Mulheres saíram à rua contra a lei da burqa

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Kenza Drider, uma das mulheres detidas, na gare de Lyon JEAN-PAUL PELISSIER/REUTERS

A entrada em vigor da polémica legislação francesa foi marcada por duas detenções e nenhuma multa

Frente a Notre-Dame, duas mulheres em niqab, um véuque deixa só à vista os olhos, foram ontem detidas pela polícia. Por se apresentarem assim na rua, quando entrava em vigor a famigerada "lei da burqa"? Nem tanto, segundo a polícia. O problema foi mais terem participado numa "manifestação não-autorizada", que degenerou numa certa confusão, bem no coração da Paris turística.

"Hoje não estava em causa fazer detenções na base do uso do véu. É mesmo por não terem respeitado o dever de declarar a manifestação", garantia o comissário da polícia Alexis Marsan, citado na edição online do jornal Libération.

A manifestação não teria mais do que uma dezena de pessoas, mas pelo menos duas mulheres que usavam o niqab, uma mulher de véu mas com a cara descoberta e o responsável pelo apelo ao protesto, Rachid Nekkaz, foram detidos, dizia a AFP.

Nekkaz é um vendedor de propriedades e lançou um vídeo na Internet a encorajar as mulheres a fazer "desobediência civil", continuando a usar o véu se o desejarem - embora diga que, "a título pessoal", é contra o niqab. Prometeu pagar todas as multas que elas venham a ter de pagar - para isso disse ter posto à venda um terreno que vale dois milhões de euros, relata a AFP.

A nova lei prevê multas de 150 euros para as mulheres que usem burqa (manto que cobre todo o corpo, permitindo a visão através de uma rede junto aos olhos) ou niqab. Não serão mais de 2000 em todo o país.

Mas Kenza Drider, uma das duas mulheres detidas junto a Notre-Dame, contou à AFP que não foi multada. Nem por ter participado numa manifestação ilegal, nem por andar na rua com o rosto tapado. "Passámos três horas e meia à espera que o juiz decidisse. E depois disseram-nos: "Está tudo, bem, podem sair. Portanto não tivemos direito a nenhuma multa nem nada do género", declarou Drider.

"Somos obrigados a descontar as infracções que correspondem ao direito de se manifestar", disse o comissário Marsan, quando instado pelos jornalistas a explicar por que é que estas mulheres não foram multadas - nem enviadas para lições de cidadania, outro ponto estipulado na lei.

Estas cenas devem repetir-se nos próximos dias. "Não impediremos as pessoas de se manifestarem, estamos num Estado de direito, um Estado democrático. Simplesmente, esta manifestação não estava declarada e por isso detivemos estas pessoas."

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