Escolha dos júris dos apoios ao cinema provoca demissões

A cineasta Margarida Gil vai sair da SECA, a entidade responsável pela escolha dos júris, alegando que as televisões privadas e outros representantes do sector audiovisual concertaram as suas votações em detrimento do cinema.

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“Houve um lobby que se agrupou muito competentemente, e de forma perfeitamente legal, para votar em pessoas da sua confiança”, diz a realizadora, que afirma ter sido sempre contra a SECA, que considera “um pretexto para o ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual] e o titular da Cultura lavarem as mãos” e “manterem o controlo através de uma estrutura pseudo-democrática”, na qual “vale tanto o voto do representante de uma operadora de telecomunicações como o de uma personalidade convidada” por méritos reconhecidos.

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“Houve um lobby que se agrupou muito competentemente, e de forma perfeitamente legal, para votar em pessoas da sua confiança”, diz a realizadora, que afirma ter sido sempre contra a SECA, que considera “um pretexto para o ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual] e o titular da Cultura lavarem as mãos” e “manterem o controlo através de uma estrutura pseudo-democrática”, na qual “vale tanto o voto do representante de uma operadora de telecomunicações como o de uma personalidade convidada” por méritos reconhecidos.

É o caso do realizador Manuel Mozos, que integra a SECA por convite directo da Secretaria de Estado da Cultura e que, segundo afirmou ao PÚBLICO, tem também intenção de se demitir. A Associação de Realizadores Portugueses vai tomar uma posição pública esta quinta-feira e, segundo Margarida Gil, deverá justamente escolher como “momento simbólico” para o fazer a exibição do filme João Bénard da Costa – Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos, que passa às 22h no DocLisboa.

A composição dos júris aos quais caberá decidir que filmes irão beneficiar dos apoios do ICA foi votada pelos 18 elementos que integram a SECA, mas a escolha só se tornará definitiva após homologação do titular da Cultura, Jorge Barreto Xavier. Margarida Gil recusa-se a comentar a lista de nomes, centrando-se na crítica ao método de escolha, e sugere apenas que “qualquer um pode ir ver os currículos e tirar as suas conclusões”.

Já Pedro Borges, da produtora de cinema Midas Filmes, não se coíbe de assinalar alguns exemplos de jurados cujo currículo para “decidir o que se filma e não se filma” lhe merece reservas. O produtor cita Mário Augusto, conhecido do grande público pelos seus programas televisivos sobre cinema e pelas suas entrevistas a actores de Hollywood, Fernando Ávila, realizador de várias telenovelas, o radialista João David Nunes, Ana Rocha, actriz revelada na telenovela Morangos Com Açúcar, o jornalista José Fragoso, que foi director de programas da TVI, ou, “sabendo-se a situação em que está o Fantasporto”, a co-directora daquele festival, Beatriz Pacheco Pereira.

Tanto Margarida Gil como Pedro Borges se recusam a enquadrar este episódio na tradicional confrontação entre os defensores do chamado cinema independente e os que advogam um cinema dito mais popular. “Sensibilidades” que, diz Pedro Borges,  “devem ser respeitadas”. O que contesta é que “operadores privados de televisão se reúnam para tomar de assalto a distribuição de fundos públicos”. Também Margarida Gil assegura que “isto não tem nada a ver com questões de gosto”.

O PÚBLICO teve acesso aos nomes indicados para os vários júris, incluindo os suplentes, que só em circunstâncias imprevistas virão a ter alguma intervenção. Para referir apenas alguns dos concursos mais importantes, o júri escolhido para o primeiro concurso anual de longas-metragens inclui, como efectivos Carlos Fragateiro, Fernando Ávila, José Fragoso, João David Nunes e Artur Barros Moreira, sendo os suplentes Anabela Moutinho, Ana Isabel Strindberg e Isabel Lima. No segundo concurso para longas-metragens, os efectivos são Luís Salvado, Mário Augusto, João Wengorovius Meneses, Rafael Antunes e Simão Fernandes, ficando como suplentes Anabela Moutinho (de novo), Joana Ascensão e, finalmente, o ex-subdirector e director interino da Cinemateca, Pedro Mexia.

Aparentemente, nem sempre terá sido confirmada previamente a disponibilidade dos eleitos: João David Nunes já fez chegar ao PÚBLICO a informação de que não integrará o júri para o qual foi escolhido. "Não faço parte de qualquer desses júris, nunca fiz, nem farei, porque, para além do mais, não concordo com o sistema", escreve o radialista.

Beatriz Pacheco Pereira e Ana Rocha integram o júri para as primeiras obras (um dos suplentes é o crítico de cinema Eurico de Barros), e o que irá decidir os apoios a documentários inclui a realizadora Joana Pontes, ao lado de Artur Barros Moreira, Maria João Martins, Ruben Alves e Rafael Antunes. Com menos votos do que os anteriores, são suplentes os dois principais responsáveis do DocLisboa, Augusto M. Seabra e Cíntia Gil, e ainda a historiadora Irene Pimentel.

 

Esta notícia foi alterada no dia 23, às 19h00, para incluir a declaração de João David Nunes.