Há uma outra Madeira a acontecer na Ponta do Sol

A Ponta do Sol e a sua Estalagem, que agora acolhem também residências artísticas, são o centro de uma nova vida cultural da ilha — por lá passaram recentemente Nástio Mosquito e Dirty Beaches.

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A imagem é, naturalmente, muito redutora. Mas ainda prevalece quando o nome da Madeira é aflorado. O que não significa que as pequenas ilhas de diferença no interior da ilha não sejam possíveis. Existem. Uma delas é a vila da Ponta do Sol, a meia hora de carro do Funchal, em parte graças ao dinamismo da Estalagem da Ponta do Sol, espaço hoteleiro que é também de acontecimentos culturais. Ali acredita-se na ligação entre cultura e turismo. Na reutilização de espaços inexplorados para criação artística. E no conhecimento partilhado entre pessoas que não se conformam com a melancolia da crise. Em retorno, tem a confiança do público mais exigente da ilha. Pessoas que acorrem mesmo quando não sabem muito bem ao que vão. Foi isso que aconteceu na semana passada, quando ali actuou Dirty Beaches, ou seja Alex Zhang Hungtai, o canadiano com origens em Taiwan que agora reside em Lisboa.

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A imagem é, naturalmente, muito redutora. Mas ainda prevalece quando o nome da Madeira é aflorado. O que não significa que as pequenas ilhas de diferença no interior da ilha não sejam possíveis. Existem. Uma delas é a vila da Ponta do Sol, a meia hora de carro do Funchal, em parte graças ao dinamismo da Estalagem da Ponta do Sol, espaço hoteleiro que é também de acontecimentos culturais. Ali acredita-se na ligação entre cultura e turismo. Na reutilização de espaços inexplorados para criação artística. E no conhecimento partilhado entre pessoas que não se conformam com a melancolia da crise. Em retorno, tem a confiança do público mais exigente da ilha. Pessoas que acorrem mesmo quando não sabem muito bem ao que vão. Foi isso que aconteceu na semana passada, quando ali actuou Dirty Beaches, ou seja Alex Zhang Hungtai, o canadiano com origens em Taiwan que agora reside em Lisboa.

Para as cerca de 400 pessoas que preenchiam o relvado contíguo ao edifício mais antigo da estalagem, com a lua, o oceano e o casario da vila como testemunhas, a música de Dirty Beaches era desconhecida. Mas não foi por isso que deixou de ser um excelente concerto. O próprio músico, ajudado pelo guitarrista e teclista Subhayan Roy, percebeu o desafio. Aquele não era o seu público convencional, capaz de reconhecer à primeira uma sonoridade libertadora, atravessada por muitas influências (Suicide, Elvis, rockabilly, pós-punk, electrónica), mas extremamente distintiva. Foi um concerto em crescendo, com os dois performers e o público a passarem da estranheza inicial para a comunhão final – Alex na voz e no saxofone a fazer uso de ecos e reverberações, de olhos fechados e corpo tenso.

Fizeram-se ouvir canções do seu último álbum, Drifters/Love Is The Devil (2014), mas, mais do que este ou aquele tema, fica o ambiente hipnótico, com a assistência a não conseguir retirar os olhos do transe físico de músico, rendida. Para ele foi um exercício não poder alimentar-se da energia do público e ter de procurar dentro de si momentos de superação. E para a maior parte dos presentes acabou por ser uma revelação. “Procurei ouvir algumas coisas no YouTube antes de vir, mas ao vivo é sempre diferente. Não conhecia muito bem, mas gostei muito”, diz-nos no final Marisa Alventre, copy numa agência de publicidade, natural do Funchal, a residir em Lisboa, de férias na Madeira natal. “É óptimo poder assistir a este tipo de acontecimentos aqui. É um sintoma de que, apesar de tudo, é possível fazer coisas diferentes.”

Esse é um dos objectivos dos Concertos L, festival de espectáculos intimistas assentes numa curadoria selectiva que constituiu um espaço de referência regional durante o Verão. Por ele já passaram, desde 2009, nomes como Thurston Moore, Dead Combo, António Zambujo, B Fachada, A Naifa, Gala Drop, Filho da Mãe, Samuel Úria, Tcheka, Lula Pena ou Norberto Lobo. Este ano já lá tocaram Nástio Mosquito ou Peixe: Avião; seguir-se-ão Mão Morta (já na próxima quarta-feira, dia 27), Emika, Mazgani, Capicua, Noiserv ou Aline Frazão.

“Às vezes os músicos ficam confusos por serem convidados para tocar num hotel e temos de lhes explicar que isto não é um hotel convencional”, diz-nos por entre sorrisos Nuno Barcelos, curador dos Concertos L e responsável pela imagem da estalagem. “Acima de tudo existe a preocupação de que esta programação de 16 concertos contemple vários géneros, pautados pela qualidade e por serem pouco comuns na Madeira.” E dá um exemplo: “Os Mão Morta fizeram 30 anos de carreira mas será a primeira vez deles aqui na Madeira.”

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A estalagem situa-se numa das encostas da vila, com uma vista privilegiada para o casario e para o imenso oceano; os diferentes espaços estão separados, criando zonas diferenciadas. É essa configuração singular que permite a realização regular de eventos, sem que os hóspedes ocasionais sejam incomodados. Para além dos Concertos L, a estalagem é conhecida por ser co-organizadora (em conjunto com a fundadora APCA e a empresa internacional Digital In Berlin) dos festivais MadeiraDig, dedicado às músicas exploratórias de vocação electrónica, e Madeira Micro International Film Festival, evento de cinema experimental. 

O MadeiraDig já tem 11 anos de vida e tem levado à estalagem e ao Centro de Artes Casa das Mudas, na Calheta, alguns dos músicos mais aventureiros do nosso tempo, como Tim Hecker, William Basinski, Grouper, Fennesz, Oval, Lee Ranaldo, Jamie Lidell, Alva Noto, Ben Frost ou Oneohtrix Point Never. Realiza-se na primeira semana de Dezembro e 90% do público vem do centro da Europa. É um festival para público minoritário, mas o seu efeito faz-se sentir nos circuitos mais exclusivistas. Em Berlim, por exemplo, a Madeira já é mais associada ao MadeiraDig do que ao turismo massivo. O festival de cinema é mais recente, acontecendo numa sala de cinema centenária da vila. “Não vamos a feiras de turismo, nem anunciamos em revistas de viagens, mas acreditamos na cultura com vocação turística”, refere o proprietário da estalagem, André Diogo. “Em tudo o que nos envolvemos existe responsabilidade social, um propósito comunitário, mas isto é também, claro, um negócio. O turismo de praia e sol não chega. São precisas outras motivações. Diferenciar. Trazer outros públicos. E são os acontecimentos a que estamos associados que trazem gente que de outra forma não viria.”

Ao longo dos anos, muitas desses espectadores foram enaltecendo as qualidades da vila, a tranquilidade e o clima temperado mesmo no Inverno, continua André Diogo: “Começaram a dizer-nos que estávamos apenas a três horas da Alemanha e que este era um sítio fantástico para criar, especialmente em meses como Janeiro ou Fevereiro, quando nesses países está muito mau tempo e aqui está óptimo."

 

Dar o melhor


E foi aí que começou a desenhar-se a hipótese de a vila da Ponta do Sol poder transformar-se num lugar de residências artísticas, forma também de reabilitar urbanisticamente a vila com linhas de apoio europeu. Alguns músicos já o fizeram no passado recente, mas agora trata-se de oficializar a ideia, com o projecto Ponta do Sol Colectivo, desenvolvido pela Estalagem e pela Associação Travessias Culturais.

Apesar da sua pequena dimensão, a vila possui alguns importantes equipamentos culturais, como o Centro Cultural John dos Passos – o escritor americano é descendente de um imigrante da Ponta do Sol. E acima de tudo possui muitas casas que se encontram desabitadas. “Cerca de 80% do casario na parte nobre da vila está fechado e em condições de receber pessoas”, afirma André Diogo, “restando sensibilizar a Câmara para este potencial, no sentido de serem recuperados alguns edifícios históricos para residências, salas de trabalho, estúdios e alojamento.”

Alex Zhang Hungtai (Dirty Beaches) foi um dos músicos que já aproveitaram as condições da Ponta do Sol, trabalhando durante alguns dias numa das salas insonorizadas do Centro Cultural John dos Passos. O mesmo aconteceu com o músico e artista angolano Nástio Mosquito, que ali esteve há algumas semanas. “Foi uma oportunidade como poucas de desenvolver trabalho, num lugar lindo, tranquilo e com disponibilidade para dar o melhor de si”, afirma, recordando as pessoas do hotel, o cenário do concerto e o tratamento sem mácula de que foi alvo. “A única coisa que faltou realmente foi mais tempo para curtir tudo o que o lugar tinha para oferecer”, acaba por dizer.

Mas a primeira residência artística oficial só agora está a decorrer: começou a 15 e prolonga-se até amanhã, dia em que os 13 jovens músicos da Madeira envolvidos no projecto – que estudam em Lisboa ou em países europeus – apresentarão duas composições originais de Rodrigo B. Camacho e Milena Mateus. Para já estão num edifício cedido pela Câmara (Casa do Cacto); nos dias em que o visitámos, o entusiasmo era enorme. Os quartos e as salas necessitam de obras, mas para já é possível trabalhar ali com afinco e depois descansar.

Uma das peças a apresentar parte de citações de Alberto João Jardim, retiradas de textos de opinião publicados no Jornal da Madeira ao longo de mais de 30 anos. “Quis trabalhar com coisas que me revoltam, mas não o faço de forma partidária – cada um tirará as suas próprias conclusões”, diz-nos Milena Mateu, que estuda composição na Goldsmiths de Londres, o mesmo acontecendo com Rodrigo B. Camacho, que em Dezembro último recebeu o prémio de Melhor Compositor Jovem da BBC. Como os restantes, têm pouco mais de 20 anos; a maior parte conhecia-se de vista, do Conservatório do Funchal. “Agora que nos reencontrámos aqui, foi como reavivar memórias, porque entretanto fomos todos para fora e redescobrimo-nos agora nos mesmos interesses”, reflecte Milena.

 

Abertos ao mundo

Interessa-lhes criar nova música e se possível inovadora, afirma Rodrigo B. Camacho, que assume o papel de maestro, coordenando os movimentos dos restantes com uma energia transbordante. “Estamos constantemente a querer fazer projectos, a criar as nossas próprias oportunidades e a ter consciência social”, reflecte. “Este trabalho é sobre nós. É sobre sermos madeirenses e até sobre termos características fonéticas comuns.”

Simbolicamente, é também sobre uma nova geração de madeirenses aberta ao mundo, como deseja ser a Ponta do Sol. “A ideia é o intercâmbio e isto não ficar uma coisa regional”, adianta André Diogo, salientando que em Janeiro uma universidade holandesa trará alunos de ensino artístico para a vila, e a companhia parisiense Theatre de L’Opprimé, que organiza o festival MigrActions, levará artistas portugueses para Paris e trará franceses para a Ponta do Sol. Os berlinenses Digital in Berlin, os brasileiros Loucomotion, a lisboeta Galeria ZDB ou uma empresa italiana especializada em fundos europeus serão outros dos parceiros centrais.

Um dos colaboradores regulares, desde 2010, na programação dos concertos de Verão da Estalagem, tem sido aliás Sergio Hydalgo, da ZDB. "A curto e médio prazo, estamos também a pensar em desenvolver residências de criação com artistas nacionais e internacionais, à semelhança do que já tenho feito na ZDB”, adianta. Um dos exemplos felizes desse projecto, afirma, é o novo álbum da americana Liz Harris (Grouper), que resulta de uma residência proposta e desenvolvida pela ZDB com a sua curadoria.

Os dados estão lançados. Na Ponta do Sol existe a conjugação de esforços de muita gente, afirma André Diogo, salientando o papel que a Câmara e que o arquitecto Paulo David (criador do Centro das Artes Casa das Mudas), também ele integrante da Associação, podem ter no sentido de que as características nucleares da vila se mantenham.

“É preciso mover isto”, dizia-nos Marisa Alventre na noite de Dirty Beaches, referindo-se, claro está, à Madeira. “Isto tem imenso potencial, mas parece-me que entrou num certo marasmo. Aqui sente-se que a crise é bem mais profunda do que no continente e nota-se a erosão no turismo massificado, que é igual em todo o lado. A solução pode passar por criar nichos de mercado.”

Na Ponta do Sol estão identificadas as potencialidades. Tranquilidade. Clima. Equipamentos culturais. Casario. Escala. E uma pequena mas irrequieta dinâmica cultural com futuro. Ninguém acha que o caminho é fácil. Mas o sinal luminoso da esperança acendeu-se. Às vezes é o mais importante.