Jasper Morrison olhou para a arte rural portuguesa e viu design

O designer britânico visitou o Museu de Etnologia, em Lisboa, e descobriu que tinha ali a raiz do design actual. Com isso fez um livro, lançado esta segunda-feira no Festival de Design de Londres.

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Objecto: um banco em madeira, assento em meia-lua num círculo imperfeito sobre pés em tripeça. Ambiente: a intimidade da lareira numa casa transmontana. Origem: o “deslunar” da roda de um carro de bois. Jasper Morrison pode não conhecer o nordeste de Trás-os-Montes mas foram peças como estas que se fixaram no olhar do designer inglês quando em 2013 subiu a encosta que vai do rio Tejo ao Restelo para visitar Galerias da Vida Rural, uma das duas reservas visitáveis do Museu Nacional de Etnologia (a outra é a Galerias da Amazónia). São cerca de 3000 peças numa organização tipológica que testemunha a diversidade da produção tradicional do país, numa narrativa que segue o calendário agrícola.

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Objecto: um banco em madeira, assento em meia-lua num círculo imperfeito sobre pés em tripeça. Ambiente: a intimidade da lareira numa casa transmontana. Origem: o “deslunar” da roda de um carro de bois. Jasper Morrison pode não conhecer o nordeste de Trás-os-Montes mas foram peças como estas que se fixaram no olhar do designer inglês quando em 2013 subiu a encosta que vai do rio Tejo ao Restelo para visitar Galerias da Vida Rural, uma das duas reservas visitáveis do Museu Nacional de Etnologia (a outra é a Galerias da Amazónia). São cerca de 3000 peças numa organização tipológica que testemunha a diversidade da produção tradicional do país, numa narrativa que segue o calendário agrícola.

Morrison chegou fora de horas para a visita guiada organizada pelo museu. Mesmo assim teve portas abertas, foi conduzido à cave onde estão as reservas, e saiu de novo encosta abaixo para almoçar peixe grelhado acompanhado de vinho verde. Na cabeça começava a germinar The Hard Life, o livro que três anos depois é lançado no Festival de Design de Londres e que chegará ao Museu de Etnologia no final do ano, a par de uma exposição de peças do acervo e um booklet. Em Londres, já esta semana, quem visitar o corner "Jasper Morrison Shop" vai sentar-se num conjunto de bancos que acabou de desenhar para a marca japonesa Muji, enquanto folheia The Hard Life, e vê uma vintena das fotografias que fez das peças do museu (na sua conta no Instagram, @jasper.morrison, o designer tem vindo a divulgar algumas destas fotografias).

“Já visitei muitos museus de Etnologia ou de Arte Popular mas nunca tinha visto uma colecção com esta dimensão e qualidade. Encantou-me. Até me esqueci de perguntar se podia fotografar”, conta ao PÚBLICO numa conversa por e-mail, entre o Japão e Londres, enquanto recorda o início de The Hard Life (edições Lars Müller, uma das mais influentes editoras internacionais de arquitectura e design e que também já produziu outros títulos de Morrison, como A Book of Things ou A World without Words. O livro teve também o apoio da EDP, para quem Morrison está a desenhar o restaurante da nova sede, em Lisboa, ainda sem data de inauguração).

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The Hard Life é apresentado com interrogações como estas: Como é que peças com uma beleza e ingenuidade tais eram produzidas na dureza do quotidiano rural de Portugal? Como é que a aparência destes objectos encontra o equilíbrio perfeito entre a necessidade e a perfeição da forma?

Para o antropólogo Joaquim Pais de Brito, que dirigiu o museu até 2015 e acolheu os primeiros contactos para o projecto, “um olhar que vem de outra disciplina convida. É como um jogo de espelhos. É sempre outro olhar". Paulo Costa, o actual director, reforça: “Esta é uma colecção que mostra a dureza laboral mas são objectos belos, decorados, estéticos”. Para Jasper Morrison, uma colecção como a de Etnologia pode bem funcionar como case-study para profissionais: “Estou absolutamente convicto de que a educação em design só fica completa com muitas horas passadas a olhar para arquivos, a tentar perceber o que fez deste ou daquele objecto, e da sua função, um sucesso”.

Pais de Brito explica que Morrison fez o percurso ao contrário: escolheu para cima de duzentas peças sem saber para que serviam. “E esse é um exercício que quem trabalha num museu nunca faz. Jasper tentou dar todo o destaque ao objecto em si, como se o objecto falasse. Os objectos não falam. Mas envolvem-nos em imagens.” O designer teve total liberdade de escolha. Mesmo desconhecendo a cartografia deste saber rural: o que seriam e para que serviriam arados, barbilhas, foices, assadores (para castanhas ou chouriço), tarros, cochos, espadelas? As fotografias de arquivo, também expostas em Galerias da Vida Rural, ajudam à materialidade do objecto num espaço. “Um museu é um arquivo, guarda coisas. Mas tem outra realidade, que é o acto de as mostrar, e aí um museu aparece como um espaço de transfiguração”, continua Pais de Brito.

Ao longo destes três anos que levaram a feitura de The Hard Life, Morrison ficou a saber como aquele espólio chegou a Etnologia. Pais de Brito, Paulo Costa e outros membros do museu contaram-lhe a “tarefa gigantesca”, nas palavras do actual director, da equipa fundadora - Jorge Dias, Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira, Margot Dias. De como desde os anos 1940 aos 1970 do século passado correram o país num Citroën 2CV, pernoitando pelos campos de Norte a Sul e alimentando-se de latas de sardinha. “Numa recente visita feita por um grupo de estudantes tunisinos, mostrei-lhes o Atlas Etnológico de Portugal, que sintetiza o conhecimento que esta equipa tinha feito no terreno a partir de 1947. Foi um projecto científico único no país”, remata Paulo Costa.

“Foram essas histórias que ajudaram a criar na minha cabeça o mapa da vida rural portuguesa, o quão duro terá sido, e, contudo, o quão belo. Não duvido que tenham depois dado as boas-vindas à modernização, mas estes objectos testemunham a incrível história de um povo que dá o seu melhor com o pouco que tem à mão”, diz Jasper Morrison. As legendas de The Hard Life vivem de uma composição entre os contributos escritos por Joaquim Pais de Brito, o BI científico e museológico de cada objecto, e aquilo que o olhar do designer lhes acrescentou. Aliás, o antropólogo escreve um texto mais longo para o livro e ao PÚBLICO nota que “os objectos existem para lá do conhecimento que permitiu a sua construção numa dada época, e para lá da sociedade que os produziu e os utilizou”. Dito de outro modo: Os objectos não falam mas merecem ser interpretados. É nesse close-up sobre o património que “nos reencontramos com aquilo que já não praticamos mas onde pode estar a raiz do design actual”.

Morrison, que passou meses a fotografar num estúdio montado dentro do museu, resume ao PÚBLICO: “Quando se começa é quase impossível acreditar que vamos conseguir um documento assaz credível e merecedor de publicação em papel. É uma luta para compor tudo, mas depois chega-nos uma sensação de felicidade quando percebemos que documentámos algo verdadeiramente importante." Sobretudo para um designer que passou a maior parte da vida a tentar compreender o que faz, e como se faz, um objecto válido.