Fumar charros já não é o que era: agora vapeia-se

A Pax Labs, a "Apple do 'vaping'", tem novos produtos que permitem vapear marijuana — e já há outros equipamentos utilizados com a mesma finalidade no mercado. Fumar charros já não é o que era?

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Pax Era

Já todos vimos filmes em que, a dada altura, uns quantos amigos, empilhados num quarto enevoado, passam entre si charros, bongos e outras coisas que tais, totalmente alheios à nuvem de fumo que se forma acima da suas cabeças e dos seus olhos semicerrados, certo? Pois, num futuro bem próximo essas cenas podem ter os dias contados.

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Já todos vimos filmes em que, a dada altura, uns quantos amigos, empilhados num quarto enevoado, passam entre si charros, bongos e outras coisas que tais, totalmente alheios à nuvem de fumo que se forma acima da suas cabeças e dos seus olhos semicerrados, certo? Pois, num futuro bem próximo essas cenas podem ter os dias contados.

Já por aqui tínhamos falado do E-Njoint, o autoproclamado "primeiro" charro electrónico do mundo. E agora há mais provas de que a tecnologia está, realmente, a revolucionar este mundo.

A Pax Labs, uma "startup" de São Francisco, conhecida como "a Apple do 'vaping'", tal é o apurado design dos seus produtos e das embalagens, lançou no final do mês passado dois novos equipamentos: o vaporizador Pax 3 e o cigarro electrónico Pax Era. E ambos podem ser usados para fumar marijuana. Ou, vá, vapear.

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O design cuidado é uma das imagens de marca DR

O Pax 2, o modelo anterior lançado em 2015, já podia ser utilizado para fumar folhas secas de "cannabis" ou tabaco. A versão mais recente, porém, permite ainda o uso com óleo de "cannabis", substância que se assemelha a mel ou a manteiga e que tem uma elevada concentração de Tetrahidrocanabinol, o ingrediente psicoactivo existente na planta. De acordo com o "Business Insider", que cita o "Marijuana Business Daily", o consumo na forma líquida tem aumentado nos últimos anos, representando já um terço das compras de marijuana no Colorado, estado norte-americano que em 2014 legalizou a venda para fins recreativos (Alaska, Oregon e Washington também o permitem, sendo que é legal consumir para fins medicinais em praticamente metade do país).

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Pormenor do Pax 3 DR

Com um design cuidado e discreto, o Pax 3 permite vaporizações de 15 segundos e pode ser personalizado a partir de uma aplicação, que, entre outras coisas, possibilita definir a temperatura desejada ou intensidade do sabor. Está disponível em diferentes cores, mas ainda não está à venda. O preço já é conhecido: custa 259 euros, com uma garantia de dez anos.

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Pax 3 e Pax Era DR

Já o Pax Era inspira-se no produto mais vendido pela empresa, o cigarro electrónico Juul, mas destina-se a "cannabis". Com um design moderno, também cabe num bolso e é carregado por USB. Para vapear, é preciso carregá-lo com cartuchos de óleo de 'cannabis', que estão à venda na Califórnia e no Colorado. Tal como o Pax 3, este "charro electrónico" não tem botões, podendo ser sincronizado com uma "app" no "smartphone". Custa 59,99 euros. 

A motivação da Pax Labs não é modesta: "O nosso objectivo foi, e é, tornar o acto tradicional de fumar obsoleto ao construir produtos superiores tecnicamente que mudam toda a experiência", disse o CEO Tyler Goldman, em declarações à "Quartz". Serão poucos os vaporizadores que têm uma imagem tão cuidada, mas do outro lado do mundo, com a legalização da marijuana na ordem do dia, há um novo mercado a desenvolver-se, com cada vez mais seguidores, nomeadamente adolescentes americanos — um estudo de 2015 estimou que um quinto dos estudantes do ensino secundário usava cigarros electrónicos com marijuana.

E em Portugal?

As implicações para a saúde estão a ser estudadas. Se uns defendem que é um método mais seguro e saudável, outros ressalvam que se mantêm os riscos de dependência e que faltam investigações. Em Maio, um grupo de investigadores suíços concluiu que inalar vapores com infusões de extractos de "cannabis" é mais saudável do que fumar com tabaco e permite ainda um maior controlo sobre as microdosagens recomendadas para consumo medicinal, o que pode abrir portas a outros métodos terapêuticos.

Ao P3, Andreia Nisa, vice-coordenadora do Check!n em Viseu, projecto de redução dos riscos associados ao consumo de substâncias psicoactivas e à sexualidade, sublinha o mesmo: "A vaporização acarreta menos riscos, pois não produz toxicidade pulmonar, mantendo os efeitos psicoactivos". Não só porque não pressupõe a mistura com tabaco, mas também porque diminui a alta temperatura do fumo e elimina potenciais agentes prejudiciais ao organismos. "Muitas vezes", diz a responsável, "para fumar marijuana são utilizados materiais que têm plástico e que com a combustão podem libertar partículas tóxicas". 

Em Portugal, esta realidade ainda não é muito próxima, mas pelo trabalho de terreno do Check!n em contextos festivos Andreia consegue apurar que os vaporizadores "são cada vez mais conhecidos", ainda que falar "de um impacto na alteração nos hábitos seja muito prematuro". Os equipamentos estão mais pequenos e com preços mais acessíveis, mas mesmo que no futuro entrem em força no mercado português não se verá essa diferença "no imediato" e dificilmente irão aumentar o consumo, considera. Provavelmente serão utilizados por pessoas que já consomem "cannabis", mas que pretendem fazê-lo com menor riscos: "Quem utiliza uma substância como 'cannabis' não quer dizer que não se preocupe com a saúde".