O amor do lado de lá

O amor é inquestionavelmente um tema central das sociedades contemporâneas, sobretudo quando estamos numa queda acentuada de investimento “nos outros” e na disponibilidade para a partilha. Pensando melhor: se o amor é partilha, por que não utilizá-lo como meio de ultrapassar a crise com que nos debatemos diariamente?

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Adriana Cecchi/FLICKR

Portugal está mergulhado numa tão grande escuridão de alma que andamos todos acabrunhados, ansiosos, amedrontados com o presente e o futuro, questionando a todo o momento “como vou sobreviver?”. Assim, é particularmente difícil, por mais que a Primavera chegue com toda a sua carga de alegria e de hormonas de sonho, respirar fundo e perceber que tudo é transitório e um ciclo contínuo. Umas vezes, a vida apresenta-se melhor, outras vezes menos bem e temos que interiorizar este constante movimento. Cada vez mais as pessoas desligam-se do meio em que vivem, nomeadamente no que diz respeito às ligações afectivas — preferem viver para si e por si próprios transformando-se cada vez mais em pessoas-ilha.

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Portugal está mergulhado numa tão grande escuridão de alma que andamos todos acabrunhados, ansiosos, amedrontados com o presente e o futuro, questionando a todo o momento “como vou sobreviver?”. Assim, é particularmente difícil, por mais que a Primavera chegue com toda a sua carga de alegria e de hormonas de sonho, respirar fundo e perceber que tudo é transitório e um ciclo contínuo. Umas vezes, a vida apresenta-se melhor, outras vezes menos bem e temos que interiorizar este constante movimento. Cada vez mais as pessoas desligam-se do meio em que vivem, nomeadamente no que diz respeito às ligações afectivas — preferem viver para si e por si próprios transformando-se cada vez mais em pessoas-ilha.

Posto isto, importa questionar: o amenizar deste lado negro que vivemos não passará pela aposta no amor? E não falo no amor restrito a namoros e casamentos, falo mesmo do amor no sentido mais lato; no promover a cooperação e o bem-estar conjunto com as pessoas que directa ou indirectamente se cruzam connosco; o de estarmos disponíveis para dizer “estou aqui” a quem gostamos, ou a quem precisa de um olhar conjunto de esperança.

Neste aspecto, acho que temos de felcitar a maioria dos nossos emigrantes portugueses. Estão em sítios geograficamente distantes, muitas das vezes com toda uma azáfama de adaptação à língua, à cultura e à sociedade do pais que os acolhe e, ainda assim, conseguem tirar do seu dia-a-dia um momento para a saudade saudável em que, ora via sms, vídeo-chamada, ou mesmo num minuto ao telefone, conseguem perguntar a quem está do lado de cá “como estão as coisas por ai? Tenho saudades… gosto muito de ti” . Este investimento emocional pode fazer toda a diferença.

Alguma vez se questionou do poder da expressão “gosto de ti”? Parece algo simplista, mas, por outro lado é a partir de aspectos muito simples que por vezes se constroem diferenças enormes na vida de quem está num contexto debilitado e fragilizado.

Talvez tenha chegado a altura de repensarmos a nossa participação na sociedade actual que se insere num modelo mesquinho, preconceituoso e fechado, segundo modelos que nos foram incutidos para a “boa” convivência e manifestação do amor. Esta tradição do querer o bem mas nada fazer é profundamente típica em Portugal, talvez fruto da influência da política que promete (e disso não passa), ou da religião demarcada que promove o amor, mas que fica no vácuo e no limite de como deve ser vivido segundo regras e modelos teóricos. Talvez o que nos falte aqui é a inovação: a de amar e ponto.

O amor tem forma e regras?