Reservas hoteleiras sobem 20% nos Açores à boleia das low cost

Empresários e autarcas esperam mais turistas no arquipélago com a liberalização das ligações aéreas e reduções nos preços. À Câmara de Ponta Delgada têm chegado vários pedidos de informação sobre investimentos em alojamento local

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Preços das viagens para os Açores deverão baixar Rui Soares

As reservas de hotéis para os próximos três meses, feitas directamente por turistas, aumentaram na ordem dos 20% nos Açores, numa altura em que a liberalização das ligações aéreas com o Continente está prestes a entrar em vigor, a 29 de Março. Humberto Pavão, delegado da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal nos Açores, adianta que o ritmo de reservas, sobretudo na ilha de São Miguel, “regista uma procura fora do normal” de visitantes que não recorrem a operadores turísticos ou agências de viagens.

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As reservas de hotéis para os próximos três meses, feitas directamente por turistas, aumentaram na ordem dos 20% nos Açores, numa altura em que a liberalização das ligações aéreas com o Continente está prestes a entrar em vigor, a 29 de Março. Humberto Pavão, delegado da AHP - Associação da Hotelaria de Portugal nos Açores, adianta que o ritmo de reservas, sobretudo na ilha de São Miguel, “regista uma procura fora do normal” de visitantes que não recorrem a operadores turísticos ou agências de viagens.

A maioria das viagens “estão a ser solicitadas dentro dos 45 a 60 dias antes da chegada”, diz Humberto Pavão, acrescentando que nos circuitos habituais as vendas “continuam normalmente”.

A pouco mais de três semanas de entrar em vigor a liberalização das ligações aéreas, a expectativa é grande. A chegada anunciada da easyJet e da Ryanair trouxe “nova notoriedade” ao destino, diz Marta Sousa Pires, administradora executiva do Grupo Bensaude e directora comercial da Bensaude Hotels Collection. E isso está a “originar um aumento de interesse para reservas de individuais, e inclusivamente para 'short breaks' [estadias curta duração] já durante a Primavera na ilha de S. Miguel”, adianta. A entrada destas companhias aéreas “permite a expansão da comunicação do destino e a sua divulgação em mercados que até então eram de difícil penetração”, continua. O interesse começou em Janeiro e o ano tem sido “bastante positivo” para o grupo, com sete unidades nos Açores. “Apesar de não querermos elevar demasiado as nossas expectativas e sermos realistas, a verdade é que há muitos residentes em Portugal continental, por exemplo, que encaram os meses que se avizinham como uma oportunidade única de conhecer os Açores pela primeira vez, e estamos absolutamente confiantes que quem vem uma vez vai querer regressar”, sublinha Marta Sousa Pires.

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Rui Soares

Mais cauteloso, João Nunes, comercial do VIP Executive Açores Hotel, em Ponta Delgada, acredita que os impactos só se vão notar no final de 2015. “Por enquanto, não temos sentido um aumento de reservas relacionadas com as 'low cost'. Este é um cliente do último minuto e, por isso, só mais tarde se vai notar. As reservas são feitas através de operadores e a maior parte da programação vai continuar a vir através da SATA”, adianta. João Nunes acredita que só nos últimos três meses do ano será possível assistir a uma mudança, sobretudo, nos preços. “Acredito que nessa altura poderemos subir preços”, avança. “Só estamos à espera há 15 anos, alguma coisa boa deve dar”, ironiza.

Naquele que foi um ano recorde para a hotelaria nacional, com crescimento global de 11% nas dormidas, o arquipélago registou uma tímida subida de 0,9% face a 2013 e absorveu apenas 2,3% das 46,1 milhões de dormidas conseguidas em 2014 pelo conjunto das regiões portuguesas. José Manuel Bolieiro, presidente da autarquia de Ponta Delgada, recorda que o “principal constrangimento de um destino turístico como os Açores, com baixa notoriedade e um reduzido histórico de turismo, sempre foi a sua dificuldade competitiva. Muito cara e de reduzida frequência”. E é por este motivo que Carlos Santos, presidente do Observatório do Turismo dos Açores e professor catedrático da Universidade dos Açores, aponta a nova política de transportes aéreos como o segundo marco mais importante para o sector, depois de, em 2000, o turismo ter obtido “o reconhecimento político de motor de desenvolvimento da economia regional”. A partir de Abril haverá, por isso, uma “mudança estrutural” e “uma segunda janela de oportunidades, que deverá ser devidamente aproveitada pois dificilmente surgirá outra”. Cabe agora à região “conseguir uma diferenciação positiva em relação ao melhor destino concorrente em termos de rácio qualidade/preço da sua oferta”, sublinha.

Na Câmara Municipal de Ponta Delgada, em S. Miguel, aumentam os pedidos de informação sobre licenciamento para alojamento local, num sinal de que os empresários também querem aproveitar a oportunidade. Contudo, José Manuel Bolieiro diz que ainda é “cedo para apontar percentagens de crescimento em função da entrada das low cost” e garante que a sua cidade tem estruturas hoteleiras suficientes para dar conta do aumento de procura, até porque há unidades encerradas.

Certo é que, quem visitar os Açores nos próximos tempos deverá contar com uma descida das tarifas praticadas, até agora muito penalizadas pelo custo do bilhete de avião. Mário Machado, director de operações da TopAtlântico, realça que a “redução de uma componente de preço tão pesada como a do transporte aéreo levará a preços mais competitivos e a um, mais que provável, aumento do número de visitantes”. Ao mesmo tempo, Jorge Alves, director-geral do operador turístico Turangra, recorda que, “em teoria”, a redução de preços leva a um aumento da procura. É, assim, “expectável um aumento de fluxo turístico para os Açores”, afirma.

Preservar a natureza

As ilhas terão de se preparar para a chegada de mais visitantes e manter o equilíbrio entre o crescimento e a preservação do património natural. O presidente da direcção da Associação de Turismo dos Açores, Francisco Fernandes Gil, garante que “todas as entidades, públicas e privadas, estão determinadas na afirmação dos Açores nesta matéria, sabendo que crescimento não é sinónimo de degradação”. Mais turistas significa mais pessoas com a “missão de preservar a natureza e o mar dos Açores para as futuras gerações”, sustenta.

O aumento das ligações aéreas traz, ainda, uma mudança “qualitativa”. Carlos Santos, presidente do Observatório do Turismo dos Açores, acredita que virão “turistas com perfis muito diversos e com expectativas e necessidades diversificadas”, que reservam a viagem online e sem recorrer a agências. No terreno, defende, a oferta também terá de se renovar, “quer criando novas tipologias de alojamento, quer através da criação de novas actividades de animação e serviços”.

Evaristo Melo, dono da BigBlue Adventures, que organiza passeios e actividades marítimas, garante que está tudo a postos para receber os visitantes. O arquipélago está preparado e os açorianos “estão sempre à frente do que é pedido”. “O que temos está muito acima da nossa procura. Espero que haja mais turistas e uma possibilidade de trabalharmos todos de igual para igual”.