A mulher cega que mudou de personalidade e de repente conseguiu ver

Uma mulher com múltiplas personalidades é cega em certos casos mas não noutros. O que se passará no seu cérebro que possa explicar esta bizarra situação?

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Nos anos 1980 e até 1994, a perturbação de identidade dissociativa tinha por nome "transtorno de personalidade múltipla" Mukti Alamsyah/Wikimedia Commons

Há mais de uma década que B.T. não via nada.

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Há mais de uma década que B.T. não via nada.

Na sequência de um acidente traumático quando era nova, os médicos tinham-lhe diagnosticado uma “cegueira cortical”, causada por lesões nos centros cerebrais do processamento visual. Portanto, arranjara um cão-guia e habituara-se à escuridão.

Para além disso, B.T. tinha de lidar com outros problemas de saúde – nomeadamente, mais de dez personalidades completamente diferentes que se disputavam o controlo do seu corpo. E foi enquanto procurava tratamento para a sua perturbação de identidade dissociativa que recuperou de repente a capacidade de ver. Mas não foi enquanto B.T., uma alemã de 37 anos, mas na “pele” de um rapaz adolescente que ela por vezes “vestia”.

Após meses de terapia, todas as personalidades de B.T., excepto duas, recuperaram a visão. E como B.T. oscilava entre personalidades, a sua vista ligava-se e desligava-se como um interruptor eléctrico na sua mente. O mundo aparecia para depois voltar a mergulhar na escuridão.

Num artigo na revista Psych, os médicos de B.T. explicam que a sua cegueira não foi causada por lesões cerebrais, como fora inicialmente diagnosticado. Trata-se, pelo contrário, de algo mais parecido como um problema psicológico e não fisiológico.

O estranho caso de B.T. revela muitas coisas acerca da extraordinária força da mente – sobre como ela pode controlar o que vemos e quem somos.

À procura de respostas
Para perceber o que acontecera a B.T. (que é apenas identificada pelas suas iniciais no artigo), os seus terapeutas – os psicólogos alemães Hans Strasburger e Bruno Waldvogel – retraçaram toda a sua história clínica até ao diagnóstico inicial de cegueira cortical. O seu processo clínico daquela altura mostra que ela fora submetida a uma série de testes de visão – com a ajuda de lasers, óculos especiais, raios de luz a atravessar a sala – e que tudo isso confirmara a sua aparente cegueira. Como não tinha lesões nos olhos, concluiu-se que os problemas de visão de B.T. eram devidos a lesões cerebrais causadas pelo seu acidente (o relatório não especifica exactamente o que ocorreu nesse acidente).

Waldvogel não tinha qualquer razão para duvidar daquele diagnóstico quando B.T. lhe foi referida, 13 anos mais tarde, para o tratamento da sua  perturbação de identidade dissociativa (que antes era conhecida pelo nome de transtorno de personalidade múltipla). B.T. apresentava mais de dez personalidades, cada uma delas de idade, género, hábitos e temperamento variáveis. Até falavam línguas diferentes: algumas comunicavam apenas em inglês, outras apenas em alemão, algumas em ambas as línguas (B.T. tinha passado uns tempos num país anglófono em criança, mas vivia na Alemanha).

Quatro anos após o início da psicoterapia, uma coisa estranha aconteceu: logo após uma sessão, enquanto se encontrava num dos seus vários estados de rapaz adolescente, B.T. viu uma palavra na capa de uma revista. Era a primeira palavra que lia visualmente em 17 anos.

No início, a vista recuperada de B.T. restringia-se ao reconhecimento de palavras inteiras nessa personalidade específica. Quando inquirida, respondia que nem sequer conseguia ver as letras isoladas que compunham as palavras, mas apenas as próprias palavras. Mas a sua visão foi-se expandindo gradualmente, abrangendo primeiro processos de ordem superior (como a leitura) e a seguir processos de ordem inferior (como o reconhecimento de padrões), até a maioria das suas personalidades se tornarem capazes de ver a maior durante parte do tempo. Quando B.T. alternava entre personalidades visuais e invisuais, a alternância correspondente afectava a sua visão.

Foi então que Waldvogel começou a ter dúvidas sobre as causas da perda de visão da doente. Parecia pouco provável que uma lesão cerebral susceptível de provocar cegueira cerebral pudesse sofrer uma cura instantânea depois de tanto tempo. E mesmo se fosse esse o caso, nada explicava como é que a visão de B.T. continuava a ligar-se e desligar-se. Claramente, qualquer coisa de diferente estava a acontecer.

Uma das explicações – a de que B.T. estaria a mentir acerca da sua incapacidade visual – foi refutada quando lhe foi feito um electroencefalograma. É que, quando B.T. se encontrava nos seus dois estados invisuais, o seu cérebro não apresentava nenhuma das respostas eléctricas aos estímulos visuais características das pessoas que vêem – apesar de os olhos de B.T. estarem abertos e de ela estar a olhar directamente para os estímulos.

Waldvogel e Strasburger pensam que a cegueira de B.T. é psicogénica (de origem psicológica e não física). Alguma coisa aconteceu – talvez relacionada com o acidente – que fez com que o seu corpo reagisse cortando as suas capacidades visuais. Mesmo hoje, duas das suas identidades retêm esse mecanismo de defesa.

“Esses estados poderão representar uma hipótese de recuar”, disse Strasburger ao site de neurociências Brain Decoder. “Em situações particularmente intensas do ponto de vista emocional, a doente sente por vezes o desejo de cegar, para assim ‘não precisar de ver’”.

Não é assim tão invulgar que o cérebro de uma pessoa a impeça de ver, mesmo quando os seus olhos funcionam normalmente, dizem os investigadores. Quando os nossos dois olhos vêem imagens ligeiramente diferentes – por exemplo quando olhamos de lado –, o nosso cérebro elimina uma dessas imagens para evitar que fiquemos confusos devido a essa contradição. O cérebro também intervém no processamento visual quando focamos o olhar em objectos específicos do nosso campo de visão.

O poder do cérebro
A origem da “filtragem” de informação que impedia B.T. de ver todas as coisas para as quais olhava poderá residir no núcleo geniculado lateral, uma espécie de centro de retransmissão neural que envia a informação visual, via os circuitos sinápticos, para os processadores de informação cerebrais.

Porém, talvez o mais interessante seja o que a história de B.T. nos diz sobre a perturbação de identidade dissociativa (PID), a síndrome que parece estar na base da sua perda de visão.

Embora a PID esteja listada na “bíblia” da psiquiatria – o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – desde 1994 (tendo sido reconhecida sob a designação de “transtorno de personalidade múltipla” durante uma década e meio antes disso), o seu diagnóstico ainda suscita bastante cepticismo tanto entre os peritos como entre os doentes. Antes de se tornar um diagnóstico psiquiátrico, a PID foi conhecida durante anos, juntamente com uma série de outras perturbações psiquiátricas, como “histeria”, um termo que nos dá uma ideia da forma como eram vistas a doença e as suas vítimas.

Os críticos modernos fazem notar a ausência de consenso em termos de critérios de diagnóstico e de tratamento e responsabilizam as histórias sensacionalistas sobre doentes com PID, tais como no telefilme “Sybil”, de 1976, por terem gerado uma “epidemia” de diagnósticos de PID. Nos anos 1990, inúmeros doentes processaram psiquiatras por os terem submetido a tratamentos duvidosos contra o transtorno de personalidade múltipla que afirmavam nunca ter padecido – e muitos começaram a acreditar que a PID não era tratada pelos psiquiatras, mas antes induzida pelo poder da sugestão.

No mínimo, pensa-se que a PID possa ser apenas um produto da fragmentação do pensamento a altos níveis – um colapso que ocorre quando o cérebro tem de lidar com emoções complexas.

Mas Strasburger e Waldvogel afirmam que os seus resultados sugerem que a PID pode acontecer a níveis muito mais básicos – a níveis biológicos. Afinal de contas, não eram apenas funções cognitivas de alto nível, como a leitura, que a doença de B.T.  afectava. Mesmo coisas básicas como a percepção da profundidade eram difíceis para ela. E os médicos de B.T. podiam visualizar directamente toda a actividade que decorria no seu cérebro no electroencefalograma.

Este estudo de caso mostra que a PID “é uma síndrome legítima, de base psico-fisiológica, de stress psicológico”, disse ao Brain Decoder Richard Kluft, professor de psiquiatria clínica da Escola de Medicina da Universidade Temple (EUA) que não participou no estudo. A doença não é apenas um produto da cultura e das sugestões dos psiquiatras, salientou. Tal como no caso de B.T., “representa uma tentativa da mente para compartimentar a sua dor”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post