele que navegava, qual furacão aparentemente descontrolado mas no total domínio da situação, o frenesim mediático que o rodeava – a provocar os adversários, a receber os Beatles no ringue, qual encontro de jovens gigantes, a explicar aos jornalistas uma verdade básica, mas, na boca de um negro, quase revolucionária na América de então: “não tenho que ser o que tu queres que eu seja, quero ser o que eu quiser ser”. A grande virtude, corrijamos, é mostrar aquilo enquanto, ao mesmo tempo, William Klein ouve os antigos patrocinadores de Ali, os sermões contra Ali na Igreja Católica, após a sua conversão ao islamismo, ou os jovens activistas negros que o encarnam na sala de estudo. É fazer o mesmo no Zaire, acompanhando o entusiasmo popular com que seguia Ali uma nação desejosa de futuro e que ganhara recentemente a independência, ou mostrando o ritual de poder que acompanha o encontro, literalmente para a fotografria, entre os dois pugilistas e o ditador, então herói da independência, Mobutu Sese Seko.

Não vemos filmagens quer do segundo combate com Liston, quer do combate com Foreman, substituídas por uma hábil montagem de fotos que dão conta de toda a dinâmica dos confrontos. Mas os combates são, afinal, apenas uma componente daquilo que The Greatest aborda. Quando Muhammad Ali grita “float like a butterfly, sting like a bee”, não está a falar apenas do que acontece no ringue.