Laurent Cantet demasiado fora da sua água

Nada indica, apesar da decepção de Foxfire, que Cantet se tenha tornado um mau cineasta. Aqui parece sobretudo um peixe demasiado fora da sua água.

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Foxfire – Raposas de Fogo: esquemático

Estranha sequência para a obra de Laurent Cantet, até agora mergulhada num contexto francês, em certas ocasiões (como em A Turma, o seu filme anterior, sobre um liceu “multicultural”) definido mesmo com extraordinária precisão sociológica. Mas em Foxfire Cantet viaja no espaço e no tempo e encontra-se, de súbito, na América dos anos 50, a adaptar um romance de Joyce Carol Oates (que já dera um filme nos anos 90, que não estreou por cá e do qual as crónicas não rezam nada de muito positivo). O que Cantet “transporta”, se pensarmos sobretudo em A Turma, é justamente a juventude, o universo que (ainda) tem a sala de aula como lugar obrigatoriamente central, de resto o lugar que espevita a revolta das raparigas protagonistas e a sua série de pequenas/grandes vinganças contra a “opressão masculina” representada pelos professores, pelos pais, pelos homens em geral. Foxfire não é mau, mas perante ele não deixamos de ter uma certa pena que Cantet não tenha escolhido “trazer” o romance de Oates para o seu território (a França contemporânea) em vez de ir ele ao território do romance. 

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Estranha sequência para a obra de Laurent Cantet, até agora mergulhada num contexto francês, em certas ocasiões (como em A Turma, o seu filme anterior, sobre um liceu “multicultural”) definido mesmo com extraordinária precisão sociológica. Mas em Foxfire Cantet viaja no espaço e no tempo e encontra-se, de súbito, na América dos anos 50, a adaptar um romance de Joyce Carol Oates (que já dera um filme nos anos 90, que não estreou por cá e do qual as crónicas não rezam nada de muito positivo). O que Cantet “transporta”, se pensarmos sobretudo em A Turma, é justamente a juventude, o universo que (ainda) tem a sala de aula como lugar obrigatoriamente central, de resto o lugar que espevita a revolta das raparigas protagonistas e a sua série de pequenas/grandes vinganças contra a “opressão masculina” representada pelos professores, pelos pais, pelos homens em geral. Foxfire não é mau, mas perante ele não deixamos de ter uma certa pena que Cantet não tenha escolhido “trazer” o romance de Oates para o seu território (a França contemporânea) em vez de ir ele ao território do romance. 

Se há alguma energia não despicienda no ensemble, no grupo das “raposas de fogo” (todas actrizes não profissionais, ao que podemos saber), e se Cantet mostra que continua exímio na direcção dessas cenas de conjunto que parecem que vão rebentar por todos os lados, a força do filme atenua-se pelo seu excesso de agenda ilustrativa, ou pela sua incapacidade de a integrar de forma verdadeiramente orgânica. Há a “ilustração” da reconstituição – o guarda-roupa e os penteados anos 50 como porta de entrada simbólica para o retrato de uma organização social – dada de forma singularmente banal, como que assente em todos os clichés de representação dessa década, já vistos e revistos em dúzias de filmes, e aqui sem nenhuma desarrumação especial. É como um “artifício”, um empecilho de que Cantet não se pode livrar porque é a maneira que tem de chegar ao contexto social e aos temas que, um tanto ostensivamente, quer evocar, do machismo ao racismo, e que justificam o emergir da “consciência feminista” do “bando de raparigas”, a aquisição de uma identidade de grupo. É isso que resulta esquemático e previsível, manieta o filme, manieta Cantet, e mantém sobre estrito “controlo sociológico” a rebeldia (“com causa”) das suas protagonistas – como se houvesse demasiados “filtros”, demasiada “mediação”, um excesso de preocupação com um discurso e as suas intenções (quando justamente, e voltando a A Turma, o olhar “embaciado” de Cantet, sem sentidos ou conclusões claras, era uma das suas forças como cineastas). Nada indica, apesar da relativa decepção de Foxfire, que Cantet se tenha tornado um mau cineasta. Aqui parece sobretudo um peixe demasiado fora da sua água.