Bravo, absolutamente bravo!

Uma extraordinária realização da emblemática obra de Steve Reich e do minimalismo.

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É possível separar Music for 18 Musicians da direcção musical de Steve Reich? Esta nova gravação prova cabalmente que sim WONGE BERGMANN

Há uma expressão muito recorrente nos discursos críticos sobre obras novas quando dirigidas pelos próprios autores dizendo tão só que “quem melhor?” para tal. É um discurso de legitimação simplista, que tende a escamotear que mesmo em circunstâncias dessas não deixam de existir dois elementos de ordem diferente, a obra em si e propriamente a sua interpretação. Mesmo que o uso desse tipo de apreciação seja um mero “lugar comum”, não deixa de ser certo que ele se radica por um lado nas profundas transformações da percepção e da recepção social introduzidas pela gravação sonora — pelo estatuto da “obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, para retomar os termos de Walter Benjamin —, por um lado, e na discussão dos conceitos de “execução” e de “interpretação musical”, e em concreto na rejeição por Stravinsky do conceito de “interpretação”, postulando que a realização sonora se deve nortear por um princípio de “objectividade” na observação das indicações da partitura.<_o3a_p>

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Há uma expressão muito recorrente nos discursos críticos sobre obras novas quando dirigidas pelos próprios autores dizendo tão só que “quem melhor?” para tal. É um discurso de legitimação simplista, que tende a escamotear que mesmo em circunstâncias dessas não deixam de existir dois elementos de ordem diferente, a obra em si e propriamente a sua interpretação. Mesmo que o uso desse tipo de apreciação seja um mero “lugar comum”, não deixa de ser certo que ele se radica por um lado nas profundas transformações da percepção e da recepção social introduzidas pela gravação sonora — pelo estatuto da “obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, para retomar os termos de Walter Benjamin —, por um lado, e na discussão dos conceitos de “execução” e de “interpretação musical”, e em concreto na rejeição por Stravinsky do conceito de “interpretação”, postulando que a realização sonora se deve nortear por um princípio de “objectividade” na observação das indicações da partitura.<_o3a_p>

Entre outros factores, a percepção da música no século XX alterou-se também porque a reprodução sonora nos legou testemunhos directos da abordagem de obras pelos próprios autores, em exemplos como os de Schoenberg, Ravel, Prokofiev, Hindemith, etc., mas sobretudo Stravinsky, que ao longo de muitas décadas nos deixou um enorme legado de direcção de obras suas. Ora, paradoxalmente, não haverá melhor exemplo de desmentido prático das formulações stravinskianas que esse seu enorme legado discográfico: se compararmos nomeadamente os muitos registos de A Sagração da Primavera que foi fazendo ao longo de décadas, verificaremos que há inúmeras flutuações, diferenças, desmentidos portanto de que a concreta realização musical seja apenas uma “execução objectiva”.<_o3a_p>

Posta a questão noutros termos, por muito importante que seja o conhecimento dos testemunhos dos autores, não existe de modo algum uma legitimação acrescida e muito menos transformada em critério absoluto de um valor e garante de “fidelidade”. Assim, não só não tem pertinência uma suposta “validade normativa” de que o autor seja o seu mais lídimo intérprete, como sobretudo não é de modo algum desmentido que, havendo “obra”, há também “interpretação” e os diversos paradigmas e possibilidades suscitados por diferenciadas interpretações.<_o3a_p>

Se esta questão é das mais salientes na percepção da música dos séculos XX/XXI — e que aliás se imbrica também directamente noutra questão fulcral, a de uma maior ou menor “fidelidade” à obra, esta uma questão suscitada exponencialmente pelas novas abordagens, historicamente mais informadas como se usa dizer, de reportório “antigo”, barroco e mesmo clássico e do primeiro romantismo —, ela é também de especial importância no tocante a uma das mais marcantes tendências dos últimos 50 anos, o minimalismo ou “música minimal repetitiva”, sendo certo e notório que os seus expoentes, e antes do mais Steve Reich, rapidamente constataram que não existindo nas formações institucionalmente constituídas — orquestras, etc. — condições para as interpretações das suas obras, formaram com esse objectivo os seus próprios agrupamentos, ou ensembles, de dedicação exclusiva.<_o3a_p>

Music for 18 Musicians (1976) é, justamente, uma das obras mais célebres e emblemáticas de Reich, do minimalismo em geral e aliás de toda a criação musical dos últimos 50 anos. Pelos complexos e mesmo terrivelmente difíceis problemas de realização prática que coloca, sobretudo a omnipresença de uma pulsação fixa, a obra coloca também em alto grau problemas concretos de especialização, e nesse sentido se diria que a sua realização dificilmente é separável da entidade que é o Ensemble de Steve Reich. Ora, e apesar disso tudo, antes pelo contrário…<_o3a_p>

Sendo. juntamente com Drumming, uma das obras mais emblemáticas do autor e, de facto, de toda uma diferente concepção composicional, Music for 18 Musicians tem tido “vida autónoma”, e uma prova disso é que esta nova gravação, com o Ensemble Signal, é já a sexta a ser publicada. A pulsação fixa e uma sonoridade muito específica e imediatamente distintitiva são dados evidentes, mas não devem escamotear que Music for 18 Musicians é uma obra polifonicamente esplendorosa, de mutações incessantes, não só do ponto de vista das estruturas harmónicas mas também das texturas polirrítmicas e das assombrosas transformações tímbricas.<_o3a_p>

E nessa configuração global, pois, chapeau!, este novo registo dirigido por Brad Lubman é de uma magnificência sem par nos anteriores, incluindo os dois realizados pelo próprio Reich — que, de resto, ele próprio, faz os maiores elogios ao novo registo. A precisão da pulsação está lá, e de que maneira!, mas Lubman e os Signal constroem um fluxo polifónico que sugere, de modo ímpar, que para além dos aspectos “rígidos” é também potencial na obra uma espantosa liberdade de incessantes mutações — o que aliás indirectamente nos faz recordar que uma das influências maiores em Steve Reich sempre foi o jazz, e muito em particular Duke Ellington.<_o3a_p>

É uma realização deveras extraordinária para uma incontestável obra-prima musical contemporânea — bravo, absolutamente bravo!<_o3a_p>