A banda vai bem, obrigado

O milagre de 2005 ainda dura: a banda que mudou o rock alternativo, os Dinousaur Jr,, continua a fazer a música dos seus sonhos de putos.

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Não eram só uma banda: eram uma batalha campal prestes a acontecer. Num concerto aconteceu mesmo. Lou Barlow, o baixista, parecia querer sabotar uma canção e J Mascis, vocalista e guitarrista, não gostou. Ao ataque com a guitarra do segundo, o primeiro defendeu-se com o baixo.

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Não eram só uma banda: eram uma batalha campal prestes a acontecer. Num concerto aconteceu mesmo. Lou Barlow, o baixista, parecia querer sabotar uma canção e J Mascis, vocalista e guitarrista, não gostou. Ao ataque com a guitarra do segundo, o primeiro defendeu-se com o baixo.

Era só o copo a transbordar. Mascis e Barlow mal se falavam, cada um fechado nos seus respectivos casulos de alienação. Murph, o baterista, completava este trio disfuncional. Em 1989, Mascis e Murph disseram a Barlow que a banda acabara. Era mentira – os Dinosaur Jr. prosseguiriam sem ele (e, mais tarde, sem Murph). Nos seus Sebadoh, em entrevistas e na justiça, Barlow tratou de destratar Mascis.

Pode uma história destas acabar bem? Pode. Em 2005, uma luz milagrosa desceu sobre o indie rock: os Dinosaur Jr. reuniam-se com a formação clássica, Mascis, Barlow e Murph. Até 1989, este trio gravou três discos. Desde que ressuscitou, já vai em quatro álbuns, o último dos quais o novo Give a Glimpse of What Yer Not.

“As coisas estão mais pacíficas agora, mas é a mesma coisa”, explica Lou Barlow ao Ípsilon, entre risos. “Somos as mesmas três pessoas. Quando és mais velho e tens uma relação tão longa, aprendes a fazer as coisas sem… É quase como um casamento. Ainda assim, temos o privilégio de não termos tocado juntos durante muitos anos. Por isso, quando voltámos, foi fresco, mas a mesma coisa. Temos um acordo de funcionamento único.”

“Fresco, mas a mesma coisa”. O mesmo se podia dizer sobre o 11.º disco dos Dinosaur Jr., gravado, de novo, no estúdio caseiro de J Mascis, na pequena cidade de Amherst, no estado do Massachusetts, nos Estados Unidos. Está cá tudo: a guitarra de Mascis naquele ponto de rebuçado entre a agressão do punk e a expansão (solos infinitos, fantasias eléctricas à Neil Young); a voz entregue com a negligência, apatia e classe de sempre; e uma secção rítmica que injecta tudo isto de uma estranha euforia que os solos de guitarra exponenciam. Há potenciais clássicos, queira o mundo ser justo (Be a part), “punkalhadas” com cobertura de açúcar que nos anos 90 dariam êxitos na MTV (Tiny) e sabedoria melódica demonstrada sem pieguices (I told everyone).

“Acho que temos uma fórmula”, atira Barlow. Não é defeito, é feitio. “Não penso que haja algo de errado nisso, especialmente, quando se é mais velho, como somos agora”, acrescenta o baixista, acabado de chegar aos cinquentas. “Acho que quando era mais novo pensava: ‘Não às fórmulas! Nunca! Sempre a inovar!’. Isso é óptimo, mas ser dono de uma fórmula e ter a sorte de possuir um som único e identificável é algo que não queres estragar. Queres preservar essa energia e, à falta de melhor palavra, magia. Há uma certa magia, há algo que acontece quando eu, Murph e J tocamos juntos.”

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"Há uma certa magia, há algo que acontece quando eu, Murph e J tocamos juntos”, diz Lou Barlow, o baixista

Missão: tocar alto

A história conta-se com a ajuda dos Sebadoh. Reza a cantiga Gimme indie rock: “Started back in '83/ Started seeing things a differently/ And hardcore wasn't doin' it for me no more/ Started smoking pot/ Thought things sounded better slow”.

Mascis e Barlow fartaram-se da rigidez do punk e do hardcore, que praticavam nos Deep Wound. Começaram a ouvir o rock clássico que o punk quis enterrar. “J Mascis fez o impensável no rock underground – trouxe de volta o solo de guitarra longo”, escreve Michael Azerrad em Our Band Could Be Your Life, livro essencial sobre os primeiros anos do indie rock norte-americano.

Começaram a ouvir metal (os Black Sabbath tornaram-se fetiche para vários filhos do hardcore), mas também o indie de bandas como os True West e os Dream Syndicate. E, claro, Neil Young. Citado no livro de Azerrad, Mascis resume tudo assim: “Fazíamos sexo. Perdes a vontade de fazer coisas agressivas depois de fazer sexo”.

Mais do que outras bandas, o som dos Dinosaur Jr. “desenvolveu-se a partir do volume”, diz Lou Barlow ao Ípsilon. Tocar extremamente alto fê-los assim (programa de Mascis para a banda: fazer “country que põe os ouvidos a sangrar”). Mascis, que fora baterista nos Deep Wound e no início dos Dinosaur Jr., queria a violência da bateria a sair da guitarra. Tocar alto – uma guerra de instrumento contra instrumento – talvez fosse uma extensão dos conflitos (Lou chama-lhe “química”) entre os três músicos.

“Logo no primeiro ensaio, o J tocou extremamente alto. Era a ideia dele: se for para tocar guitarra que se toque muito alto. Eu e Murph tínhamos que tocar os instrumentos com muita força para que nos ouvíssemos. Por isso, a força do que tocávamos juntos foi estabelecida muito cedo. Ele tocava tão alto que nós tínhamos que nos definir contra isso. E também porque o J era um guitarrista muito interessante”, recorda o baixista.

O problema é que poucos os ouviam. Os próprios membros da banda não sabiam como as canções soavam exactamente. Só em estúdio Barlow perceberia plenamente a qualidade das composições de J Mascis. Com poucos fãs, considerados por muitos insuportáveis devido ao ruído que faziam (os Sonic Youth adoravam-nos pela mesma razão e levaram-nos em digressão), tinham dificuldades em arranjar concertos. Uma fé qualquer manteve-os vivos. “Foi fácil para mim porque acreditava nas canções do J, acreditava na música do J”, confessa Lou.

Esta incompreensão generalizada durou até 1987, ano de edição de You’re Living All Over Me, a obra-prima que, lembra Azerrad, juntaria à volta da banda desiludidos do hardcore, gente do indie farta de guitarras fofas, amigos do hard rock e povo do rock experimental, lançando as bases para o rock alternativo dos anos 90 e uns tais de Nirvana.

O sucesso tirou, porém, o sentido de missão que alimentava a banda. As tensões internas ficaram mais expostas. Mascis odiava Barlow, que odiava Mascis. Essa violência latente passava para o palco. “A forma como tocávamos era violenta, muito violenta. Hoje, quando toco, estou a colocar ali toda a energia que consigo, mas, na maioria dos concertos, sinto quase como que alegria, sinto-me mesmo feliz. Quando era mais novo, alegria não era o que estava a sentir [risos].”

Aos 50 anos, Lou Barlow é um homem diferente. “Eu era muito... era muito tenso. E notava-se. Espero não voltar a tocar assim [risos], mas ainda bem que toquei assim quando era mais novo – tornou a música mais interessante, mais feroz. Hoje, toco, em primeiro lugar, pelo amor à música, os meus problemas pessoais não estão mais na música. Gosto mais assim."