Arqueologia

Navio achado em Esposende começa a contar a sua, e a nossa, história

A madeira fala? No projecto 4SeaDiscovery acredita-se que sim, e as peças de um navio achadas há um ano em Esposende estão a ser analisadas, para se descobrir mais sobre a construção naval, o comércio de madeira e a gestão florestal na época das descobertas.
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A natureza fala, e não é só nas fábulas. E mesmo que morta, uma árvore pode dizer mais do que o comum dos mortais imagina, sobre o tempo e o lugar onde cresceu, e o povo que a plantou, cortou e usou, por exemplo, para construir navios. Mais de três dezenas de investigadores de várias áreas – da história a engenharias várias – e de diversos países participa num projecto europeu, o 4SeaDiscovery, e estão a tentar ler, em vários achados arqueológicos, o modo com as potências ibéricas conseguiram nos séculos XVI e XVII, prover-se da principal matéria-prima daquela que é hoje conhecida como a primeira globalização. Boa parte da equipa passou semanas em Esposende, a estudar a oferenda deixada há um ano, numa praia do concelho, pela tempestade Hércules.

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Foi em Maio de 2014 que a Câmara de Esposende revelou o segredo que vinha guardando, como podia, desde o Inverno anterior. A maior tempestade do ano tinha atirado para uma praia em Belinho centenas de objectos, parte deles ânforas de uma embarcação romana, e a carga e peças de um navio mais recente, da Idade Moderna, e que então se presumia holandês. Os investigadores admitem que este afinal tenha sido construído no século XVI ou XVII, na Península Ibérica, o que atraiu a atenção do projecto 4 SeaDiscovery, que está a estudar achados de navios que naufragaram em vários pontos da península e noutras partes do mundo (Panamá, América do Norte, Inglaterra, entre outros), para tentar perceber, a partir da madeira, como se desenvolveu uma actividade sem a qual a expansão ultramarina teria sido impossível.

Ainda se desconhece, com exactidão, onde jaz esse navio que naufragou, há quatro séculos, na costa de Esposende. Mas graças à atenção, ao cuidado, e ao entusiasmo de um mergulhador e artista local, João Sá, e seus familiares, foram encontradas dezenas de peças de madeira, algumas de grandes dimensões. E estas já deram, este mês, muito trabalho a uma vintena de investigadores – historiadores, conservadores arqueólogos, especialistas em dendrocronologia e engenheiros florestais, entre outros – envolvidos no 4SeaDiscovery, que tem coordenação de Ana Solana, especialista em História do Atlântico e das Caraíbas, no Centro de Ciências Sociais e Humanas do Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC), de Espanha, e parceiros em Portugal, o Instituto de Arqueologia e Paleociências / História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa, e noutros países.

Antigo responsável do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), Filipe Castro, professor da Universidade A&M do Texas (EUA), é um dos seniores da equipa, a par e Nigel Nayling, da Universidade de Trinity Saint Davies, em Gales, responsável pelo programa de formação dos investigadores mais jovens. Adolfo Miguel Martins, também do CNANS, é aluno de pós-doutoramento nesta instituição, e trabalha de perto com este arqueólogo e dendrocronologista, perito em datação de madeira a partir dos anéis de crescimento das árvores. Quando o PÚBLICO visitou este campo de trabalho, o tutor manobrava um scanner de alta precisão, para captação de imagens tridimensionais de uma das maiores peças encontradas, uma pica. 

As peças encontradas foram preservadas num enorme tanque de água, de onde iam sendo retiradas para análise. Num primeiro momento, olhava-se para ela, com a ajuda, por exemplo, do desenhador António José Carmo, de Vila do Conde, um estudioso de técnicas de construção antigas e que foi responsável pelo projecto da nau quinhentista que está ancorada no porto da sua cidade. Ao lado, um voluntário, desenhava o que via, enquanto a equipa tentava perceber a espécie de árvore – nos achados quase tudo é carvalho, e há algum pinho – e olha para os buracos na madeira, o tipo de prego que seria usado, para tentar perceber onde a peça encaixaria no navio. Que pela dimensão da pica, e de outras peças, se percebe que seria de grandes dimensões.

A passagem pelo digitalizador, e a fotografia tridimensional que este permite obter, dão novas informações, quer sobre a peça em si – em que partes foi cortada ou os pontos de furação – quer sobre a árvore de onde proveio. Na pica que estava a ser analisada quando o PÚBLICO visitou esta “escola de Verão”, nota-se que o ápice foi cortado para que a árvore se desenvolvesse em V, com dois ramos principais, a partir do tronco. Aqui “procura-se registar toda a informação que a peça nos possa fornecer: sobre o tipo de madeira e forma como ela foi cortada. E conseguimos perceber que conhecimentos tinham os construtores navais sobre a tensão do material, a curvatura natural da madeira, dados importantes para se entender como se fazia, então, gestão florestal", adianta Adolfo Martins.

Análises químicas poderão ajudar a perceber de que tipo de solo proveio esta árvore. Outra informação importante que este projecto procura é a datação, o mais exacta possível, do período de construção deste e de outros navios. Para isso contam com o apoio de vários dendrocronologistas, mas estes têm a desfavor o facto de no Sul da Europa não existirem bases de dados dendrocronológicas como as que, no Norte da Europa, permitem um trabalho de comparação com as amostras obtidas no terreno. Esse trabalho de amostragem e criação de uma base de dados é outra das tarefas deste projecto de quatro anos financiado com quatro milhões de euros pelas Acções Marie-Curie, da Comissão Europeia, colmatando uma lacuna e garantindo informação para futuras investigações.

Nem todos os envolvidos do 4SeaDiscovery passaram, no entanto, por Esposende. Como explicou Adolfo Martins, uma outra equipa do projecto debruça-se sobre a história económica e mergulha noutras águas, as dos arquivos, em Portugal e Espanha, à procura de provas de transacções de madeira entre os países ibéricos e mercadores, provas escritas de gestão florestal, de venda de materiais entre madeireiros e estaleiros, encomendas de navios, política fiscal do sector, entre outras. Dados que serão cruzados com o trabalho de arqueologia. “Até aqui estivemos na Galiza, a ver destroços de três naufrágios, vimos um outro navio em Inglaterra, que está ainda debaixo de água, e achados de vários navios guardados há vários anos em Lisboa, e mais material em vários sítios de Espanha. São destroços descobertos, nalguns casos, há mais de 20 anos”, assinala Nigel Nayling.  

Em Esposende, enquanto boa parte dos investigadores tenta ajudar a responder às “grandes questões” - “compreender como foram estes navios construídos, e que madeiras eram usadas, e de onde provinham, num momento em que estas potências marítimas se expandiam, e precisavam de mais material - outros olham para o resto dos achados de Belinho relacionados com este navio. Segundo a arqueóloga Ana Paula Almeida, da Divisão de Acção Cultural do Município de Esposende, entre outras peças, foram encontrados, até agora, 21 pelouros (balas de canhão), 52 objectos de liga de cobre, 244 em estanho (pratos), 56 folhas de chumbo e pedra, provavelmente do lastro. E muito mais deve estar no fundo do mar.

O achador, João Sá, mergulhador e escultor, que chegou a usar um pelouro de pedra numa obra sua, desconhecendo do que se tratava, tornou-se, nas palavras de Ana Paula Almeida “no guardião deste tesouro”. Que não tem moedas de ouro, como o povo chegou a espalhar pelo concelho, mas peças essenciais para o conhecimento da história da expansão ultramarina. Graças a este empenho, João Sá acompanhou o trabalho dos cientistas, e pôde ver, por exemplo, através de uma radiografia, como uma espada e um machado se transformaram em concreções, objectos sólidos resultantes da oxidação e posterior sedimentação, com outros materiais marinhos, do metal. E que no interior, oco, salvaguardam como um molde o negativo do objecto original.

“Cada pessoa tem de sentir que não precisa de ser um grande cientista para dar um contributo importante para a ciência. Basta ter os olhos abertos, ter vontade de compreender, e entusiasmo”, avisa Nigel Nayling, que está a formar os mais jovens para o substituírem, um dia. “Não há muitos arqueólogos no mundo. É muito importante que as pessoas que vivem na costa compreendam o valor disto. Para começar, isto é a sua própria cultura. E pertence a todos nós. Mas sem os olhos atentos ao que está no chão, não encontraríamos isto. Os que mergulham, os que passeiam na costa, são os nossos olhos. É uma educação que é preciso fazer. Este material é mesmo muito importante. Se alguém vir coisas destas, por favor fale com um arqueólogo.”