Apostadores que corrompem jogadores arriscam só três anos de prisão

Os 15 suspeitos detidos na Operação Jogo Duplo foram identificados esta segunda-feira pela juíza de instrução e só deverão começar a ser ouvidos amanhã.

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Presidente do Leixões e director desportivo do clube foram detidos pela PJ no sábado FERNANDO VELUDO/NFACTOS

Os mais de dez jogadores suspeitos de corrupção detidos no âmbito da Operação Jogo Duplo arriscam uma pena de prisão que varia entre um e cinco anos, enquanto os apostadores que os corromperam só podem ser punidos no máximo com três anos de prisão. Esta moldura penal condicionará as medidas de coacção que serão aplicadas neste caso, excluindo a aplicação da prisão preventiva para grande parte dos suspeitos.

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Os mais de dez jogadores suspeitos de corrupção detidos no âmbito da Operação Jogo Duplo arriscam uma pena de prisão que varia entre um e cinco anos, enquanto os apostadores que os corromperam só podem ser punidos no máximo com três anos de prisão. Esta moldura penal condicionará as medidas de coacção que serão aplicadas neste caso, excluindo a aplicação da prisão preventiva para grande parte dos suspeitos.

Os 15 detidos por suspeita de manipulação de resultados de jogos da II Liga apenas foram identificados esta segunda-feira por uma juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa e só devem começar a ser ouvidos esta terça. O processo, que está a ser investigado há apenas um mês, encontrou indícios de duas situações distintas. Apostadores asiáticos que para se certificarem que iriam ganhar as apostas corrompiam vários jogadores (através de intermediários) para estes interferirem no resultado da sua equipa num determinado jogo. E no decurso desta investigação detectou uma outra situação igualmente relacionada com a viciação de resultados: dirigentes desportivos do Leixões que terão corrompido jogadores da equipa adversária, para, no último jogo do campeonato, realizado na passado sábado, garantirem a vitória que os impediria de descer de divisão.

Esta investigação nasceu com uma denúncia muito concreta de uma pessoa e não da Federação Portuguesa de Futebol, que apresentou outras participações mais genéricas que ainda estão em investigação.

A juíza deu duas horas, ao início da manhã de terça-feira, para os advogados de defesa consultarem o processo e os interrogatórios só deverão arrancar depois, disseram vários advogados aos jornalistas.

Na operação foram detidos quatro jogadores do Oriental e outros quatro da Oliveirense, que receberiam entre três mil e 15 mil euros para viciar os jogos. O montante variava em função da avaliação que o corruptor fazia da capacidade do jogador influenciar o resultado. Foram também detidos cinco pessoas que funcionavam como intermediários entre os apostadores e os jogadores, dois deles ex-jogadores do clube de Oliveira de Azeméis, um antigo desportista do Beira-Mar e um membros da claque do FC Porto Superdragões. O presidente do Leixões, Carlos Oliveira, e o director desportivo também foram detidos. A Polícia Judiciária está agora no encalço dos apostadores asiáticos que alimentariam a viciação de resultados.

Curioso é que tanto o Oriental como Oliveirense faziam parte da lista de clubes que integram oito jogos da II Liga suspeitos de terem resultados viciados divulgada há uns meses pelo Federbet, um organismo sedeado em Bruxelas e que monitoriza as apostas online. Nesse relatório relativo a 2015, a entidade estima que cada jogo da II Liga movimenta 10 milhões de euros em apostas, dois milhões dos quais usados na manipulação. Na I Liga portuguesa, a Federbet estima que sejam investidos 30 milhões de euros em apostas por cada jogo, 10% destes usados para viciar os resultados. 

O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF) lamentou esta segunda-feira em comunicado que se desvalorize o fenómeno dos resultados combinados, que diz ser potenciada por um mercado de apostas ilegais “cada vez mais organizado e ardiloso”. “Se as dificuldades financeiras dos jogadores e dos clubes propiciam o aliciamento por parte de organizações criminosas, a falta de regulamentação eficaz e de escrutínio da idoneidade dos investidores no futebol português compromete, em definitivo, os valores do desporto, entre os quais a verdade desportiva, traduzida na verdade dos resultados obtidos em campo”, lê-se na nota,

O sindicato defende ser urgente encontrar soluções para este problema e avançou que até ao fim deste mês irá apresentar um projecto de combate aos resultados combinados. “Jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, clubes, em particular, Sindicato, Liga, Federação e Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto têm de fazer mais. Podem fazer mais, sob pena de serem cúmplices por omissão num fenómeno global”, sublinha.            

O Leixões reagiu esta segunda-feira à detenção de dois dos seus dirigentes. Num comunicado assinado pelo presidente da Assembleia Geral do Leixões, Manuel Tavares, este diz não ter dúvidas que o resultado conquistado “dentro do campo foi justo e merecido”, referindo-se ao jogo de sábado passado contra o Oliveirense, ganho pelo clube de Matosinhos por 2-1. “O momento tem de ser de serenidade, a família leixonense já passou por muitas tormentas e sempre soube levar ‘a nau a bom porto’", lê-se na nota.           

Além da parte criminal, jogadores, dirigentes e clubes arriscam ainda penas disciplinares aplicadas pela Liga. O Leixões pode vir a ser obrigado a pagar uma multa até 102 mil euros. Já o Oliveirense e o Oriental, se se provar que estiveram envolvidos na viciação de apostas desportivas, podem ser excluídos das competições profissionais de futebol.

Os jogadores e os dirigentes desportivos também arriscam sanções. Os dirigentes desportivos podem ser condenados a pagar uma multa entre 2550 e os 25.500 euros e uma sanção acessória entre dois e dez anos de afastamento das actividades desportivas. Os jogadores poderão ser afastados do futebol entre dois e seis anos e poderão ser obrigados a desembolsar até 12.750 euros numa multa.