Marisa inscreveu-se para dar sangue às vítimas, Fernandes levara o filho de 11 anos para Bruxelas

Como alguns eurodeputados portugueses viveram os atentados na capital da Bélgica

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Parlamento europeu em Bruxelas REUTERS/Thierry Roge

João Ferreira chegou ao Parlamento Europeu antes das 8h. Ana Gomes estava a conduzir e reparou nas ruas vazias. Marisa Matias estava a sair de casa.
Quando as primeiras notícias chegaram – explosão no aeroporto de Zaventem, que serve a capital belga –, a rotina de todos os bruxelenses mudou. E a dos eurodeputados portugueses também. “Viajei ontem [segunda-feira] do Porto para Bruxelas, com o meu filho Miguel de 11 anos, para uma semana que seria mais curta e mais calma. Estivemos ontem no Parlamento. Hoje [terça-feira], depois de saber a notícia do atentado do aeroporto, resolvi esperar em casa (resido a cerca de 150m do Parlamento). Entrei no Parlamento às 16h acompanhado do meu filho. As reuniões de hoje e amanhã foram todas canceladas”, conta José Manuel Fernandes, do PSD.

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João Ferreira chegou ao Parlamento Europeu antes das 8h. Ana Gomes estava a conduzir e reparou nas ruas vazias. Marisa Matias estava a sair de casa.
Quando as primeiras notícias chegaram – explosão no aeroporto de Zaventem, que serve a capital belga –, a rotina de todos os bruxelenses mudou. E a dos eurodeputados portugueses também. “Viajei ontem [segunda-feira] do Porto para Bruxelas, com o meu filho Miguel de 11 anos, para uma semana que seria mais curta e mais calma. Estivemos ontem no Parlamento. Hoje [terça-feira], depois de saber a notícia do atentado do aeroporto, resolvi esperar em casa (resido a cerca de 150m do Parlamento). Entrei no Parlamento às 16h acompanhado do meu filho. As reuniões de hoje e amanhã foram todas canceladas”, conta José Manuel Fernandes, do PSD.

O eurodeputado comunista tinha planeado o seu regresso a Lisboa para a noite de terça-feira. Voo cancelado. A socialista iria apresentar um livro, à tarde, em Bruxelas. Cancelado. A bloquista tinha avião confirmado para Roma, à tarde. Cancelado.

O que nenhum deles sequer imaginava é que a primeira notícia teria actualização. E a gravidade do atentado aumentaria, com novos rebentamentos, um deles a dois passos da sede das instituições europeias (Comissão e Conselho) na estação de metro de Maelbeek, na Rue de la Loi.

Ana Gomes conseguiu chegar ao Parlamento Europeu (que não fica na zona atingida). “Ouvi no carro a notícia do atentado no aeroporto. Havia muito pouco trânsito. Cheguei ao Parlamento e estávamos no meio das votações quando surgiram as notícias dos outros atentados. Ainda ponderámos suspender a reunião, mas decidimos continuar. Continuei a trabalhar toda a manhã – até porque havia duas audições importantes. A do grande mufti do Egipto e a do ministro dos Negócios Estrangeiros da Palestina.”

Ainda que nesta altura ninguém tivesse reivindicado os atentados, tudo apontava para que estivessem relacionados com a prisão, há quatro dias, em Bruxelas, de Salah Abdeslam, o alegado terrorista sobrevivente dos atentados de Paris. Por isso, quer o mufti, quer o diplomata começaram as suas intervenções no Parlamento Europeu por criticar duramente, em nome do islão, estes atentados. O mufti, que é uma autoridade religiosa, que entre outras funções tem a seu cargo a interpretação “oficial” da “lei islâmica”, considerou estes atentados uma “perversão anti-islão”, revela Ana Gomes.

João Ferreira estava numa reunião sobre pescas. Quando conseguiu sair, numa viatura do Parlamento, que o transportou para Paris, onde tentaria apanhar um avião par Portugal, reparou também que as ruas estavam “completamente vazias”. “As pessoas acataram as indicações para ficarem em casa”, conta.

Marisa Matias foi uma das pessoas que acabaram por não sair, dadas as “restrições de movimentos”. “Soube dos atentados quando estava a sair de casa. Deviam ser umas 8h da manhã. Tinha uma reunião, mas telefonaram a dizer-me que havia um atentado no aeroporto. Às 11h teria uma reunião de coordenadores da comissão Econ [Economia], mas recebi a informação de que todas as reuniões públicas tinham sido canceladas.”

As regras de segurança foram imediatamente reforçadas, como conta Carlos Coelho, do PSD, que começou a aperceber-se da dimensão dos atentados quando estava no Parlamento. “No gabinete apercebi-me, ao conversar com alguns colaboradores, que as regras de segurança tinham sido reforçadas para os funcionários e uma hora mais tarde receberia por email a informação dos serviços de segurança que indicava que o presidente do Parlamento Europeu havia determinado a anulação de todos os eventos programados e a interdição de entrada nas instalações do Parlamento de todos os que não sejam deputados ou funcionários acreditados. Os veículos autorizados a entrar nas instalações do Parlamento (incluindo as viaturas oficiais) são submetidos a um controlo reforçado de segurança (objectos estranhos e revista da base do carro por baixo do chassi). Canceladas as conferências onde deveria participar, respondi a emails sobretudo para tranquilizar amigos e familiares que não conseguiam contacto telefónico e recorreram ou ao email ou a mensagens nas redes sociais.”

Marisa Matias escreveu uma curta mensagem no Facebook, tranquilizando os amigos. E inscreveu-se como dadora de sangue. “Sou O negativo e houve um apelo para os doadores de sangue raro”, conta.

Bruxelas tem vivido, há semanas, em alerta elevado. Militares à porta do Parlamento, rusgas da polícia. Mas “é sempre com surpresa e espanto que se assiste a um acontecimento destes”, lamenta João Ferreira. “O nível de alerta supõe que estão ser tomadas medidas para evitar uma coisa destas.”

Ana Gomes e Marisa Matias põem em causa a forma como a União Europeia tem lidado com a ameaça terrorista. “As instituições europeias têm entendido que isto se resolve melhor confundindo terrorismo com emigração e aumentando a resposta securitária que, como se vê, não resulta. Não resultou em Paris e não resulta agora”, lamenta a eurodeputada do BE. Já a socialista defende uma nova forma de actuar: “A Europa tem de pôr a mão na consciência. Desde logo, tem de rever a sua política de venda de armas a regimes que fomentam o terrorismo, como a Arábia Saudita, e tem de repensar as actuais políticas de refugiados, que são contra os valores europeus. Sem esquecer a política económica que produz desemprego e gera radicalidade.”

José Manuel Fernandes e Carlos Coelho apontam uma falha na cooperação dos serviços de informações. “Sente-se a tristeza nos rostos e olhares desconfiados. Este é mais um ataque aos nossos valores, à democracia, à liberdade e tolerância. Os efeitos são os previsíveis: mais medo, nacionalismo e radicalismo. Há que agir preventivamente, actuar com firmeza e de forma coordenada. É inaceitável que os serviços secretos e as polícias dos Estados-membros não partilhem toda a informação relevante", critica Fernandes. Coelho acrescenta: “Não posso deixar de reclamar mais Europa. A luta contra o terrorismo obriga-nos a colaborar ao nível mundial e ao nível europeu. Sabemos que os atentados de Paris poderiam ter conduzido a outra história, se tivesse havido maior colaboração entre os serviços secretos da França e da Bélgica. Se cada Estado quer guardar os seus pequenos segredos, não contribui para reforçar a eficácia deste combate. Solidariedade e confiança mútua ao nível europeu nas áreas que são competência nacional é algo que cada vez mais se revela essencial."

Sobretudo quando, adianta Ana Gomes, se conhece a dimensão da “rede organizada” de terroristas. “Quando Salah Abdeslam foi preso, intuí que podia haver qualquer coisa. Há uma rede organizada aqui e a possibilidade de ele falar desencadeou provavelmente a acção de outros que apressaram os planos que tinham, temendo vir a ser descobertos pela polícia.”