Pierre von Kleist, uma editora para uma imensa minoria

Os fotolivros da editora fundada por André Príncipe e José Pedro Cortes não precisam de tradução. Só precisam de uma distribuição mundial – e têm.

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A este percurso admirado juntava-se uma fatalidade: a colecção de livros de fotografia de Pierre von Kleist, uma das mais importantes da Europa, segundo a nova editora, tinha sido “consumida por um incêndio no início dos anos 50”. E por mais que se fizessem pesquisas no Google ou na Wikipédia, as pistas sobre quem era este homem ou sobre as origens desta tragédia bibliográfica eram inexistentes e os primeiros resultados iam parar sempre a uma editora de livros de fotografia sediada em Lisboa. Era tudo. Era pouco. E aguçou a curiosidade. Quem seria este perito em fotografia de quem não se conhecia uma fotografia?

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A este percurso admirado juntava-se uma fatalidade: a colecção de livros de fotografia de Pierre von Kleist, uma das mais importantes da Europa, segundo a nova editora, tinha sido “consumida por um incêndio no início dos anos 50”. E por mais que se fizessem pesquisas no Google ou na Wikipédia, as pistas sobre quem era este homem ou sobre as origens desta tragédia bibliográfica eram inexistentes e os primeiros resultados iam parar sempre a uma editora de livros de fotografia sediada em Lisboa. Era tudo. Era pouco. E aguçou a curiosidade. Quem seria este perito em fotografia de quem não se conhecia uma fotografia?

A narrativa construída pelos fotógrafos André Príncipe (Porto, 1975) e José Pedro Cortes (Porto, 1976) para o arranque de uma nova editora em Portugal, no final de 2009, soou ainda mais enigmática quando se anunciou a reedição de um fotolivro procurado (e sonhado) por muitos, mas na posse e no desfrute de poucos – Lisboa, Cidade Triste e Alegre (Victor Palla/Costa Martins, 1959). A difícil empreitada que tinha sido abandonada por um gigante da edição mundial da área, a Steidl, foi abraçada por dois amigos que partilhavam uma admiração pelo único livro português incluído no primeiro volume de The Photobook: A History (Parr/Badger, 2004) e uma imensa vontade de fazer mexer as águas de um panorama editorial – o dos livros de fotografia em Portugal – pouco mais do que estagnado. E, assim, à fábula provocatória juntou-se a concretização de uma odisseia editorial que haveria de afirmar a Pierre von Kleist no universo das coisas palpáveis, uma editora de corpo inteiro que, apesar da sua juventude, ousou aventurar-se na execução de um objecto gráfico complexo, que só um esforço artesanal paciente e muita arte de negociação diplomática à mistura (viabilização financeira do livro, encontro de ambições e desejos das famílias dos fotógrafos já falecidos) fizeram com que chegasse outra vez às mãos dos leitores. O livro esgotou rapidamente e deu reconhecimento nacional e internacional a uma chancela que tinha apenas dois títulos no currículo, Silence, de José Pedro Cortes, e Vol. I, de Pauliana Valente Pimentel. 

Aquilo que levou Cortes e Príncipe (ambos com formação superior em fotografia tirada em Londres) a fundarem uma editora surge como uma reacção ao deserto de ideias num campo editorial que em Portugal muito raramente deu sinais de vitalidade ou de rasgo. E também para romper com uma postura de divulgação e distribuição pensada apenas para o mercado português. Ao fim de cinco anos, a dupla foi responsável pela publicação de 18 títulos, alguns dos quais esgotados, muitos com referências críticas elogiosas em várias publicações da especialidade (um livro de Cortes entrou no último volume de The Photobook: A History). 

No último ano, a editora mostrou dinamismo e publicou com regularidade. Só nos últimos três meses, a actividade da PvK foi reconhecida na galeria 12mail, em Paris, onde teve carta-branca para expor os trabalhos que entendesse, e no espaço Le Bal, projecto ligado à tribo da cooperativa Magnum na capital francesa, onde foi convidada a organizar um ateliê de edição para o Le Bal Books Week-end. Durante a última edição do Paris Photo, o mais importante encontro para o mercado de fotografia, participou no Offprint, salão de editores de livros de arte contemporânea, fotografia e design. A presença da Pierre von Kleist neste espaço (que também foi inaugurado em 2009) pelo quinto ano consecutivo é aliás uma marca na identidade da editora, que desde o seu nascimento revelou uma ambição além-fronteiras. Para além do Offprint, as caixas com livros de fotografia da editora têm viajado para muitos outros encontros especializados, entre os quais o festival Unseen Amsterdam, e a feira Kassel Fotobook, num esforço para marcar presença nos pontos nevrálgicos da edição de fotolivros. Em paralelo com a actividade livreira, o trabalho da Pierre von Kleist tem contribuído para erguer e consolidar um entusiasmo à volta da fotografia contemporânea, que, no passado, também só a espaços foi dando sinais de vida.

Para além de livros dos seus fundadores, a editora lançou também obras de Nils Petter Löfstedt, António Júlio Duarte, André Cepeda, Daniel Blaufuks, Pedro Costa, Marco Martins e Pedro Letria. Hoje, para além da loja on-line, é possível comprá-los em 30 livrarias espalhadas por todo o mundo e em meia dúzia de espaços em Portugal.

André Príncipe, que publicou recentemente Tokyo Diaries (à volta da actividade de seis fotógrafos japoneses), afirma-se “orgulhoso” do percurso feito até agora e sublinha a importância de um trabalho pós-publicação. “Para já, acho que fizemos uma coisa nova em relação aos fotolivros publicados em Portugal: cuidamos deles. Há uma prática que dá por terminado o processo de edição com a entrada do livro no mercado, como se fosse uma gravidez de nove meses seguido do abandono de uma criança.” Para Príncipe é preciso “conceber uma distribuição eficaz”, fazer com que os livros “sejam vistos e compreendidos em contexto”. O balanço é positivo, mas cauteloso: “Tem corrido bastante bem. Este é um momento de balanço. Não vamos poder fazer igual, mas temos vontade de continuar. Enquanto for uma coisa excitante e apaixonada, continuaremos”.

Quando se procura a ligação “about” no site da Pierre von Kleist já não é a fábula do “famoso coleccionador” que se encontra, mas uma declaração de posicionamento e de intenções que passa por afirmar o livro de fotografia “como um medium capaz de expressar ideias complexas, abstractas e contemporâneas e capaz de chegar a audiências alargadas”. Porque, diz a Pierre von Kleist, “os fotolivros não precisam de tradução, precisam de uma distribuição mundial.”

Para os próximos anos, a ideia é continuar a desafiar “os limites e as convenções”, contribuindo para estabelecer o fotolivro como um suporte “respeitado e maduro”. É uma estratégia que passa sobretudo por escolher trabalhos “autorais”, pondo de lado a quantidade ou o retorno garantido.

Nesse labor, é provável que a dupla Cortes/Príncipe continue a provocar-nos olhares desconfiados e que continue a estimular-nos os sentidos levando-nos por caminhos que não esperaríamos percorrer à partida. Na dúvida, uma certeza: “Até nem nos levamos muito a sério, mas gostamos de fazer livros de uma forma empenhada.”