Novos donos da TAP querem concorrer com Easyjet e Ryanair

Tarifas mais baratas, lugares mais apertados e bagagem paga à parte. O cliente da TAP tem de poder escolher se quer voar em low cost, diz David Neeleman.

Foto
Daniel Rocha

Avisando à partida que se tratava de “um gringo a falar português do Brasil” David Neeleman fez esta sexta-feira ao início da tarde a sua primeira apresentação aos trabalhadores da TAP, no dia seguinte ao da assinatura do contrato de compra de 61% do capital da transportadora, em parceria com o português Humberto Pedrosa. Uma operação concluída contra a vontade do PS.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Avisando à partida que se tratava de “um gringo a falar português do Brasil” David Neeleman fez esta sexta-feira ao início da tarde a sua primeira apresentação aos trabalhadores da TAP, no dia seguinte ao da assinatura do contrato de compra de 61% do capital da transportadora, em parceria com o português Humberto Pedrosa. Uma operação concluída contra a vontade do PS.

Perante uma plateia que descreveu como “impressionante”, o norte-americano com nacionalidade brasileira relatou em traços largos aqueles que serão os pilares da estratégia da empresa e deixou claro que uma das frentes de batalha passa por competir com a Ryanair e a Easyjet.

É uma marcação cerrada a que Neeleman quer fazer a estes concorrentes, e começa pela criação de tarifas mais baratas, “para dar às pessoas a possibilidade de escolher”. “Vamos fazer uma Ryanair em cada aeronave”, afirmou. Se o cliente quiser pagar menos, como “39 euros”, terá “um assento atrás, mais apertado e com a bagagem paga à parte”.

Com esta segmentação, de produto e de cliente, a TAP estará em condições de concorrer com as low cost, “mas com uma frequência de voo de cinco vezes por dia, em vez de só uma, como elas”, sublinhou. Custos reduzidos, cultura de excelência e de superação das expectativas dos clientes e maior rentabilidade. É assim que Pedrosa e Neeleman querem a nova TAP. E se este não é um slogan de publicidade da TAP (esse seria mais a aposta na pontualidade), ficou uma frase emblemática para circulares internas: “custos mais baixos, tarifas mais baixas”.

Para garantir aos trabalhadores que estão no centro desta estratégia, Neeleman deu o exemplo da Azul e da “crise muito difícil que se vive no Brasil”, onde “tem gente sobrando”. Há nove mil trabalhadores, quando são precisos oito mil, mas “não há demissões”. E porquê? “Porque aeronaves toda a gente tem, mas as pessoas são um activo que não tem preço”, defendeu.

O empresário, que é também dono da companhia Azul, avançou ainda que a TAP vai adquirir 53 novos aviões à Airbus, que deverão começar a voar a partir de 2018. Estes serão fundamentais para a estratégia da empresa, já que, disse, são “mais eficientes” e “económicos”, nomeadamente em termos de consumo, e levam mais pessoas.

Para Neeleman, a TAP tem “de voar para onde consegue sobreviver e fazer dinheiro”. Dentro desse objectivo, mercados como Ásia, incluindo Macau, ficam fora do alvo, ao contrário da América do Sul e América do Norte. Os custos da empresa, sublinhou, são superiores aos da Easyjet e da Ryanair, mas não no longo curso. Mesmo assim, há outros desafios pelo caminho, além das low cost.

Atrás de Neeleman, que falava no refeitório da TAP, repleto de trabalhadores, sentados e em pé, estava um mapa-mundo com as rotas da empresa e é no Brasil que estas estão mais concentradas. O empresário, de camisa branca, sem gravata nem casaco, não escondeu os impactos da crise que este país atravessa na actividade da TAP. E, mais do que a desaceleração da economia, a preocupação de Neeleman é a desvalorização do real, o que encarece as viagens dos brasileiros.

Neeleman foi o terceiro a falar, depois de Fernando Pinto, que ficará na gestão empresa, e do seu sócio, Humberto Pedrosa. Nenhum falou do facto de o PS ter afirmado pretender vender apenas 49% da empresa e de eventuais impactos que isso possa ter no cenário que desenharam para a TAP. Ao todo, os discursos duraram cerca de uma hora. O arranque foi dado por Fernando Pinto, que prometeu logo que não iria falar muito tempo. Afinal, quem ali estava queria era ouvir o que pensavam os novos accionistas.

Mesmo assim, o gestor fez questão de dizer que esperou “15 anos por este momento”, ou seja, pela privatização. Se até aqui nunca se tinha falhado com os pagamentos de salários e as restantes obrigações da empresa, isso já foi “foi muito difícil” no mês passado, e “no final deste mês seria muito mais”. 

Este ano, após o embate de várias greves, Fernando Pinto realçou o esforço para recolocar a TAP nos índices de pontualidade:  “Conseguimos atingir os melhores indicadores de sempre, batemos recordes”, afirmou. Depois, “veio o Brasil”. “O Brasil significa 25% das nossas vendas. Com a crise no Brasil, a partir de Julho, começamos a vender metade do que vendíamos, os bancos não nos emprestavam dinheiro. Estávamos no limite”, sublinhou.

Depois, vieram os privados, Pedrosa e Neeleman, os quais, disse o gestor, “até com uma certa emoção”, representam “uma nova era”. Era o mote para Humberto Pedrosa subir ao palco, recebido com palmas da assistência.

De fato escuro com um pin da TAP na lapela, o dono do grupo de transportes Barraqueiro afirmou ter toda a confiança em Neeleman e na sua equipa, deixando ao sócio a explicação sobre a estratégia. Contou como conheceu Neeleman (e a sua equipa) num jantar, onde o desafio de entrar no capital lhe foi lançado e onde começou a “ter algum apetite” pela ideia de fazer parte do futuro da TAP. Depois disso, houve mais “quatro ou cinco conversas” até chegar a altura da privatização. “Fui criando o meu entusiasmo” com a operação, contou o líder do grupo Barraqueiro e accionista maioritário do consórcio Atlantic Gateway.

Questionado por um dos trabalhadores sobre quando prevêem recuperar o capital investido no negócio, David Neeleman sublinhou que a prioridade é o pagamento da dívida. “Este acordo que assinámos significa que não podemos tirar nada [dinheiro] até os bancos serem pagos”.

E lembrou que dos 1,1 mil milhões de dívida da TAP, cerca de 600 milhões são dívida bancária sem activos subjacentes (como aviões). “Mesmo que paguemos aos bancos, a gente não pode vender acções em cinco anos”, lembrou ainda o empresário, garantindo que o objectivo “não é fazer dinheiro, mas sim fazer a diferença na TAP”. “Se conseguirmos criar cashflow para investir e pagar salários razoáveis já ficamos contentes”, garantiu Pedrosa.

“Toda a gente está a olhar para a TAP. Será que vai correr bem? Será que vai correr mal? Comigo podem contar como amigo, como accionista da TAP”, disse Pedrosa aos trabalhadores, no dia seguinte ao da assinatura do contrato de compra da companhia.

Já passava das 23h de quinta-feira quando a Parpública anunciou que a venda dos 61% do capital da empresa estava concluída, representando um encaixe total para o Estado de dez milhões de euros e garantindo a injecção de 150 milhões de euros na TAP, num prazo máximo de cinco dias.

Numa operação que tem ainda contornos por esclarecer, e na qual o problema da dívida foi um dos temas pendentes até ao último momento, fontes do sector financeiro garantiram ao PÚBLICO que a dívida da transportadora ainda é garantida pelo Estado, através da Parpública.

Até Junho de 2016, os novos accionistas terão de fazer chegar à TAP mais 120 milhões de euros, sendo que há outros 68 milhões que terão de ser entregues até lá em quatro tranches trimestrais de 17 milhões.

“O dinheiro está chegando no banco e chega para começarmos a fazer as coisas que temos de fazer”, garantiu David Neeleman aos trabalhadores da TAP.