Salão de Mobiliário e Iluminação de Estocolmo

O design social e o social do design

Todos os anos, durante a segunda semana de Fevereiro, Estocolmo transforma-se numa janela aberta para o que de melhor se faz no design escandinavo. Há um regresso à Natureza “porque o design não se esconde debaixo do verniz”.
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“Há um problema que temos de enfrentar: não podemos continuar a deitar comida fora. As pessoas dizem que precisamos de uma nova Terra porque somos uma população em crescimento. Não é bem assim. O que precisamos é de distribuir melhor o que andamos a comer. E evitar o desperdício.” Parece estranho que na véspera da inauguração do Salão de Mobiliário e Iluminação de Estocolmo o escanção Jens Dolk esteja no showroom de uma conhecida marca sueca de mobiliário para nos alertar sobre sustentabilidade – e nem uma gota sobre vinhos!

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Percebemos o alcance da mensagem ecológica quando chegamos aos 70 mil metros quadrados de um edifício em Älvsjö, a sul do centro de Estocolmo, onde durante uma semana se vão concentrar 80% dos arquitectos e designers escandinavos.

Esta gigante montra para a excelência do design nórdico existe desde 1951 e este ano teve como tema central das Tendências 2016/2017 “Nature is back for good” (a Natureza veio para ficar).

Nos corredores da Greenhouse, a ala onde se reúnem jovens designers saídos das faculdades de Design e Artes e designers independentes – green serve para recém-chegado e para verde de paisagem — ouve-se David Bowie em modo repeat, entra-se com Heroes, sai-se com Changes. Ficamos rodeados de jardins suspensos pensados para ambiente doméstico, vêem-se mesas que ao centro encaixam floreiras, candeeiros pendentes com depósito para água e húmus. Como se nos quisessem dizer que o planeta grita por mais oxigénio e menos pegada de carbono e que o despertar para a sustentabilidade deve começar no berço. Nas peças que estes jovens designers mostram e nas conversas que entabulam entre si e com os visitantes perpassa o mesmo tópico: “Para onde caminhamos?”, “Estamos a consumir em excesso?”, “É reciclável?”.

Os factos vêm a seguir, do Instituto de Estatística sueco: apenas 3% do país é habitado — o que significa que há muita biodiversidade para proteger; só na cidade de Estocolmo há 993 quilos de desperdícios alimentares transformados mensalmente em 115 mil m3 de combustível; estudos demonstram que ter plantas em casa ou em ambiente de trabalho aumenta em 11% o nível de produtividade.

No lado oposto à Greenhouse, a designer Emma Olbers distribuiu em cima de um tampo de mesa de carvalho polido boiões altos de vidro que podiam estar nas vitrines de um museu de Ciência. Cada um deles tem um cartão reciclado preso ao gargalo por um fino cordel onde se lê o material — alumínio, lã, pedaços de latão, cabedal — e o seu potencial de reciclagem. A composição aproxima-se da instalação de arte — ao lado, há uma árvore despida dependurada e nas paredes do corner que a designer sueca ocupa estão pequenos textos emoldurados com reflexões da recente Cimeira do Clima de Paris.

Giulio Ridolfo, consultor de têxteis para várias marcas de design, tem um manifesto que a revista  DAMn cita e que encaixa neste discurso: “O conceito de luxo tem vindo a transformar-se em tomada de consciência: queremos saber como alcançar valores mais dignos de sustentabilidade, ponderar como as peças sobrevivem no tempo, conhecer-lhes o processo de fabrico… É daí que podemos tirar o sentido do design.”

E falar em design na Suécia, que o Fórum Económico Mundial coloca em 6.º entre 10 países europeus com maior índice de crescimento (antes da Eslováquia e depois da Polónia), é falar de estratégia política em saber manter a Associação de Design e Artesanato, criada em 1845 e a mais antiga no mundo, na promoção do melhor que o país tem para oferecer nesta arena. É como se pudéssemos assumir que o design é o espelho de um paradigma social. Outro exemplo deste compromisso é a ligação entre indústria e escolas de Arte e Design: a Greenhouse albergou estudantes de 35 escolas; marcas conhecidas de mobiliário, como a Lammhults, promovem concursos para jovens designers desenvolverem os seus protótipos, apostando numa futura colaboração.

A simplicidade nas formas, a preferência pelos tons pastel, os materiais ditos “da terra” e uma relação umbilical entre design e função são identitários do design escandinavo — e exportados num estilo tido como minimalista. A imprensa da especialidade tem vindo a focar-se no regresso desta linha à decoração de interiores — depois da invasão de cores dos anos 1980 e 90 —, e os colecionadores não perdem os leilões de antiguidades em busca de um retro de Alvar Aalto ou Arne Jacobsen.

Stefan Nilsson, trendsetter e blogger sueco, confirma ao PÚBLICO que o design escandinavo está para durar. Enumera as suas razões: “Trabalhamos com a madeira, o aço, o vidro. São matérias-primas naturais. Os italianos, por exemplo, usam muito mais o plástico. Se calhar, podemos dizer que temos um design ‘honesto’, não escondemos a matéria debaixo do verniz.”

Estamos num ambiente onde vários indícios nos comunicam que seria uma heresia mencionar a palavra “Ikea” — ainda que muitos lares do mundo ocidental tenham a agradecer pela democratização do requinte escandinavo, sobretudo depois da primeira colecção P.S., de Post Scriptum, de 1995, e de ser este o “império” a patrocinar a Greenhouse.

 Flashes de uma feira

Quem chegava ao foyer da feira de Estocolmo, tinha pela frente um céu de Hotaru, lanternas japonesas que parecem de papel mas são em casca de amoreira com fibra de bambu e emitem uma luz esbranquiçada. Foram desenhadas, como todo o espaço da recepção, pelos arquitectos e designers Barber & Osgerby, a dupla britânica que assinou a tocha cónica dos Jogos Olímpicos de 2012.

Para receber os 40 mil visitantes vindos de mais de 65 países, Barber & Osgerby reinventaram a luz, conceptualizando o longo Inverno nórdico. Entre as Hotaru que pendiam do tecto, o chão em madeira clara que reflectia a iluminação e os gigantes painéis em feltro branco, a feira ofuscava.

Curiosamente, ao usar os painéis em feltro para distinguir as três áreas do foyer — duas de descanso e uma de trabalho com uma grande mesa comum onde se viam portáteis abertos —, a dupla de arquitectos dava o mote para outra das tendências da actualidade. Os designers estão cansados do ruído, tanto quanto preocupados com a sustentabilidade, matriz de todo um discurso de vivência social. Muitos dos 700 stands apresentam propostas para delimitar espaços e conter a acústica, seja para uso dentro de casa ou para mobiliário de exterior. Espaldares e orelhas de cadeirão crescem em altura, biombos modulares em tecido ou lã, como os do japonês Jin Kuramoto (para a Offecct), impõem-se. O mundo pode ser globalizado e a informação aterrar a todo o minuto nos nossos emails e smartphones. Reconhecemos que as redes sociais trouxeram anonimato às relações humanas. Trabalhamos cada vez mais em ambiente open space. A todo este avanço, o design nórdico responde com a urgência de marcar território entre esfera pública e privada.

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Nesta feira que ocupa quase o dobro do espaço expositivo da FIL, a madeira foi jóia da coroa, como seria de esperar. Em tons pálidos — como também seria de esperar em povos que precisam de trazer para dentro de casa a luz que metade do ano não lhes chega de fora — ou conjugada com alumínio, mármore, lã.

Revisitaram-se clássicos reinterpretados para a actualidade — as cadeiras lounge desenhadas por Panton em 1973, na Verpan; a linha criada em 1946 por Illmari Tapiovaara, na Artek; Jasper Morrison, na Offecct; os candeeiros Fluid, do trio Claesson Koivisto Rune, na Muuto; a poltrona Wingback, arquétipo do cadeirão inglês do século XVII, por Tom Dixon.

Descobriram-se novas parcerias — os irmãos Bouroullec com a colecção Kaari para a Artek.

Revelaram-se novidades — o candeeiro w164 Alto, desenhado por Dirk Winkel para a Wästberg, foi um dos premiados este ano.

Design, para que serves?

A oito quilómetros para oeste, e a cerca de 20 do centro de Estocolmo, também se fala de design mas num cenário bastante diferente.

Em Skärholmen, vivem perto de 35.500 pessoas, 67% das quais chegadas do Iraque, da Somália, do Irão, da Turquia, da Síria, do Afeganistão.

Na sala de uma antiga escola, o designer Samir Alj Fält, filho de mãe finlandesa e pai marroquino, faz-nos sentar em toscos bancos de madeira, alguns com tampos pintados em cores garridas, outros forrados a lã. Samir tem um projecto para os 12,3% desta população que têm entre seis e 15 anos: quer pô-los a pensar, e a fazer, design. Talvez um dia possam chegar a jurados dos prémios nacionais para jovens designers, como ele. 

Samir veste-se de uma só cor: camisolão de lã preta em cima de calças pretas, ténis-bota de pele preta nos pés. Esbraceja, aponta para uma mesa de trabalho com frascos de tinta néon em verde, amarelo, rosa e uma pistola de cola quente, materiais que usa ali no Design Lab S. Por detrás da mesa há uma fileira de prateleiras com projectos à espera de um fim, numa das prateleiras vêem-se as máscaras que anda a fazer para os cenários de uma peça de teatro. Este laboratório-atelier funciona duas vezes por semana, começou em 2013. No primeiro dia, montaram um placard na praça central do município de Skärholmen a anunciar a abertura das inscrições para o Design Lab S. Apareceu uma criança. Agora são 40 e Samir trata-os como “os meus colegas de profissão”.

Chooki, o menino que chegou há nove meses do Afeganistão com a família, é um deles. Não há design sem função e talvez Chooki, nove anos, seja a prova de como a simbiose acontece. Durante meses, em cada sábado, Chooki levava na cabeça o que queria fazer com as mãos: uma cadeira, uma secretária, um candeeiro, um espelho, uma mala para a escola. Era tudo o que precisava, e nem sequer falava a língua — “comunicávamos pelo gesto”, lembra Samir.

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Para miúdos como Chooki, matéria-prima é sinónimo de “criar uma identidade” no novo país que os acolhe, explica o designer. E ele quer dar-lhes matérias com as quais possam continuar a trabalhar mesmo quando não estão no atelier. Por isso, Samir recolhe material da rua, literalmente. Caixas de madeira que já tiveram fruta e legumes, que apanha nos supermercados da zona. Desperdícios de tecidos das lojas locais. Ramos da floresta. “Acreditamos na reutilização dos materiais. O design é uma disciplina que deve ser exercida pelo colectivo. E sustentável”, diz com um tímido sorriso.

A ideia-mãe por detrás do Design Lab S é simples — por cá chamar-lhe-íamos um atelier de trabalhos manuais em horário pós-escolar. Samir pode ser um idealista mas acredita veementemente na “exploração de novas estéticas”. Lança perguntas para o ar quase ao mesmo ritmo em que tenta dar-lhes resposta: o que acontece quando se trabalha em colectivo? Será que nos permitimos errar e então perceber como determinadas ferramentas podem ser usadas de outras maneiras?

Vai buscar a sua infância para dizer que se sente “sentimentalmente” próximo destas crianças: também ele passava dias a vagabundear pela floresta que rodeia Skärholmen, a construir casas com galhos em vez de peças de Lego. “Os objectos são espelho de nós próprios. Talvez no futuro, em vez de comprarmos peças que pensamos ter a nossa identidade, as possamos construir.”

Samir trabalha com Alicia Donat, que gere as actividades no Design Lab S, e ambos chamam muitas vezes outros designers para orientarem workshops. “Não queremos ensinar nada. Na verdade, são eles que nos ensinam a nós”, esclarece. Aproveita para nos dar conta daquilo de que se orgulha: estes miúdos, que raramente foram ao centro de Estocolmo, estão a poucos dias de se mostrarem na Kulturhuset, um espaço cultural bem no meio do central bairro de Norrmalm (Estocolmo é um arquipélago com 30 mil ilhas). A exposição está integrada na Semana do Design, que espalha pela capital da Suécia dezenas de eventos-satélite que decorrem em paralelo com o Salão de Mobiliário.

O que trazem à cidade as crianças de Skärholmen? Uma máquina que construíram com canas, garrafas de água e um balde e que sacia a sede durante os eventos desportivos no município; uma outra máquina que, à força de pedalar, deixa uma assinatura num desenho feito pelos próprios e que serve de poster à exposição; um foguetão em pasta de papel para voltarem às suas casas, nos países que deixaram para trás. “Estes objectos foram sendo construídos aos pedaços. Às tantas, em relação à máquina que assina os desenhos, os miúdos perguntaram-me: ‘Mas isto é uma peça de arte?! Afinal para que serve?’ E com pedaços de madeira construíram uma cadeira, acrescentaram-lhe uns pedais antigos de bicicleta, prenderam tudo com fios e arame e num movimento de rotação há uma caneta que acaba a desenhar a assinatura numa folha”, conclui Samir.

Dois dias antes, Jens Dolk, o escanção do K-Märkt, já tinha deixado claro que os pais deveriam ensinar os filhos a cheirar a comida em vez de a deitar para o lixo só porque terminou o prazo de validade. No final, tudo serve para alguma coisa. Os miúdos de Skärholmem já sabem como aproveitar desperdícios.

O PÚBLICO viajou a convite da Embaixada da Suécia