Precários, assistentes sociais e call centers juntam-se à manifestação dos estivadores

Manifestação convocada para 16 de Junho recebeu adesão de representantes de empresas de vários sectores, como bancários, assistentes sociais, empresas de call centers ou empresas de handling.

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Daniel Rocha/Arquivo

Os estivadores do Porto de Lisboa conquistaram uma importante vitória, e não se coibiram de a cantar: depois de um conflito de mais de quatro anos, e de um último período de greve às horas extraordinárias de mais de um mês (que levou à completa paralisação do Porto de Lisboa), conseguiram chegar a um acordo em que viram satisfeitas a maior parte das suas reivindicações. Mas entendem que a luta contra a precariedade não pode ficar resumida às docas e, por isso, transformaram a manifestação inicialmente convocada para 16 de Junho em reacção ao despedimento colectivo (entretanto foi cancelado) numa manifestação global contra a precariedade no trabalho. “Precariedade nem para os estivadores nem para ninguém”, apelam.

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Os estivadores do Porto de Lisboa conquistaram uma importante vitória, e não se coibiram de a cantar: depois de um conflito de mais de quatro anos, e de um último período de greve às horas extraordinárias de mais de um mês (que levou à completa paralisação do Porto de Lisboa), conseguiram chegar a um acordo em que viram satisfeitas a maior parte das suas reivindicações. Mas entendem que a luta contra a precariedade não pode ficar resumida às docas e, por isso, transformaram a manifestação inicialmente convocada para 16 de Junho em reacção ao despedimento colectivo (entretanto foi cancelado) numa manifestação global contra a precariedade no trabalho. “Precariedade nem para os estivadores nem para ninguém”, apelam.

A vitória invocada pelos estivadores passa pelo  despedimento colectivo que conseguiram evitar e  também pela garantia da passagem de 23 trabalhadores que tinham um contrato eventual com a Porlis (a empresa de trabalho temporário que se empenharam em desactivar, por fazer concorrência desleal, ou “dumping social”, como referia o presidente do sindicato, António Mariano)  para o quadro da Empresa de Trabalho Portuário, a organização histórica em que os estivadores sempre trabalharam.

A maratona de negociações também lhes permitiu garantir alguma progressão salarial, sobretudo nas categorias remuneratórias mais baixas. Um estivador que inicie a carreira, na base salarial X, terá um ordenado de 850 euros e será obrigatoriamente promovido para a base salarial IX passados quatro anos, passando a receber 1046 euros. Ainda falta passar muitas dessas reivindicações para o novo Contrato Colectivo de trabalho, que vai vigorar por seis anos e terá de estar assinado até ao final da próxima semana.

“A luta dos estivadores é um exemplo para nós”, diz Carlos Ordaz, da comissão de Trabalhadores da empresa de handling Groundforce, num vídeo de apelo à participação da manifestação de 16 de Junho e que foi divulgado pelo sindicato dos Estivadores esta quinta-feira. O vídeo tem duração de cerca de quatro minutos e nele estão coligidos depoimentos de representantes de vários sectores de actividade, como a  banca, os call centers ou até mesmo os assistentes sociais.

Todos falam de exemplos de situações de precariedade nas relações laborais que urge combater. Manuel Afonso, do Sindicato dos Trabalhadores de Call Centers refere que actualmente há 55 mil precários a trabalhar neste sector. Manuel Ordaz diz que na Groundforce também já representam 40% do contingente de trabalhadores. Carla Prino, da Associação de Combate à Precariedade - Precários Inflexíveis, realça a “vitória” conseguida pelos estivadores de Lisboa, para logo lembrar que é preciso “lutar contra as empresas de trabalho temporário, os falsos recibos verdes, os falsos estágios”.

Contactado pelo PÚBLICO, Afonso Carvalho, presidente da Associação Portuguesa das Empresas do Sector Privado de Emprego (ASPEPE) lamentou que se confundam empresas de trabalho portuário com empresas de trabalho temporário, e, sobretudo, que se confunda trabalho temporário com trabalho precário. “Há actividades que estão sujeitas a pressões de sazonalidade”, recordou, acrescentando também a importância que o trabalho temporário pode ter em alturas de crise e de alguma indefinição na economia. “O trabalho temporário em Portugal tem uma penetração de 1,6%, muito semelhante à da média europeia”, remata.

O PÚBLICO tentou contactar o Sindicato dos Estivadores para saber quais as expectativas de adesão à manifestação de 16 de Junho, mas ainda não foi possível.