Polícia obrigou muçulmana a tirar peças de roupa numa praia de Nice

Siam estava na praia do Passeio dos Ingleses, na cidade onde o burkini está proibido. Além de não usar burkini, nem sequer queria ir à água.

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Edital a proibir o uso de burkini numa praia de Nice JEAN CHRISTOPHE MAGNENET/AFP

Siam estava na praia com a sua família. Descansava deitada na costa quando foi obrigada a despir a túnica que vestia por polícias armados. A mulher de 34 anos foi abordada, na terça-feira, na praia do Passeio dos Ingleses, em Nice, a mais recente cidade francesa a introduzir a proibição do burkini nas praias.

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Siam estava na praia com a sua família. Descansava deitada na costa quando foi obrigada a despir a túnica que vestia por polícias armados. A mulher de 34 anos foi abordada, na terça-feira, na praia do Passeio dos Ingleses, em Nice, a mais recente cidade francesa a introduzir a proibição do burkini nas praias.

A mulher envergava umas leggings, um lenço amarrado na cabeça e uma túnica turquesa de mangas compridas, que retirou sob o olhar das autoridades e daqueles que estavam na praia. Siam não usava, contudo, um burkini, o fato de banho de corpo inteiro com cobertura para a cabeça, usado sobretudo por mulheres muçulmanas e que tem gerado polémica em várias localidades por ter sido decretada a proibição do seu uso.

“Estava com a minha família na praia. Só estava a usar um lenço clássico, não tinha quaisquer intenções de ir à água”, disse Siam ao jornal britânico The Guardian.

A mulher e a família foram vaiadas por alguns dos presentes no local que gritavam “Vai para casa”, ao mesmo tempo que aplaudiam a acção de controlo policial, refere uma testemunha ao Guardian.

A AFP tomou conhecimento da multa passada à mulher pelas autoridades em que se podia ler que as vestes não respeitavam “os bons costumes e o secularismo”.

“Eles querem retirar-lhes a roupa, mas eles mantêm os seus uniformes! Polícia da vergonha!”, contestou Marwan Muhammad, presidente do Colectivo contra a Islamofobia em França (CCIF), à AFP, que considerou que estas medidas são um ataque às liberdades fundamentais, sendo discriminatórias das mulheres muçulmanas.

O presidente da câmara de Nice foi contactado pela agência francesa, mas não prestou declarações sobre este caso, afirmou apenas que já várias mulheres terão sido multadas desde o início da semana. A proibição do burkini em diversas cidades francesas ocorre antes da sua discussão no Conselho de Estado – a mais alta instituição de aconselhamento do Governo na ordem administrativa francesa –, a decorrer esta quinta-feira, em que será abordada a questão da legalidade destas proibições.

A proibição do uso de burkini nas praias, que começou a ter efeitos práticos em Cannes, pelas mãos do presidente da câmara, David Lisnard, estendeu-se a outras localidades no Sul de França. Os autarcas das cidades onde a decisão foi imposta defendem que o traje desrespeita o “secularismo”, um dos princípios fundadores da República Francesa, e apontam questões de segurança para a origem desta probição, devido aos ataques terroristas de que França tem sido alvo (Paris, Nice, Normandia).

Empresário paga multas

A quem desrespeitar a regra será aplicada uma multa, que a partir de agora poderá vir a ser paga por Rachid Nekkaz, um empresário franco-argelino que tem lutado contra a discriminação da religião muçulmana e que se disponibiliza para pagar as coimas de 38 euros das mulheres autuadas.

Não é a primeira vez que o empresário o faz. “Assim que vejo a França a desrespeitar as liberdades fundamentais, vou sempre buscar o meu livro de cheques”, declara Rachid Nekkaz ao The Telegraph.

“Pessoalmente, sou contra o niqab e o burkini. Mas, uma vez que eu não concordo, eu luto até à morte para dar a possibilidade a estas pessoas de expressarem a sua opinião  ou vestirem-se como querem. Isso é liberdade. É tudo uma questão de princípios”, afirmou o empresário de 44 anos, citado pelo The Telegraph.

Já em 2010, em França, aquando da aprovação da lei da burqa – que proíbe qualquer mulher, em qualquer espaço público, de ter a cara coberta –, Rachid Nekkaz doou um milhão de euros para ajudar mulheres muçulmanas a pagarem a coima de 150 euros, caso desrespeitassem a lei. Nessa altura, Nekkaz incentivou diversos protestos contra a imposição da lei da burqa, lançando vídeos na Internet que encorajavam as mulheres a fazerem “desobediência civil”.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, já veio a público, numa entrevista ao jornal francês La Provence, demonstrar o seu apoio aos autarcas, afirmando que o burkini é uma forma de “subjugação das mulheres”. Acrescentou ainda que as praias e os espaços públicos têm de ser isentos de “reivindicações religiosas”, pois “não são compatíveis com os valores da França e da República”.

Burkinis esgotados

burkini foi criado por Aheda Zanetti, australiana de origem libanesa, que fundou a sua própria marca para obedecer à crença islâmica que restringe os trajes das mulheres. Contudo, outras marcas começaram a comercializar e a produzir as suas próprias colecções deste fato de banho – que resulta da fusão de burqa com o biquíni –, como foi o caso da Marks & Spencer (M&S).

 A cadeia de lojas britânica já esgotou a colecção de burkinis para o Verão 2016, lançada em Março. O traje já era vendido em lojas M&S no Dubai e na Líbia antes de ser posto à venda numa loja de Londres e online, factor que provocou a ruptura de stock da peça.

“A Marks & Spencer providencia uma ampla gama de moda de praia aos consumidores. Vendemos esta peça [burkini] já há alguns anos e é bastante popular entre os nossos compradores internacionais”, disse um porta-voz da marca ao jornal Independent.

Enquanto estes acontecimentos tidos como islamofóbicos sucedem em França, na Escócia as medidas vão noutra direcção. O hijab integra agora formalmente o uniforme policial escocês, numa altura em que as forças de segurança encorajam mulheres muçulmanas a juntarem-se ao serviço. Esta peça de vestuário é usada por mulheres muçulmanas e cobre apenas a cabeça e pescoço, deixando a face totalmente a descoberto.

“Como muitos outros empregadores, especialmente no sector público, estamos a trabalhar para assegurar que o nosso serviço é representativo de todas as comunidades que servimos”, afirmou o chefe da polícia, Phil Gormley, ao jornal The Telegraph.

Texto editado por Bárbara Wong