Actores encostados ao muro pedem para ser fuzilados em cena

De cena em cena, de ilusão em ilusão, os muros que se erguem nas mais variadas situações, incluindo o teatro, vão sendo construídos e deitados abaixo neste espectáculo.

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Na verdade, o muro em cena, que é tomado nas suas várias acepções e usado das mais diversas maneiras, numa sequência de sketches sem aparente relação causal, mas associados pelo mesmo tema, foi feito de placas sem uso, das quais tinham sido antes recortadas peças para construir bonecos.

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Na verdade, o muro em cena, que é tomado nas suas várias acepções e usado das mais diversas maneiras, numa sequência de sketches sem aparente relação causal, mas associados pelo mesmo tema, foi feito de placas sem uso, das quais tinham sido antes recortadas peças para construir bonecos.

As placas foram recolhidas na oficina de um dos principais artesãos da cidade, construtor de marionetas. Trata-se do negativo, por assim dizer, de várias marionetas criadas por Raúl Constante Pereira. Lixo? Parece tudo menos lixo, graças às ilusões criada pela iluminação e pela cenografia. Este espectáculo é sobre o que sobra da magia teatral.

O trabalho de depreciação própria dos quatro membros da Palmilha não é inocente nem despropositado. Numa altura em que as várias espécies de artes do palco — com as respectivas visões da cena — se encontram em processo de extinção, iniciado nas autárquicas de 2001 e acelerado por sucessivos governos, a coisa mais democrática que se pode fazer é mostrar as onze varas da camisa em que estão metidos músicos, actores, bailarinos e demais profissionais das artes em Portugal. Afinal, são as mesmas varas em que está a maior parte das pessoas comuns.

Não é um tratado de vitimologia, mas antes um exercício de estranhamento, cada vez mais intenso, destinado a pôr em causa os muros que se erguem, literal e metaforicamente, nas mais variadas situações, incluindo, lá está, o teatro, lugar real para onde os espectadores estão constantemente a ser trazidos. Não há muro que resista ao martelo do pensamento. Para pôr a relação entre palco e plateia em causa, a Palmilha começa por mudar as personagens a cada passo, cada vez que começa uma nova cena, fazendo uma revisão dos vários estilos de teatro que se podem ver no Porto, cotejada com as suas próprias modalidades de espectáculo. Não satisfeitos, mudam também o estatuto e papel social convencionalmente atribuídos a actores e espectadores, até conduzirem o público para o lugar de membros de um pelotão de fuzilamento. De cena em cena, de ilusão em ilusão, os muros vão sendo construídos e deitados abaixo. A decisão de reerguê-los fica com os espectadores, que, na cena final, podem escolher matar ou não os actores, isto é, decidir se eles são ou não são lixo.

Não à toa, a peça sai fora das classificações de bom senso, bom gosto e bom tom, useiras na vida mental das metrópoles, que presidem à organização da estética teatral um pouco por todo o lado, e para as quais parece não haver alternativa. O trabalho resiste a ser comparado a qualquer outra coisa senão um espectáculo da Palmilha Dentada, onde o espírito de contradição está mais vivo do que nunca. A crítica a qualquer regime nas artes ganha força por ser feita num dos principais teatros públicos. Se há lugares de liberdade e democracia hoje, que os há, um deles é o TNSJ.

Crítica corrigida a 29 de Junho: Foi dito que Raúl Constante Pereira trabalha regularmente com o Teatro de Marionetas do Porto. Quem trabalha regularmente com o Teatro de Marionetas do Porto e tem peças expostas no Museu das Marionetas é Júlio Vanzeler.