"Heróis ou estúpidos", eles querem ser ouvidos e furar o bloqueio a Gaza

Da Suécia para Gaza, passando por Lisboa, há uma traineira disposta a desafiar Israel. Se não conseguirem, querem pelo menos que se fale do assunto.

Fotogaleria

Activistas internacionais tentaram duas vezes chegar a Gaza  e foram barrados por Israel ainda em águas internacionais. Toda a gente pergunta: o que esperam desta vez?

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

Activistas internacionais tentaram duas vezes chegar a Gaza  e foram barrados por Israel ainda em águas internacionais. Toda a gente pergunta: o que esperam desta vez?

A resposta varia. “Espero que Israel cumpra a lei internacional”, diz o comandante, 32 anos, marinheiro profissional há 16, da organização sueca Ship to Gaza. “Para mim é óbvio que este bloqueio é ilegal, e não pode existir para sempre.”

“Não sei o que esperar”, diz pelo seu lado Nils Sjostrom, norueguês de 51 anos, o cozinheiro do barco. “O que fará um dos exércitos mais poderosos do mundo quando confrontado com uma pequena traineira escandinava?”

“Esta vai ser a minha terceira tentativa”, diz o canadiano Kevin Neish, engenheiro reformado de 58 anos. Kevin esteve no Mavi Marmara, o navio que liderou a primeira flotilha de 2010 e em que nove activistas morreram num confronto com militares israelitas em águas internacionais. “Dizem que à terceira é de vez... Sinto que tenho de acabar a missão em memória dos que morreram.”

Já Nils e Joel estavam no navio Estelle, parte de uma flotilha que em 2012 rumou a Gaza. Acabaram abordados por “35 embarcações israelitas e 200 soldados”, diz Nils. Foram algemados, levados (eles dizem raptados) para um porto do Sul de Israel e passaram entre cinco dias e uma semana presos antes de serem devolvidos aos seus países. “Não foi nada que gostasse de viver de novo”, admite Nils.

A tripulação já está cansada. Saíram da Suécia a 10 de Maio e fizeram várias paragens para descansar e para acções de divulgação. Esta quinta-feira partem para o Mediterrâneo, onde vão juntar-se a outras embarcações e seguir viagem, esperando chegar a Gaza antes do final de Julho. Se não chegarem, já cumpriram uma parte do seu objectivo: “Que se fale do bloqueio ilegal a quase dois milhões de pessoas que desde 2007 não têm como sair e viveram três guerras devastadoras.

Israel argumenta que o bloqueio, cumprido por si e pelo Egipto, é legal e necessário para evitar a entrada em Gaza de rockets, que depois são disparados contra Israel. Organizações como a Amnistia Internacional e a Cruz Vermelha Internacional consideram o bloqueio ilegal. “Para mim é evidente que o bloqueio não pode durar para sempre”, declara Joel.

A traineira não é o barco mais adequado a uma viagem destas. “O Estelle tinha um casco mais fundo e era mais estável. A traineira tem o casco redondo e abana com todas as ondas”, diz Nils, com voz de jornalista de rádio que era antes de se dedicar à cozinha e viver tranquilamente numa floresta perto de Oslo. Mas ele está contente: “É uma honra participar, já que tenho a oportunidade de fazer mais do que falar.”

Ao todo, o projecto custou 1,2 milhões de coroas suecas, ou seja, 120 mil euros. “Noventa por cento do que angariámos foi na rua”, diz Joel. Levam algum equipamento e alguns mantimentos numa traineira toda modificada, com camas em beliche, um sítio para as refeições e uma cozinha extremamente arrumada onde Nils sabe sempre onde está tudo (“Imaginem cozinhar quando está tudo a abanar à tua volta e ainda andares à procura de uma faca”, conta a rir).

Embora nenhum dos tripulantes queira voltar a ser preso e tenha alguma apreensão pelo que poderá acontecer, todos estão bem-dispostos, apesar das poucas horas de sono.

“Nós não somos vítimas”, sublinha Joel. “Nós sabemos que vamos ser ouvidos – vamos ser considerados heróis ou estúpidos, mas vamos ser ouvidos”, declara. “Os palestinianos de Gaza é que são vítimas todos os dias e, na maioria das vezes, não são ouvidos.”