No Teatro do Bairro há sete vozes presas dentro de uma pessoa

O Teatro Griot mostra como um preso do apartheid pode ser várias pessoas, a partir de terça-feira, no Teatro do Bairro, em Lisboa. As Confissões Verdadeiras de um Terrorista Albino, dirigido por Rogério de Carvalho, adapta ao teatro as memórias do escritor e activista Breyten Breytenbach.

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O desafio foi lançado por António Pinto Ribeiro, programador do Próximo Futuro da Gulbenkian e concretiza-se esta terça-feira, quarta e quinta-feira, no Teatro do Bairro. Esta é a peça de teatro que inaugura o novo ciclo de artes performativas do programa Próximo Futuro que, até meados de Setembro, traz companhias sul-americanas a Portugal. A elas, para além dos portugueses afrodescendentes Teatro Griot, junta-se o Teatro Meridional, dirigido por Miguel Seabra, com Pedro Páramo, a adaptação do romance com o mesmo nome do mexicano Juan Rulfo.

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O desafio foi lançado por António Pinto Ribeiro, programador do Próximo Futuro da Gulbenkian e concretiza-se esta terça-feira, quarta e quinta-feira, no Teatro do Bairro. Esta é a peça de teatro que inaugura o novo ciclo de artes performativas do programa Próximo Futuro que, até meados de Setembro, traz companhias sul-americanas a Portugal. A elas, para além dos portugueses afrodescendentes Teatro Griot, junta-se o Teatro Meridional, dirigido por Miguel Seabra, com Pedro Páramo, a adaptação do romance com o mesmo nome do mexicano Juan Rulfo.

Para além de se integrar nas encenações do Próximo Futuro, As Confissões Verdadeiras de um Terrorista Albino dialoga também com os últimos trabalhos da companhia - é o último episódio do ciclo de teatro dedicado a autores africanos que a companhia iniciou no ano passado. O objectivo era encenar textos de autores africanos vivos que nunca tivessem sido representados em Portugal. Começaram por A Raça Forte, do nigeriano Wole Soyinka, encenada por Nuno M. Cardoso no ano passado. A segunda, A Geração da Utopia, uma adaptação do romance homónimo do angolano Pepetela. O ciclo encerra-se agora com um relato da experiência pessoal de Breyten Breytenbach, escritor e activista sul-africano, preso durante sete anos, da década de 1970.

Nestas memórias conta como, depois de ter saído da África do Sul, em 1959, regressou clandestinamente em 1975 para se envolver nas lutas contra o sistema de segregação racial. Com um passaporte falso, não consegue embarcar de volta para a Europa e é neste ponto que o encontramos na encenação de Rogério de Carvalho. Na sala de embarque é apanhado pelas autoridades e começa uma teia de interrogatórios que o confundem e o levam a concordar com qualquer coisa no limite do cansaço.

“Trouxeram-me a lei do terrorismo”, conta um dos actores vestido de escuro e olhando o infinito como todos os outros. “Disseram que eu era terrorista”, continua, falando sobre o terceiro dia de interrogatório. “Acusado por ter feito passar armas clandestinamente, espionagem, actividades terroristas violentas”, diz ao recordar o momento em que, pela exaustão dos interrogatórios, aceita o rótulo de terrorista.

O monólogo é sempre na primeira pessoa, mas divide-se pelos actores em palco: são sete mas interpretam a mesma personagem, que vai passando por vários estados de espírito. A sensação, para o espectador, é de que aqueles poderiam ser relatos de diferentes pessoas, talvez até mais de sete. “Ao escrever ele absorve coisas que não são dele: são de um recluso que passou por ele, de um guarda. Ele mistura tudo isto. E consegue ele mesmo ser várias pessoas: cada estado de espírito é uma. Há momentos de lucidez, outras de ausência total, e há outros de perversão”, conta o actor Matamba Joaquim, que não consegue definir este sujeito já que ele é o conjunto de todos estes fragmentos.

Para a actriz Zia Soares, o interessante neste trabalho do Teatro Griot com Rogério de Carvalho é levar o espectador a esta ambiguidade humana: “Não há uma personagem fechada. Às vezes parece-me que são várias pessoas, porque na verdade é o que nós também somos”.

Durante duas horas, todos os actores - ou fragmentos de Breytenbach - vão circulando pelo palco, movimentando atrás de si cadeiras, único elemento cénico. Assumindo diferentes posições, falam ora de costas, ora lado a lado, por vezes encarando-se. Apesar da sua dança com cadeiras, o importante é o que estão a dizer e a forma como o fazem.

“Interessava-nos que fosse um texto que possibilitasse a performance do actor”, explica Rogério. E continua: “O teatro neste momento quer contar uma história e levar aquilo até uma realidade psicologisante. Não estou muito interessado nisso. Este investimento é sobre a fala”.

Para o grupo de teatro, esse é o salto que se dá quando se passa um romance para o palco. “O livro é uma coisa fechada, congelada, acabada ali. No teatro, a enunciação e a forma como se diz um texto vai criando imagens e vai criando histórias paralelas. O espectador vai traçando o seu próprio caminho conforme a sua própria vida. O teatro possibilita essa apropriação”, diz Zia.

Como essa apropriação é individual, cada actor tem que sentir que o texto é seu, explica Rogério. É por isso que quando entrega um texto, ele não está decidido. Quando o recebem, actores e encenador resolvem “logo os problemas que ele tem”, explica Giovanni Lourenço, um dos actores. “Se vemos que algumas frases não resultam, cortamos até ficar completamente pessoal”, diz.

De todos estes textos pessoais e personalizados se vê nascer esta personagem: “É como numa partitura”, explica Matamba.