A arte (também) é uma festa em Alvalade

A segunda edição da Mostra, misto de feira e exposição informal de arte contemporânea, tem tudo o que é habitual nestas iniciativas: festa, encontros, conversas, mundanidade. E artistas e obras de arte. Até 19 de Abril, num edifício de três andares.

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No piso térreo do n.º 2 da Rua do Centro Cultural, onde se improvisou um bar, Duarte Amaral Netto conversa animadamente com amigos. Na primeira edição, realizada na Central Station, no Cais do Sodré, sugeriu a escolha de alunos (é professor no Instituto Politécnico de Tomar), mas esteve ausente da mostra. Este ano, sucedeu o inverso. Participa, mas sem alunos. “Quando me apercebi da dimensão do espaço e do número de artistas, propus trazer amigos. Acho importante dar oportunidade às pessoas mais jovens de exporem ao lado de artistas que, de alguma forma, lhes dão reconhecimento.” José Luís Neto, Paulo Catrica, João Paulo Serafim, José Pedro Cortes, Carlos Lobo, Daniela Krtsch, Susana Anágua, entre outros, compõe o “colectivo” concebido por Duarte Amaral Netto e as suas obras podem ser vistas no primeiro e no segundo pisos.

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No piso térreo do n.º 2 da Rua do Centro Cultural, onde se improvisou um bar, Duarte Amaral Netto conversa animadamente com amigos. Na primeira edição, realizada na Central Station, no Cais do Sodré, sugeriu a escolha de alunos (é professor no Instituto Politécnico de Tomar), mas esteve ausente da mostra. Este ano, sucedeu o inverso. Participa, mas sem alunos. “Quando me apercebi da dimensão do espaço e do número de artistas, propus trazer amigos. Acho importante dar oportunidade às pessoas mais jovens de exporem ao lado de artistas que, de alguma forma, lhes dão reconhecimento.” José Luís Neto, Paulo Catrica, João Paulo Serafim, José Pedro Cortes, Carlos Lobo, Daniela Krtsch, Susana Anágua, entre outros, compõe o “colectivo” concebido por Duarte Amaral Netto e as suas obras podem ser vistas no primeiro e no segundo pisos.

A folha disponibilizada à entrada, com a planta do edifício e a lista dos artistas, permite guiar os curiosos na direcção da arte, mas à curiosidade tem que valer o ânimo. Ao todo são 87 salas, a maior parte indistintas, que formam labirintos e percursos que parecem repetir-se. Facilmente se perde a noção do espaço. Saltam perguntas. “Onde estamos?” Este não é o terceiro piso”? “Onde fica a sala do João?” Só as obras, com os cartões que identificam os preços, as dimensões e a autoria, vêm atenuar a desorientação. Duarte Amaral Netto gosta da relação que se joga entre a arquitectura e a exposição dos trabalhos. “Quando olho para o espaço acho interessante a forma como se conseguiu gerir todas estas linguagens. O espaço permite isso. Tem muitos compartimentos”. Na sua sala, contígua ao bar, estão fotografias inéditas em que o espectador vislumbra referências ao cinema noir e à fronteira entre a ficção e facticidade. As paredes estão pintadas de preto. “Deu-se uma demão de tinta, mas, de resto, a sala está como estava quando aqui entrei. As paredes já eram negras. Limitei-me a assumir o espaço como ele era.”

As intervenções sobre as salas variam em intensidade e escala. Houve quem revolvesse chão, pintasse o tecto e aproveitasse o mobiliário, abrindo armários ou apropriando-se de mesas. Ou se limitasse a colocar os trabalhos no espaço, como Nico, que concorreu na área de desenho e foi selecionado. “Não quis adaptar o espaço ao meu trabalho. Esta é uma sala mínima que proporciona uma circulação interessante, uma ideia de descoberta, as pessoas vão encontrando as obras nos recantos. Isso interessa-me.” Os desenhos articulam-se com as condições materiais encontradas. Podem ser vistos nos espaços deixados vagos pelo desaparecimento de cabines de som ou nas paredes e revelam ao espectador a existência de um processo vagaroso, repetitivo. Continuam a entrar visitantes e o artista não esconde a satisfação: “Esta é uma hipótese de mostrar o meu trabalho a um maior número de pessoas e de cada artista ter o seu espaço, de aí construir a sua lógica e o seu pensamento.”

José Maçãs de Carvalho, nomeado para prémio BESPhoto 2005, partilha da opinião de Nico, mas não traz trabalhos inéditos. As suas fotografias, expostas no segundo piso, já foram mostradas no Centro de Artes Visuais de Coimbra em 2011. “Apesar de não serem novas, há milhares de pessoas que não as viram e este é uma possibilidade de as mostrar. Isso é muito interessante”, diz. “Vejo a Mostra como uma espaço pré-curatorial e creio que vai havendo cada vez mais condições em Portugal para a aparecimento de projectos como este. O edifício é magnífico. Uma pessoa perde-se nele, mas sabe que se vai encontrar.”

Agarrar e envolver as pessoas
Entretanto, já passa das 20 horas. A multidão é agora mais homogénea em termos de gestos e vestuário. E, lentamente, as obras vão-se tornando cenário de conversa entre grupos de amigos e casais, cenário de encontros, muito celebrados, dos artistas com os seus familiares. O frémito não terminou, mas tende a desfilar sem tempo para as salas e, sobretudo, para marcas do edifício que durante anos foi utlizado pela Igreja Maná.

No terceiro piso, Marta Alvim, alheia ao rebuliço, entra na sua sala como se fosse velar os seus trabalhos. É o que se chamaria, pese o reducionismo, uma “artista emergente”, mas a formação (estudou cinema no Porto, passou pela Escola Maumaus), o discurso e experiência permitem entrever uma maturidade notável. Foi convidada para a Mostra por Patrícia Pires de Lima (a organizadora do evento), no seguimento de uma recomendação de Miguel Palma, e expõe uma série de fotografias que lidam com o conhecimento, a paisagem, o visível e o invisível. A sua presença nesta edição assinala uma mudança de perspectiva em termos de actividade: “Durante anos dediquei-me à investigação, não estive interessada em vender. Hoje em dia, não penso assim. Acho que a arte tem que ter um contacto directo com o público e um artista que deseja influenciar o meio onde vive deve ter essa sensibilidade. O crescimento da obra com as pessoas é essencial. Gosto de criar pensamento nas pessoas com a arte. Reconheço que este talvez não seja o melhor contexto, mas é uma forma de as agarrar e envolver, um pouco como fazem os livros da Taschen.”

Se de facto as pessoas param para ver, é impossível identificar o que levam com elas, se foram, enfim, “agarradas” por esta ou aquela peça. De copos na mão, circulam leves, numa pressa discreta, ao som da música da sorridente DJ de serviço. Rui Sanches, um dos artistas consagrados da Mostra e que ajudou na selecção de artistas mais jovens, é optimista. “Há aqui um lado mundano. Encontramos pessoas que não vemos noutros lugares. E tem um lado festivo que às vezes faz falta, que atrai um público muito heterógeno, que vem a um acontecimento que programou para o fim-de-semana. Um pouco como os turistas que vão à Tate Modern, que vêem arte naquele momento e que provavelmente não voltarão a ver. Pode ter problemas, mas as qualidades superam-nos.”