Simba foi morto em Monsanto e a indignação veio de todo o país

Caso de cão abatido em aldeia de Idanha-a-Nova criou onda de solidariedade nacional após post no Facebook.

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José Diogo Castiço e a mulher Andreia Mira moram em Monsanto. Ele trabalha na empresa Monsanto a Cavalo, ela tem uma loja de produtos da Terra na aldeia. Têm uma quinta, onde além de passeios a cavalo, cultivam vários produtos agrícolas. No último sábado, Andreia estava na quinta quando ouviu dois disparos. Um dos seus cães, Simba apareceu a cambalear e a ganir. Deitado ao pé de Andreia, o animal morreu pouco depois com ferimentos provocados por chumbos.

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José Diogo Castiço e a mulher Andreia Mira moram em Monsanto. Ele trabalha na empresa Monsanto a Cavalo, ela tem uma loja de produtos da Terra na aldeia. Têm uma quinta, onde além de passeios a cavalo, cultivam vários produtos agrícolas. No último sábado, Andreia estava na quinta quando ouviu dois disparos. Um dos seus cães, Simba apareceu a cambalear e a ganir. Deitado ao pé de Andreia, o animal morreu pouco depois com ferimentos provocados por chumbos.

Simba terá sido abatido por um vizinho do casal, por razões ainda por confirmar. Até ao último sábado, Diogo Castiço lembra ao PÚBLICO que nunca teve qualquer problema significativo com o vizinho, que utilizava com frequência o poço do terreno do casal para regas na sua propriedade. Os cães do homem eram também presença frequente no terreno do lado. Apenas numa ocasião Diogo Castiço diz ter tido uma “conversa mais azeda” com o vizinho, há dois anos, por causa de uma utilização abusiva do poço numa altura de seca na região. “Chamei-o à atenção e disse-lhe que assim teria que lhe cortar a água”, recorda. Depois, tudo voltou ao normal.

No sábado, momentos antes de Simba ter morrido, Andreia cumprimentou o vizinho quando se cruzou com este ao chegar à sua quinta. Meia hora depois deram-se os disparos. Diogo contactou o posto territorial da GNR de Monsanto, que se deslocou ao local e interpelou o suspeito dos disparos. “Disse que tinha disparado para o ar, que já tinha avisado o cão, mas negou que o tivesse morto. Disse que o cão tinha ido às galinhas”, conta Diogo.

Diogo descreveu cada minuto do dia da morte de Simba várias vezes desde então. A primeira vez foi na página do Facebook da empresa, sob o título “Mataram o meu melhor amigo”, e a partir daí tudo mudou. “Escrevo-vos lavado em lágrimas choradas durante toda a noite de ontem. O nosso Simba foi assassinado por um criminoso, alegadamente, porque a justiça assim o obriga”, começou por escrever.

“Indagado por mim num estado de perfeito nervosismo, o autor do disparo, que diz ter sido de aviso...para o ar, negou...negou tudo, negou ter morto o meu cão, negou ser um assassino, negou ser cruel, negou não possuir uma réstia de amor pela vida animal, respeito pela vida dos outros, respeito pela minha mulher que minutos antes o cumprimentara ao chegar à quinta enquanto este podava uma parreiras, na presença da GNR, ontem e hoje, tudo negou”, acrescenta depois.

Diogo assegura que Simba era “simpático com todos” e que o veterinário local passou mesmo uma declaração de não-agressividade em conjunto com o óbito, onde foi declarada morte por arma de fogo. O animal foi sepultado no dia seguinte, mas esta terça-feira o corpo era exumado para se proceder à autópsia, um conselho que Diogo seguiu "para garantir que nada fica por registar" quanto à causa da morte de Simba. 

O tenente-coronel João Brito, do Comando Territorial de Castelo Branco da GNR, confirmou ao PÚBLICO o incidente e indicou que “tudo se terá passado devido a uma situação que envolveu cães e galinhas”. “O suspeito foi identificado e foram apreendidos uma espingarda-caçadeira e um cartucho. O caso foi depois remetido para o Ministério Público, que irá decidir se haverá a abertura de um inquérito”, adiantou o militar. O PÚBLICO tentou falar com o suspeito, mas não foi possível.

Desde sábado, Diogo e Andreia já apresentaram três queixas na GNR de Monsanto. A primeira pela morte de Simba, a segunda, no domingo, por invasão de propriedade e destruição de bens e a terceira por ameaça através de mensagem telefónica. Diogo liga os dois casos mais recentes à morte do seu cão.

post de domingo no Facebook mudou a vida do casal. Nos últimos dias, o telefone de trabalho de Diogo não pára de tocar, a caixa de email da empresa acumulou centenas de mensagens e os pedidos de entrevista de órgãos de comunicação social são muitos, alguns vindos de países como a Suíça. Mas o que mais está a sensibilizar Diogo e Andreia são os milhares de comentários e mensagens de apoio recebidas de pessoas amigas mas também de desconhecidos. Esta terça-feira, o post de Diogo tinha mais de 2500 comentários e tinha sido partilhada perto de 25 mil vezes. Foi ainda criada uma petição pública a exigir justiça pelo Simba. Mais de 17.500 pessoas tinham subscrito o documento até à tarde desta terça-feira.

O casal de Monsanto pede agora justiça. Para o seu cão e “para as centenas de animais que sofrem nas mãos da crueldade do homem”. “Isto é pelo Simba e pelos animais que já sofreram e pelos animais que estão potencialmente em risco. A lei mudou e é preciso reforçar os direitos dos animais”, defende.

A Monsanto a Cavalo está parada há vários dias e a loja de Andreia não voltou a abrir portas. Diogo está em “estado de choque” e receia agora pela segurança das pessoas que contratam os seus serviços, prestados na quinta da família. “Há crianças a fazerem os passeios a cavalo. Este é um risco real, não é fictício. Alguém diz que dispara para o ar de qualquer maneira. E se atinge uma criança? Não as posso pôr em risco”, reforça, indicando que além da arma apreendida, o suspeito terá "várias outras" em casa.