Restauro de Rembrandt mostra que o velho rei Saul sempre limpou as lágrimas à cortina

Pintura esteve quase meio século no limbo. Agora, passados oito anos de intensos trabalhos de restauro e pesquisa, especialistas demonstram por que razão acreditam que Saul e David é mesmo um Rembrandt.

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Foi precisamente este museu, um dos mais importantes da Holanda, que decidiu submeter Saul e David a um complexo processo de restauro e a uma ambiciosa investigação que se prolongou por oito anos e que agora dá por concluída com Rembrandt? The Case of ‘Saul and David’. A exposição, aberta até 13 de Setembro, resulta de uma verdadeiro CSI das artes – a “vítima” é esta pintura sujeita a vários ataques brutais nos últimos 350 anos e as autoridades e técnicos de laboratório, em vez de serem polícias, vêm todos dos meios académicos e dos museus.

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Foi precisamente este museu, um dos mais importantes da Holanda, que decidiu submeter Saul e David a um complexo processo de restauro e a uma ambiciosa investigação que se prolongou por oito anos e que agora dá por concluída com Rembrandt? The Case of ‘Saul and David’. A exposição, aberta até 13 de Setembro, resulta de uma verdadeiro CSI das artes – a “vítima” é esta pintura sujeita a vários ataques brutais nos últimos 350 anos e as autoridades e técnicos de laboratório, em vez de serem polícias, vêm todos dos meios académicos e dos museus.

“Durante oito anos, uma grande equipa de especialistas internacionais contribuiu para esta investigação”, disse num comunicado a directora da galeria, Emilie Gordenker. “Uma vasta gama de técnicas de investigação inovadoras e de confiança foi aplicada. O resultado é significativo: a Mauritshuis tem um dos seus Rembrandts mais famosos de volta.”

O estado da pintura, sujeita a cortes e repintes sucessivos, a inconsistência estilística que nela reconheciam alguns especialistas e a grande qualidade de alguns dos discípulos do mestre do século de ouro holandês colocavam muitas questões: Porque é que a autoria desta obra levanta dúvidas? Seriam estes os seus tamanho e formato originais? Haveria uma terceira figura entre Saul e David?

As conclusões a que chegaram a equipa do museu de Haia, liderada por Petria Noble, à data a sua restauradora-chefe (hoje no Rijksmuseum de Amesterdão), e a comissão independente de peritos de diversas instituições e nacionalidades, reunida para acompanhar os trabalhos, podem ser debatidas, admite Gordenker, mas a Mauritshuis está disposta a defendê-las com segurança: “Não queremos que esta questão do ‘é ou não é’ domine”, explicou a directora ao diário norte-americano The New York Times. “O que fazemos é assumir um ponto de vista mas estamos abertos a descobertas e novas revelações.”

Percurso conturbado
Executada entre 1645 e 1652, muito provavelmente em dois momentos distintos, Saul e David é uma das muitas pinturas de inspiração bíblica das centenas de obras que Rembrandt (1606-1669) deixou. Cortada ao meio algures no século XIX, provavelmente para ser vendida como dois retratos do mestre holandês, a pintura voltou a ser cosida numa só tela recorrendo a fragmentos de outras (15 no total, havendo três principais, dois para as figuras e um terceiro que pertenceu a uma cópia de um retrato do flamengo Anthony van Dyck). O fundo foi, depois, repintado para esconder as cicatrizes que a operação tinha deixado.

A obra apareceu pela primeira vez num leilão parisiense em 1830 e permaneceu no mercado durante largos anos até que o então director da Mauritshuis Abraham Bredius resolveu comprá-la com o seu próprio dinheiro, em 1898, depois de uma grande exposição dedicada ao mestre holandês em Amesterdão. Não tinha qualquer dúvida de que estava a comprar uma das melhores obras de Rembrandt e, quando morreu, em 1946, deixou-a à galeria. Explica o museu no seu site que Bredius, um melómano, tinha uma relação especial com esta pintura e que se identificava com o velho rei, que a harpa de David deixa profundamente emocionado.

Saul e David tornou-se, desde logo, uma das obras mais procuradas pelos visitantes da Mauritshuis, que tem na sua colecção outros Rembrandts importantes e o célebre Rapariga com Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer.

As dúvidas de que fosse uma obra autógrafa do autor de A Ronda da Noite começaram logo em 1876 e foram levantadas por aquele que era, à época, um dos maiores conhecedores da obra do mestre, Wilhem von Bode, lembra o diário espanhol El País, mas foi o historiador Horst Gerson que, em 1969, pôs em causa a atribuição ao mestre do século XVII. E fê-lo num livro de referência – Rembrandt. The Complete Edition of the Paintings – em que defendia que a pintura tinha uma “execução superficial e inconsistente” e que não havia nela nada que lhe permitisse reconhecer o “toque” de Rembrandt.

A opinião de Gerson encontrou de imediato eco junto de alguns especialistas, embora outros se mantivessem crentes de que era uma pintura do mestre. Mas a névoa lançada sobre a autoria fez com que a galeria de Haia alterasse a legenda da obra, passando a atribuí-la a “Rembrandt e/ou oficina”. E assim ficou até agora.

Em 2007 a Mauritshuis decidiu que Saul e David merecia uma atenção especial. Continuava a ser uma das obras mais populares do acervo e o estado em que se encontrava – a espessa camada de verniz aplicada para proteger a pintura tinha amarelecido muitíssimo – tornava-a opaca, difícil de ler.

Operação complexa
Oito anos de intensos trabalhos de investigação e restauro levaram agora à conclusão, ainda que debatível, que todos procuravam. Ernst van de Wetering, uma das maiores autoridades mundiais na obra de Rembrandt, está entre os que nunca duvidaram da autoria e fez parte da comissão de peritos que se associou à galeria neste projecto. “Esta é uma ocasião especial”, disse ao New York Times, “a Mauritshuis tem mais uma obra para juntar à sua já fantástica colecção de Rembrandts”.

A conclusão deve-se à combinação da análise “física” da pintura – suporte, pigmentos usados – com uma reinterpretação histórica, feita por especialistas internacionais. Atribuir a autoria passa sempre por associar ciência e arte, explicou ao diário norte americano Stephanie Dickey, professora da Queen’s University, no Canadá, estudiosa do período barroco no norte da Europa. E tem sempre uma boa dose de subjectividade.

A análise científica, que em parte dependeu do uso de raio-X e de reflectografia de infravermelhos – técnica que permite atravessar camadas da pintura com maior espessura e pigmentos com grande cobertura, como os verdes e os azuis, para aceder ao desenho que está por baixo daquilo que somos capazes de ver a olho nu -, permitiu aos restauradores explorar segmentos da obra que estavam escondidos por intervenções anteriores, dando aos historiadores a possibilidade de olhar para pormenores novos.

A investigação sugere agora que pode ter havido uma terceira figura a espreitar por trás da cortina, teoria que duas das obras presentes na exposição, atribuídas a dois alunos de Rembrandt – Willem Drost e Arent de Gelder - parecem vir confirmar.

A cortina a que Saul limpa os olhos é, aliás, um dos elementos que intrigavam os especialistas, com alguns a especular, ao longo de décadas, se não teria sido acrescentada numa intervenção de restauro posterior. Mas a equipa da galeria e os técnicos das universidades de Delft e Antuérpia fizeram uma rigorosa análise aos pigmentos usados e acreditam que sempre lá esteve – é uma ideia do mestre (e uma ideia de mestre). Recorrendo a sofisticados scanners, conseguiram isolar os pigmentos usados pelo artista, separando-os dos aplicados em restauros posteriores e identificando uma gama de cores inicial muito mais vasta.

Separar pigmentos foi um dos primeiros passos que permitiram aos restauradores remover as camadas acrescentadas, fossem de tinta ou de verniz, e aos especialistas encarregues de “reinterpretar” a pintura olhá-la como ela seria no original. Sem esta informação, as grandes autoridades em Rembrandt não poderiam começar a fazer as suas análises “subjectivas”, como diz Stephanie Dickey, e nós não teríamos acesso a esta ressurreição de Saul e David.

Entre as conclusões a que chegaram os peritos da comissão independente está também a forte possibilidade de a pintura ter sido executada mais cedo do que até aqui se estimava, e em duas fases, entre 1646 e 1652. “Assim que se decide antecipar a data, encontramos no seu trabalho outros exemplos destes encantadores e nebulosos jogos de luz e carne”, diz Van de Wetering nas páginas do New York Times.

Para este historiador a quem se deve a coordenação do ambicioso projecto de décadas que levou ao (inacabado) catalogue raisonné de Rembrandt, foi esta re-datação, acompanhada pela descoberta de todas estas cores na fase inicial da pintura, o factor determinante para “compreender as características estilísticas da obra”.

O formato e a forma de moldar as figuras encontra correspondência nas pinturas de Rembrandt do início da década de 1650, mas atribuir-lhe a autoria da segunda fase da pintura foi mais difícil, explicaram os peritos, devido às intervenções de restauro que a tela sofreu, sobretudo à volta do rosto e das mãos do velho rei.

Se é verdade que os métodos e a parafernália de equipamento usados pelos investigadores são high tech, a forma de mostrar os resultados também o é. Segundo o jornal The Art Newspaper, a galeria tem em exposição uma impressão 3D, criada com a Universidade de Tecnologia de Delft, que revela o aspecto original da pintura. Pequenos filmes, iPads e outros ecrãs interactivos ajudam o visitante a compreender a história desta obra e o seu percurso atribulado. Redescobrir um Rembrandt dividido em 15 pedaços é como ter à frente um puzzle com centenas de anos. Quase tão singular como ter um rei que exuga as lágrimas numa cortina.