Dançar para dentro e para trás, e poder seguir em frente

Em Autointitulado, João Santos Martins mergulha no passado da dança – sem revivalismo.

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JOSÉ CARLOS DUARTE

Duas silhuetas masculinas esguias, de camiseta vermelha e azul vivos, sobressaem num cenário neutro de linhas limpas: um palco branco, envolto por ciclorama negro, onde pousam uma tela em esquina e um cabide de pé antigo, em madeira. Escutam-se longínquos acordes de piano (reminiscência, talvez, de um estúdio de dança clássica), misturados com uma cacofonia de vozes humanas, o chilrear indistinto de pássaros, motores de automóveis em andamento, ou o ressoar de música e bombos numa festa de aldeia. A moldura sonora convoca, com veemência, toda uma realidade exterior, paralela às acções dos intérpretes em cena: João dos Santos Martins (Santarém, 1989) e Cyriaque Villemaux (Offenburg, 1988), à vez ou em dupla, executam curtas sequências de dança numa linhagem estética difícil de classificar. A dureza de uma contracção abdominal (entrevemos o icónico Lamentation, de Martha Graham, 1930) pode transformar-se, com uma corrida ou uma gargalhada, em alusão à dança pós-moderna; gestos fugazes de pendor expressionista transitam em variações formalistas cuja relação multifocal com o espaço nos lembra Merce Cunningham; apontamentos de aspereza cubista, a evocar coreografias modernistas, derivam em movimentos fragmentados de hip-hop, em grand allegros baléticos, ou em breves sugestões de danças de folclore. 

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Duas silhuetas masculinas esguias, de camiseta vermelha e azul vivos, sobressaem num cenário neutro de linhas limpas: um palco branco, envolto por ciclorama negro, onde pousam uma tela em esquina e um cabide de pé antigo, em madeira. Escutam-se longínquos acordes de piano (reminiscência, talvez, de um estúdio de dança clássica), misturados com uma cacofonia de vozes humanas, o chilrear indistinto de pássaros, motores de automóveis em andamento, ou o ressoar de música e bombos numa festa de aldeia. A moldura sonora convoca, com veemência, toda uma realidade exterior, paralela às acções dos intérpretes em cena: João dos Santos Martins (Santarém, 1989) e Cyriaque Villemaux (Offenburg, 1988), à vez ou em dupla, executam curtas sequências de dança numa linhagem estética difícil de classificar. A dureza de uma contracção abdominal (entrevemos o icónico Lamentation, de Martha Graham, 1930) pode transformar-se, com uma corrida ou uma gargalhada, em alusão à dança pós-moderna; gestos fugazes de pendor expressionista transitam em variações formalistas cuja relação multifocal com o espaço nos lembra Merce Cunningham; apontamentos de aspereza cubista, a evocar coreografias modernistas, derivam em movimentos fragmentados de hip-hop, em grand allegros baléticos, ou em breves sugestões de danças de folclore. 

Por vezes os corpos dos intérpretes fundem-se, como sombras chinesas, com fotografias e filmes projectados sobre a tela: um teleférico que passa, multidões e hordas de turistas urbanos, recantos de jardins e cavalos, um trilho no campo, um estúdio de dança decadente e vazio, a grua de um prédio em construção; ou com imagens mais intimistas (famílias num aquaparque, uma mulher a cozinhar polvo). Um zoom sobre um retrato desbotado de Nureyev, ou sobre corpos de baile, faz presente o imaginário de uma certa herança do património coreográfico.

Soluções sonoplásticas, visuais (num curioso registo artesanal) e de movimento formam um trígono sólido. Contudo, se as projecções orientam contextos e leituras, nem sempre produzem conexões dramatúrgicas, competindo, a passos, para alguma dispersão perceptiva.

Autointitulado é uma viagem ao universo da dança, a transbordar do território teatral e a expandir-se às práticas sociais e ao quotidiano. Em Projecto Continuado (Prémio Autores da SPA para a melhor coreografia de 2015), João Santos Martins explorou imagens de arquivo emblemáticas da dança do século XX como mote para uma reflexão sobre os nexos genealógicos entre a dança de ontem e a de hoje. Esta peça é, com mérito, um passo em diante nesse trilho temático: desloca o foco, amplia-o e, sobretudo, depura-o. O gatilho é constituído, agora, por resíduos da própria experiência somática dos intérpretes, ecos pessoais de práticas de estúdio em distintas técnicas e concepções da dança; Autointitulado quis corporizar esse legado, interpelá-lo e reformulá-lo no plano das vivências individuais e sociais. 

Guardamos, no final, a impressão de um mergulho conjunto numa imensa memória de afectos sobre os bastidores da dança; e de um encantamento respeitoso para com a trajectória histórica. Mas a faísca nostálgica não é revivalista: Autointitulado revisita o passado para questionar o presente. É, nesse sentido, uma indagação do futuro, do posicionamento das artes perante a ideia hegemónica de um progresso sem rumo, e do subsequente retrocesso civilizacional dos tempos que correm.