Investigadores responsabilizam rebeldes pró-russos pelo abate do MH17

Sistema de mísseis Buk foi enviado de uma base militar russa para apoiar rebeldes pró-russos e acabou por provocar queda de avião com 298 pessoas a bordo, durante o Verão de 2014. Rússia critica investigação "tendenciosa".

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Parte dos destroços do voo da Malaysia Airlines Maxim Zmeiev / Reuters

O sistema de defesa anti-aérea russo que atingiu e provocou a queda do avião da Malaysia Airlines no Leste da Ucrânia no Verão de 2014, causando a morte a 298 pessoas, veio de uma base militar russa. As conclusões são do grupo de investigadores liderado pela Holanda que apontam para a responsabilidade dos rebeldes pró-russos e de Moscovo.

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O sistema de defesa anti-aérea russo que atingiu e provocou a queda do avião da Malaysia Airlines no Leste da Ucrânia no Verão de 2014, causando a morte a 298 pessoas, veio de uma base militar russa. As conclusões são do grupo de investigadores liderado pela Holanda que apontam para a responsabilidade dos rebeldes pró-russos e de Moscovo.

Os investigadores determinaram a localização do sistema terra-ar Buk, de fabrico russo, perto da cidade de Pervomaisk, no território controlado pelos grupos separatistas. O sistema anti-aéreo pertencia a uma brigada do Exército russo sedeada na cidade de Kursk (a cem quilómetros da fronteira ucraniana) e há imagens publicadas por habitantes e declarações de testemunhas que o mostram a ser encaminhado de volta para a Rússia logo no dia a seguir ao desastre do MH17. 

As conclusões são ainda provisórias e o objectivo é que sirvam de suporte em tribunal. Investigações preliminares levadas a cabo pelas autoridades holandesas de aviação já tinham determinado que o avião da Malaysia Airlines tinha sido abatido por um Buk disparado a partir do território separatista, mas desconhecia-se a origem do sistema anti-aéreo. "A nossa investigação mostrou que o local a partir do qual o míssil foi disparado estava nas mãos dos rebeldes", confirmou Wilbert Paulissen, um dos membros da equipa de investigação, durante a conferência de imprensa desta quarta-feira na cidade holandesa de Nieuwegein.

As conclusões da equipa de investigadores coincidem com as que foram apresentadas por um grupo de jornalistas freelancer, denominado Bellingcat, há mais de um ano. Na altura, este consórcio tinha reconstituído, a partir de vídeos publicados nas redes sociais, a rota de uma frota militar russa que escoltou o sistema Buk até à fronteira da Ucrânia, proveniente da 53.ª brigada sedeada em Kursk.

Os investigadores divulgaram conversas entre militares russos em que é abordado o envio de um Buk para apoiar os rebeldes pró-Moscovo. Existem "pelo menos cem pessoas" que podem estar implicadas na queda do avião, dizem os investigadores, mas que não são formalmente suspeitas. Este número inclui não apenas a equipa que terá operado o sistema anti-aéreo, mas também os responsáveis pelo seu fornecimento e transporte, embora ninguém ainda tenha sido formalmente identificado. A generalidade dos especialistas concorda que um sistema de mísseis como o Buk necessita de pelo menos três pessoas com algum conhecimento específico para o operar.

Os procuradores holandeses apelaram a todas as testemunhas que cooperem com as autoridades ucranianas, para que a identidade dos responsáveis seja apurada. Porém, a equipa de investigadores – que junta responsáveis holandeses, ucranianos, malaios, belgas e australianos – recusou comentar o possível envolvimento russo no fornecimento do sistema de mísseis e quais as suas implicações.

Famílias querem justiça

O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia declarou que os resultados da investigação são um "marco importante" e apontam para o "envolvimento directo" da Rússia no abate do avião. "Isto põe um fim a todas as tentativas da Rússia para desacreditar as actividades e conclusões da Equipa Conjunta de Investigação ao disseminarem informações distorcidas ou fabricadas." O Governo russo criticou o relatório dos investigadores que diz ser "tendencioso" e "politicamente motivado".

O voo MH17 da Malaysia Airlines tinha partido a 17 de Julho de 2014 de Amesterdão e tinha como destino Kuala Lumpur, mas acabou por se despenhar no leste da Ucrânia depois de ser atingido por um míssil. Todas as 298 pessoas a bordo morreram, incluindo 80 crianças e 15 membros da tripulação. Nessa altura, o conflito entre o Exército ucraniano e as forças separatistas pró-russas passavam por uma das fases mais intensas de combate. Praticamente desde o início do conflito, a Ucrânia e a NATO acusaram a Rússia de apoiar, com armas, dinheiro e militares, as forças separatistas, embora Moscovo sempre o tenha negado.

Os familiares das vítimas – na sua grande maioria de nacionalidade holandesa – foram informados das conclusões da investigação antes da sua divulgação pública. "Como família, estamos impacientes. Queremos saber o que aconteceu, como aconteceu e porquê", dizia à Reuters Silene Fredriksz, que perdeu o filho de 23 anos no desastre. "Queremos que os responsáveis se apresentem perante a justiça", acrescentou.

Os investigadores começaram por descartar os cenários de um acidente ou de uma explosão no interior da aeronave. A possibilidade de ter sido atingido por outro avião – que chegou a ser invocada pela Rússia – foi explorada, mas acabou por ser afastada depois de analisadas as informações obtidas pelos radares.

Ainda antes da divulgação dos resultados das investigações, o Governo russo já rebatia as conclusões. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, garantiu que o míssil não foi disparado a partir do território controlado pelos rebeldes, servindo-se de dados divulgados pelo fabricante do sistema Buk. "As informações em primeira mão dos radares identificaram todos os objectos voadores que poderiam ter sido lançados ou que pudessem estar no ar sobre o território controlado pelos rebeldes naquele momento. A informação é clara (...) não há míssil. Se houve um míssil, então só pode ter sido disparado de outro sítio", afirmou Peskov, citado pela Reuters.

A Almaz-Antey, o fabricante russo do sistema Buk, disse que os dados obtidos pelos radares russos não mostram qualquer objecto no espaço aéreo proveniente dos territórios controlados pelos rebeldes. 

Os procuradores responsáveis pela investigação conjunta internacional dizem, porém, não terem tido acesso às informações dos radares referidas por Moscovo. Os investigadores dizem ter havido cooperação com as autoridades russas, mas afirmam continuarem algumas questões por responder.