Sara & André comeram Julião Sarmento

A primeira grande exposição da dupla Sara & André num museu é uma individual de Julião Sarmento. Um casal banal – ela loira, ele moreno – continua a devorar os outros

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Afinal, quem foi ele? Não interessa. Mesmo. Até porque, muito antes, na Antiguidade, já uma versão dessa mesma frase circulava… “A imitação é a mais aceitável forma de adoração. Os deuses prefeririam que a humanidade se lhes parecesse do que tentasse bajulá-los”, poderá ou não ter dito Marco António.
Referência, citação, apropriação, duplicação – nada é “original”, têm repetido ao longo dos tempos centenas de artistas, filósofos, músicos, escritores, realizadores, actores e bailarinos.
Devorar e regurgitar filmes, livros, pinturas, esculturas, fotografias, letras de músicas e poemas. Devorar e regurgitar sonhos, pedaços de conversas alheias, um gesto, uma certa maneira de andar, memórias das vidas de outros… E para quê esconder o roubo quando ele pode ser declarado e celebrado? “O que importa não é de onde tiramos as coisas – é até onde as levamos”, disse um dia Jean-Luc Godard depois citado por Jim Jarmush.
Foi assim, esticando os limites desta lógica, que a partir de meados da década de 1970 Richard Prince começou a fotografar por cima imagens de anúncios da Marlboro. Tal como, um pouco depois Sherrie Levine fotografaria por cima dezenas de imagens de Walker Evans. Essa série – After Walker Evans – tornou-se num dos momentos charneira do chamado “pós-modernismo”. Com um equivalente no vídeo a partir do momento, em 1993, em que Douglas Gordon pegou em Psycho e, ao desacelerá-lo, o transformou no seu 24 Hour Psycho – o Psycho de Hitchcock, mas a durar 24 horas e, por isso, o Psycho de Douglas Gordon. Um gesto elevado ao paroxismo do “mainstream” cinco anos depois, quando, em 1998, Gus Van Sant estreou nos cinemas um “Psycho” que, mais do que “remake”, era o primeiro Psycho feito de novo, em palimpsesto.
Apresenta-se a família de Sara & André – uma longa, vasta e nobre linhagem de ladrões.
“Um dia, o século será deleuziano”, disse Michel Foucault na década de 1970. Estava, certamente, a pensar neles. Em todos eles. Podia estar também a pensar na primeira grande exposição de Sara & André num museu. A exposição do Museu do Chiado que a dupla transformou numa individual de Julião Sarmento.

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Afinal, quem foi ele? Não interessa. Mesmo. Até porque, muito antes, na Antiguidade, já uma versão dessa mesma frase circulava… “A imitação é a mais aceitável forma de adoração. Os deuses prefeririam que a humanidade se lhes parecesse do que tentasse bajulá-los”, poderá ou não ter dito Marco António.
Referência, citação, apropriação, duplicação – nada é “original”, têm repetido ao longo dos tempos centenas de artistas, filósofos, músicos, escritores, realizadores, actores e bailarinos.
Devorar e regurgitar filmes, livros, pinturas, esculturas, fotografias, letras de músicas e poemas. Devorar e regurgitar sonhos, pedaços de conversas alheias, um gesto, uma certa maneira de andar, memórias das vidas de outros… E para quê esconder o roubo quando ele pode ser declarado e celebrado? “O que importa não é de onde tiramos as coisas – é até onde as levamos”, disse um dia Jean-Luc Godard depois citado por Jim Jarmush.
Foi assim, esticando os limites desta lógica, que a partir de meados da década de 1970 Richard Prince começou a fotografar por cima imagens de anúncios da Marlboro. Tal como, um pouco depois Sherrie Levine fotografaria por cima dezenas de imagens de Walker Evans. Essa série – After Walker Evans – tornou-se num dos momentos charneira do chamado “pós-modernismo”. Com um equivalente no vídeo a partir do momento, em 1993, em que Douglas Gordon pegou em Psycho e, ao desacelerá-lo, o transformou no seu 24 Hour Psycho – o Psycho de Hitchcock, mas a durar 24 horas e, por isso, o Psycho de Douglas Gordon. Um gesto elevado ao paroxismo do “mainstream” cinco anos depois, quando, em 1998, Gus Van Sant estreou nos cinemas um “Psycho” que, mais do que “remake”, era o primeiro Psycho feito de novo, em palimpsesto.
Apresenta-se a família de Sara & André – uma longa, vasta e nobre linhagem de ladrões.
“Um dia, o século será deleuziano”, disse Michel Foucault na década de 1970. Estava, certamente, a pensar neles. Em todos eles. Podia estar também a pensar na primeira grande exposição de Sara & André num museu. A exposição do Museu do Chiado que a dupla transformou numa individual de Julião Sarmento.

Diferença e repetição
Mais rigorosamente, Exercícios de Estilo seria uma antológica de Sarmento, cobrindo a totalidade do arco temporal da carreira do artista através dos momentos-chave da sua obra.
Estão lá os exercícios mais conceptuais dos anos 1970 bem como um filme experimental da mesma altura, estão lá as pinturas neo-expressionistas do início da década de 1980 bem como as Pinturas Brancas da década seguinte, e, depois, estão lá trabalhos muito recentes, como a escultura Lady-in-Waiting, de 2012, que Sara & André transformaram no seu Couple-in-Waiting, de 2014.

Diferença e repetição: é verdade que algumas das obras na exposição poderiam facilmente passar por trabalhos de Sarmento. A não ser pelo facto de todas, sem excepção, estarem assinadas pela dupla. E por haver um vermelho vivo que Sarmento nunca usou, lógicas de corte de imagem que fogem à depuração da sua, pequenos elementos iconográficos que a sua obra nunca invocou, densidades e rugosidades sem o mesmo vibrato... Mas a questão não está no virtuosismo da mimese (apesar de ele ser real). Até porque a estratégia apropriacionista de Sara & André não passa pela fidelidade da cópia – Sara & André trabalharam “à maneira de…”, tornando seu.
Trabalham à maneira de Julião Sarmento tal como antes trabalharam à maneira de Nikias Skapinakis, Lourdes Castro, Eduardo Batarda e Joaquim Rodrigo (ainda que nunca em tão grande escala). Criam ilusões referenciais, efeitos de real em que as cumplicidades são tão importantes quanto as dissonâncias.
No caso da colonização da obra de Julião Sarmento, a dissonância mais recorrente e flagrante – e também mais densa de significado – reside no facto de Sara & André se auto-retratarem sistematicamente enquanto casal onde nos referentes a partir dos quais trabalharam estão mais normalmente apenas mulheres. Um “eu plural” , como escreve David Santos, director do museu e comissário da exposição. Um “eu plural” obcecado com a inscrição da sua própria imagem – o que se perfila, na verdade, como a marca autoral desta dupla e do seu projecto crítico sobre os critérios e instâncias de legitimação em arte. A única verdadeira constante num corpo de obra em que não se reconhece um “estilo” – a não ser o dos artistas “citados” – ou, sequer uma coerência – a não ser a que reside na singularidade diferencial de cada núcleo de trabalhos. Isto, com Sara & André, ali mesmo, à vista de todos, a escaparem pelas fissuras do que vem sendo entendido como a “figura do autor”.
Aliás, eles próprios fazem a pergunta: “O que é um autor?”, lê-se numa das capas de livros (de Michel Foucault) em que mimetizam a série análoga de Sarmento. Na mesma série dão outras pistas de leitura tanto para esta exposição como para o programa genérico da sua obra: trabalham, por exemplo, Le Voleur, de Georges Darien, Bartleby, the Scrivener, de Melville,  e Theft is Vision, de Bob Nickas. Depois, no catálogo da mostra, incluem um texto em que o também artista plástico Gonçalo Pena começa por os descrever assim:
“São uma dupla, um casal banal, ela loira ele moreno, mais ou menos da mesma idade. Herdeiros da tradição de crítica institucional exigem um lugar de fama pelo exercício da banalidade de serem o que são.”
É um de vários projectos que vêm desenvolvendo com outros artistas e em que, evitando qualquer produção própria, Sara & André se assumem como impulsionadores de produções laudatórias à sua dupla. Foi assim com Miguel, que, em 2007, fez uma série de graffiti pela cidade de Lisboa com frases como “Sara & André são mais rápidos do que Duchamp”, “Sara & André mataram Gavin Turk”, “Sara & André  destruíram Bruce Nauman” ou “Sara & André riem-se de Joseph Bueys”.
O manifesto antropofágico da dupla está declarado no último desses graffiti: “Sara & André comeram Dan Graham”.
Sara & André comem tudo e todos e, assim, vão-se tornando cada vez mais eles próprios, cada vez mais fortes e maiores.